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Procissão Nosso Senhor dos Passos reúne 40 mil pessoas no centro de Florianópolis

Evento religioso marcado pela tradição e simbolismo está em vias de se tornar bem imaterial nacional; técnicos do Iphan acompanharam cortejo

Fábio Bispo
Florianópolis
18/03/2018 às 20H52

O simbolismo característico da Procissão Senhor dos Passos voltou às ruas de Florianópolis reunindo milhares de fiéis no cortejo que remonta a primeira queda de Jesus Cristo no caminho do calvário. A devoção à imagem do Cristo carregando a cruz é considerada uma das maiores celebrações e mais antiga procissão religiosas do sul do país, chegando este ano à sua 252º edição. A celebração teve início no dia 11 de março, com a missa de investidura de novos irmãos, e encerrada com o retorno das imagens de Nosso Senhor dos Passos e de Nossa Senhora das Dores à Capela Menino Deus, na tarde de domingo (18), como reza a tradição, a 15 dias da Páscoa.

Fiéis aproveitam o momento para fazerem suas preces ou agradecerem pelas graças já alcançadas - Marco Santiago/ND
Fiéis aproveitam o momento para fazerem suas preces ou agradecerem pelas graças já alcançadas - Marco Santiago/ND


O ritual conserva uma das principais atribuições da Irmandade Senhor Jesus dos Passos, criada em 1765 para guardar e proteger a imagem que saiu de Salvador (BA) em uma carga de mercadorias e aportou na então Desterro — antigo nome de Florianópolis — em 1764. Reza a lenda que a imagem tinha como destino a cidade de Rio Grande (RS), mas depois de três tentativas de seguir viagem, as más condições de navegação não permitiram que a imagem esculpida em madeira, que tem sua autoria atribuída ao baiano Francisco das Chagas, deixasse a cidade. Um marinheiro religioso teria sugerido que o Senhor Jesus dos Passos não queria deixar a cidade.

Segundo o historiador e responsável pelo arquivo histórico da Irmandade, André Luis da Silva, fiéis teriam visitado a imagem ainda no porto, próximo ao Mercado Público. “Não se sabe ao certo a data que a imagem chegou à cidade, mas sabemos a data de fundação da Irmandade, que foi criada justamente para guardá-la”, explicou Silva.

A primeira procissão, de fato, ocorreu em 1764 e desde então, todos os anos, fiéis aproveitam o momento para fazerem suas preces ou agradecerem pelas graças já alcançadas. Mercedes Bessa, 74, é uma dessas pessoas que desde que se conhece por gente acompanha a procissão. “A primeira vez que eu vim ainda era criança, vim com meus padrinhos, desde então sempre venho”, conta.

Há 40 anos, Mercedes foi diagnosticada com grave problema de coluna. Segundo conta, os médicos não lhe davam outra opção a não ser usar cadeira de rodas para se locomover. “Eu pedi para o Senhor dos Passos e no ano seguinte fiz toda procissão de pés descalços. Quando apareci diante do médico ele não acreditou”, contou.

Cerca de 40 mil pessoas acompanharam o cortejo neste ano - Marco Santiago/ND
Cerca de 40 mil pessoas acompanharam o cortejo neste ano - Marco Santiago/ND



Pregador pediu que fiéis também fiquem atentos à política

Desde sua fundação, a Irmandade do Senhor Jesus dos Passos sempre reuniu lideranças locais. Além de proteger a imagem e promover a procissão, a Irmandade também preserva o legado deixado por Joana de Gusmão, beata que idealizou a construção da Capela Menino Deus e que tinha como missão a caridade. Um desses legados é a manutenção do Imperial Hospital de Caridade, criado após a Irmandade instituir a caridade aos pobres como atribuição. Parte dos restos mortais de Joana de Gusmão também fazem parte dessa simbologia e estão depositados em uma urna, na parede esquerda da Capela, junto da imagem do Senhor dos Passos, atendendo um pedido da própria beata.

Desde então, a caridade e a ligação com lideranças políticas é marca histórica da Irmandade. Neste domingo, por exemplo, personagens como o governador do Estado, prefeito e deputados, participaram do cortejo, carregando os principais símbolos da procissão. O pálio, sob o qual estava o arcebispo metropolitano, Dom Wilson, por exemplo, foi carregado pelo comandante da PM, Araújo Gomes, mais sete personagens políticos, incluindo o governador Pinho Moreira (MDB) e o prefeito Gean Loureiro (MDB). Já o andar com a imagem do Senhor dos Passos, contou com a presença do ex-governador e deputado federal Esperidião Amin (PP).

Ao falar para os fiéis, o pregador Dom Orlando Brandes, arcebispo da Arquidiocese de Aparecida, disse que as cinco chagas do cristo crucificado são também as chagas do povo brasileiro. E pediu que em outubro a população consiga cumprir seu papel e promover a mudança política que o país precisa.

Pregador pediu que fiéis também fiquem atentos à política - Marco Santiago/ND
Pregador pediu que fiéis também fiquem atentos à política - Marco Santiago/ND



PM fala em 40 mil fiéis neste domingo

Uma das batalhas que a Procissão do Senhor dos Passos tem enfrentado é o reconhecimento do evento religioso como bem imaterial nacional, títulos que já foram conquistados em nível estadual e municipal. Um dos medidores para que este pedido seja atendido é justamente o impacto que a procissão tem sobre as pessoas que vivem na cidade.

Este ano, segundo informações da Polícia Militar, cerca de 40 mil pessoas acompanharam o cortejo. Já a organização da procissão disse que somados os públicos de sábado, quando foi feito o traslado das imagens da Capela para a Catedral, cerca de 65 mil pessoas acompanharam os eventos.

Técnicos do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) também acompanharam o cortejo como modo de auferir no processo de reconhecimento da procissão como bem imaterial nacional o impacto da procissão na cidade.

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