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Pouco lembrada, atuação feminina foi decisiva na Revolução de 1932

Comemorada nesta segunda-feira no estado de São Paulo, a Revolução Constitucionalista de 1932 teve na linha de frente duas Marias, que se tornaram símbolos

Folha de São Paulo
São Paulo (SP)
08/07/2018 às 18H57

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pouco lembrada, a participação das mulheres foi decisiva durante a Revolução Constitucionalista de 1932, comemorada nesta segunda (9) no estado de São Paulo.

Uma minoria esteve na luta armada, mas longe do front elas trabalhavam em diferentes áreas, seja na produção de armamentos, prestando socorro aos feridos ou alimentando as tropas. Na linha de frente, duas Marias se tornaram símbolos.

Revolução Constitucionalista de 1932 é comemorada nesta segunda em São Paulo - Reprodução
Revolução Constitucionalista de 1932 é comemorada nesta segunda em São Paulo - Reprodução


Maria José Barroso era uma mulher negra que trabalhava como cozinheira. Quando a Revolução começou, ela foi incorporada ao destacamento militar da legião negra e voluntariamente passou a pegar em armas na cidade de Buri. Ficou conhecida como "Maria Soldado". 

Maria Stela Rosa Sguassábia era professora e se infiltrou nas tropas após ver um soldado desertar. Foi autorizada pelo comandante do batalhão, Romão Gomes, a permanecer na luta. Um preso por Sguassábia se envergonhou com o fato de ela ser mulher, conta o historiador Rodrigo Gutenberg, presidente do conselho fiscal da Sociedade Veterana de 1932.

Segundo ele, Gomes, então, teria dito ao detido que ele estava sendo preso por um de seus melhores soldados. Depois da Revolução, Maria Soldado voltou a trabalhar como cozinheira. Vendia quitutes em frente ao Hospital das Clínicas e morreu pobre na rua da Consolação, em 1958. Seus restos mortais são os únicos de uma mulher combatente depositados no obelisco Mausoléu aos Heróis de 32, no Ibirapuera. 

Já Sguassábia perdeu o emprego público de professora e foi discriminada por ter lutado com homens, relata o historiador.

Outras mulheres foram importantes, apesar de não serem comumente lembradas pela participação no movimento - cujo objetivo era derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas e levar à convocação de uma Assembleia Constituinte. A revolta acabou depois de três meses, com a rendição dos paulistas.

À frente da Cruzada Pró-Infância - entidade filantrópica formada e dirigida por mulheres que prestava assistência médica, social e sanitária a mulheres e gestantes - Pérola Byington teve participação ativa na Revolução.

A Cruzada confeccionava ataduras e peças de roupas para os soldados e prestava assistência às famílias de combatentes. Criou centros de assistência social, realizava visitas, arrecadava doações em jóias e também alimentos. 

Em 1959 foi inaugurado o Hospital Cruzada Pró-Infância, que em 1963 recebe o nome de Pérola. O local se tornou referência no atendimento a mulheres que sofreram violência sexual.

Assim como a Cruzada, outras organizações de mulheres também prestaram serviços essenciais para o movimento revolucionário, como a Liga das Senhoras Católicas, que ajudou mais de 100 mil pessoas, serviu 180 mil refeições e confeccionou 80 mil fardas e 60 mil compressas e ataduras.

Gutenberg conta que, na faculdade de engenharia da USP, as mulheres foram chamadas a fazer cartuchos e capacetes e se tornaram símbolo da campanha do ouro, doando as alianças para arrecadar fundos. 

Nas oficinas e nas próprias casas, elas costuravam os fardamentos. A produção que em julho era de cerca de 62 mil peças chegou a 440 mil um mês depois, graças à mão de obra de 7.200 mulheres. Analisando correspondências cedidas pela família Junqueira Franco, a equipe do MIS (Museu da Imagem e do Som) encontrou relatos de Marina Freire Junqueira Franco, que foi voluntária na cozinha na Casa do Soldado em Cruzeiro.

A partir da documentação, o museu organizou e mantém em sua página uma exposição permanente intitulada "A Mulher na Revolução de 1932".

Outros pesquisadores têm se debruçado sobre a participação feminina no período, caso da artista plástica Camila Giudice. Ela conta que começou a se interessar pelo assunto quando descobriu que o avô fora combatente. Mais tarde, soube que a que a avó, Evani Fontão Giudice, ainda criança, ajudava a mãe a costurar na casa de fardas. Elas também estiveram à frente do atendimento a feridos, atuando na Cruz Vermelha, assim como Maria José e Odete Loyola, irmãs da bisavó de Camila.

O DAF (Departamento de Assistência aos Feridos) era organizado e dirigido por Carlota Pereira de Queiroz, Maria Guedes Penteado de Camargo e Lucia Burchard Revoredo. Carlota se aproximou dos líderes do movimento. Ainda em 1932 as mulheres foram autorizadas a votar e, em 1934, ela integrou a Constituinte e foi eleita a primeira mulher deputada federal do país.

"A participação da mulher acabou ajudando na plena cidadania da mulher brasileira, que até aquele momento era vista como cidadã de segunda categoria", afirma o historiador e major da Polícia Militar Sérgio Marques. 

Giudice lembra a revolução ajudou na inserção de mulheres no mercado de trabalho. "O papel da mulher na sociedade se inverte porque ela passa a ser a responsável, assumindo o lugar dos maridos que haviam ido para as trincheiras. Essa transformação social foi um dos aspectos mais importantes. A partir daí ninguém segura mais."

DESFILE CÍVICO-MILITAR

Segunda (9), em frente ao obelisco do Ibirapuera (av. Pedro Álvares Cabral, s/n), por volta das 10h. 

MULHERES NA REVOLUÇÃO DE 1932

Entre 72 mil a 200 mil mulheres atuaram durante o confronto no estado, produzindo fardas, capacetes e armamentos, alimentando as tropas e cuidando de feridos. Algumas delas:

- Maria José Barroso (1895-1958): Conhecida como Maria Soldado, começou a atuar nas trincheiras na cidade de Buri.

- Maria Stela Rosa Sguassábia (1899-1973): Combateu após ver um soldado que desertou, disfarçada inicialmente de homem.

- Carlota Pereira de Queiroz (1892-1982): Prestou socorro a soldados. Após a revolução, foi eleita a primeira deputada federal do Brasil.

- Pérola Byington (1879-1963): Dirigiu a Cruzada Pró-Infância que prestava assistência aos soldados e suas famílias.

CRONOLOGIA DA REVOLUÇÃO

3.out.1930

É deflagrado o movimento que levou o gaúcho Getúlio Vargas ao poder. Ele assume um governo provisório depondo Washington Luís da Presidência da República.

17.fev.1932

Os grandes partidos de São Paulo criam a Frente Única Paulista, que exigia nova Constituição para o país.

23.mai

Quatro estudantes são mortos durante um protesto contra Vargas em São Paulo; de suas iniciais surge a sigla MMDC.

9.jul

Militares antecipam a deflagração da mobilização, marcada para 14 de julho, pegando aliados de surpresa.

22.ago

Primeiro combate aéreo no país, em Cruzeiro: dois aviões paulistas enfrentam dois aviões federais.

12.set

O governo ocupa o porto de Santos, sob bloqueio desde o início da revolta, mas os combates seguem até dia 24.

2.out

As tropas paulistas se rendem ao governo Vargas; líderes do movimento vão para o exílio.

3.mai.1933

São realizadas eleições no país para a escolha da Assembleia Nacional Constituinte, demanda dos paulistas.

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