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"Presidente Michel Temer deveria imitar o ex-presidente Itamar Franco", diz Pedro Simon

Líder de governo de Itamar, político com quase 60 anos de vida pública avalia que Temer paga caro pelo troca-troca em busca de apoio para a aprovação de projetos

Altair Magagnin
Florianópolis
15/09/2017 às 20H03

As coincidências entre Itamar Franco e Michel Temer param no fato de sucederem presidentes defenestrados por um impeachment. Líder do governo Itamar, Pedro Simon (PMDB) lamenta que Temer enveredou pelo caminho do troca-troca para compra de apoio político, enquanto que seu antigo chefe preferiu articulações mais republicanas. Aos 87 anos, 57 deles destinados à vida pública, Simon passou por Florianópolis na quinta-feira (14). Hoje, após ocupar cargos de deputado, senador e governador do Rio Grande do Sul, percorre o Brasil em palestras. Para o pleito presidencial de 2018, alerta contra a escolha de um “caçador de marajás”, como em 1989. 

Pedro Simon esteve quinta-feira em Florianópolis - Marco Santiago/ND
Pedro Simon esteve quinta-feira em Florianópolis - Marco Santiago/ND



Como avalia o governo de Michel Temer?

O equívoco que o Temer cometeu foi fazer um governo de troca-troca para ter a maioria no congresso. É verdade que ele diz que a Dilma tentou não fazer isso e teve que voltar atrás. Ele diz que está conseguindo algumas vitórias porque tem a imensa maioria. Mas, o preço é muito caro. Agora, que ele está se esforçando, trabalhando, tentando fazer alguma coisa, a gente tem que reconhecer. 

O senhor foi líder do governo Itamar Franco. Em outras entrevistas, comentou que Itamar não fez esse tipo de acordo.

O Itamar fez um governo de gente séria, sem compromisso com o partido. Lançou o Plano Real, o plano mais importante que o Brasil já teve. Nós não compramos ninguém, o Congresso debateu, discutiu, analisou e votou. 

Mas, é possível fazer um governo sem compra de apoio?

Hoje ainda mais que as outras vezes. A imprensa está aberta, o povo está acompanhando, as coisas estão sendo vistas de uma maneira geral. Dá para governar de uma maneira aberta e discutir com a sociedade. 

O senhor concorda com as reformas?

São importantes e necessárias. Não vou discutir o mérito, mas as reformas da Previdência e trabalhista foram muito aceleradas. São matérias importantes, que o governo fez meio de corrida. 

A reviravolta na delação da JBS compromete a Operação Lava Jato como um todo?

Na delação da JBS, teve um momento em que eu disse ‘tô achando estranho’. Parece que foi o procurador-geral quem fez. O negócio da mala, a gravação das perguntas para o presidente da República e, realmente aconteceu. Aquilo foi um erro, mas o resto não dá para discutir, as questões estão sendo provadas, as pessoas estão indo para a cadeia. Eu acho que a coisa está absolutamente certa. 

Lula se diz injustiçado. O senhor concorda?

Claro que não, claro que não. Eu tenho uma mágoa profunda do Lula. Ele perdeu três eleições, se manteve firme, ganhou a quarta, a quinta, com a Dilma, a sexta e a sétima, estava no caminho e se desviou. Os empresários pegavam ele, colocavam no jatinho e levavam para fazer palestras, pagavam 200 mil dólares, e voltava. A troco de que uma empreiteira daria 200 mil dólares para ele dar uma palestra? Depois voltar, em um jatinho particular? Ele se deixou levar, infelizmente. 

O que o senhor espera da próxima eleição para a presidência?

O medo que eu tenho é que apareça um ‘caçador de marajás’. No meio daquela confusão toda, naquela eleição [1989], tinha o Lula, o [Leonel] Brizolla, o [Mário] Covas, um melhor que o outro. Dentre todos, foi ganhar um cara que ninguém sabia quem era. Um pobre coitado, que fez aquela desgraça toda. Agora está começando isso. Já estão pegando o [Jair] Bolsonaro, estão fazendo dele um extremista de direita, que quer salvar o Brasil. Se o povo se capacitar e se os partidos se capacitarem, nós teremos uma eleição de maneira diferente. Não vai ser igual ao Lula, eleito por um grande publicitário, em que ele aparecia como um Deus. 

O senhor era chamado de “reserva moral do Congresso”. Porque essas figuras parecem escassas na política. O que disvirtua o político?

Geralmente, essas pessoas são reservadas, não são ousadas. Não são aqueles que vem, dão soco na mesa. Mas, acho que tem muita gente boa. O presidente [Temer] podia ter feito um baita governo. Pessoas de gabarito, seriedade, existem em todos os lugares, agora, quando tem um ambiente como esse, elas desaparecem. O Itamar fez, buscou as pessoas, deu a linha. Quando o chefe da Casa Civil [Henrique Hargreaves], o homem mais íntimo dele, apareceu na CPI dos Anões do Orçamento, se afastou. Provou que não tinha nada, voltou. Quando o Temer assumiu, eu falei, tem que imitar o Itamar. Quando o Itamar assumiu, ele fez uma reunião com todo o ministério e todos os presidentes de partidos. Estavam lá o Brizolla, o Lula, o [Miguel] Arraes, o doutor Ulisses [Guimarães]. Ele disse o seguinte: ‘Eu não tenho voto popular, quem me botou aqui foi o Congresso. Eu tenho que entender que eu estou aqui em uma situação excepcional. Quero fazer um acordo. Eu não tomo nenhuma decisão importante sem reunir vocês. Vocês também, se quiser fazer alguma coisa, vamos nos reunir e fazer’. Quando ele lançou o Plano Real, todo mundo concordou. Não precisou comprar ninguém. E deu certo.

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