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Presente desde a base cultural, comunidade negra se destaca na economia criativa

Consciência Negra marca data para reflexão sobre papel da população afrodescendente no passado e no presente

Fabio Bispo
Florianópolis
20/11/2018 às 14H39

Na moenda de cana para os alambiques e engenhos, eles estavam lá. Os braços que assentaram os tijolos para erguer sobrados e prédios públicos, também eram deles. Eles estavam na caça da baleia, que na época tinha forte caráter da cultura popular, fazendo a força que faltava para aquela economia. Eles passaram em todas as regiões do Estado. Criaram seus próprios clubes, no início do século passado, e ainda hoje resistem nos diferentes tipos de quilombos que remanescem.

As irmãs Elisa (à esq.) e Rô Freitas focam na valorização da mulher negra das comunidades periféricas - Ana Machado/Divulgação/ND
As irmãs Elisa (à esq.) e Rô Freitas focam na valorização da mulher negra das comunidades periféricas - Ana Machado/Divulgação/ND


O negro e sua cultura se confundem com a própria história do povo brasileiro. Mesmo assim, todos os anos, desde 2003, o 20 de novembro é marcado pelo Dia da Consciência Negra para lembrar e refletir. “É uma data importante para refletirmos historicamente sobre essas lutas coletivas e individuais, mas é preciso pensar que é uma luta de um movimento que não chegou de graça. Ela celebra uma vitória de um movimento que luta todos os dias”, explica o professor de teoria da história da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina).

E mesmo tendo passado 130 anos desde a abolição, as marcas da sociedade escravocrata que fomos permanecem nas sutilezas. Atualmente, duas em cada três pessoas desempregadas são negras. Os pedidos de financiamento de crédito aos empreendedores negros têm uma taxa de recusa até três vezes maior que a dos empresários brancos. Dos 10% mais pobres no Brasil, 75% são negros.

Mas qual é o lugar do negro na sociedade atual? Para onde caminha a etnia que serviu de base para miscigenação que dá origem à boa parte da cultura e dos costumes que ainda hoje repetimos sem nos dar conta?

Para Nina Silva, especialista em tecnologia e fundadora do Movimento Black Money, o movimento negro tem que conquistar o seu espaço cada dia mais e não apenas aceitar o espaço que lhes é dado na sociedade. A empresária foi considerada uma das 100 pessoas afrodescendentes mais influentes do mundo pela ONU (Organização das Nações Unidas). Na prática, Nina tirou do papel o conceito de coletividade aplicada à economia, um programa de desenvolvimento do ecossistema afroempreendedor, onde a diversidade étnica dos negócios se reverte em mais ganhos.

Black Money catarinense

As palestras e workshops de Nina Silva têm difundido em todo o território nacional os conceitos da economia diversificada. Ela conta que segundo estudos uma pessoa chega a pagar até 20% a mais se sentir que aquela marca ou segmento lhe representa como humano. “Mas não vamos conseguir o reconhecimento só pedindo inclusão nas empresas, e sim fortalecendo nossas próprias instituições”, disse.

Em Florianópolis, depois de acompanhar uma das palestras de Nina, a modelo Elisa Freitas, 28 anos, que foi eleita miss Santa Catarina em 2014, decidiu implantar as estratégias do Movimento Black Money na marca ER Freitas, grife social criada com a irmã, Rô Freitas, que foca na valorização da mulher negra das comunidades periféricas.

“Essa mulher é maioria nessas comunidades e exercem diferentes papéis e todos de grande importância”, conta Elisa. Atualmente a grife divulga a coleção Resistence. “Uma produção de moda com a beleza comum, negra, do dia a dia, do cabelo black, do morro, das dificuldades e alegrias comum ou não às mulheres que deram vida e se tornaram o propósito deste projeto”, disse.

Data é marcada por ações

O Dia da Consciência Negra será marcado por uma série de eventos, mostras e atividades, principalmente nas escolas da região. Na quarta-feira (21) e quinta-feira (22), o projeto “Ruptura do invisível”, do artista Sérgio Adriano H., estará na Fundação Badesc, em Florianópolis, com uma proposta de provocar as leituras que temos do negro em nossa sociedade.

Sérgio Adriano H. expõe trabalhos do projeto “Ruptura do invisível” - DIV 5/Divulgação/ND
Sérgio Adriano H. expõe trabalhos do projeto “Ruptura do invisível” - DIV 5/Divulgação/ND


Os trabalhos da exposição de Sérgio Adriano decorrem de uma intervenção do artista nas obras da série “O visível do invisível”, onde o artista emprega sabão em pó e água sanitária, produto de limpeza que garante o branqueamento, como gesto de distorcer e externar a dor de ser negro no Brasil. O projeto é uma das iniciativas premiadas no Edital Elisabete Anderle 2017 com entrada gratuita das 12h às 17h.

Na Capital, em Florianópolis, a Secretaria de Educação da Capital promove nesta terça-feira (20) o 12º Seminário da Diversidade Étnico-Racial. Serão palestras, conferências, mesas de debate, apresentações de trabalhos de pesquisa, apresentação de experiências escolares e oficinas trarão a representatividade negra nos materiais pedagógicos e na literatura, destacando seu papel histórico e fundamental nos diversos aspectos que compõem o desenvolvimento do país. O evento ocorre das 8h às 17h, no Centro de Educação Continuada da secretaria, na rua Ferreira Lima, 82.

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