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Porteiro impediu destruição de acervo da Biblioteca Pública do Estado

Homem de pouco estudo, João Chrisóstomo Paiva denunciou a intenção de José Artur Boiteux, destacado inte­lectual, político e advogado da época, de se desfazer das coleções de jornais do século 19

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
25/07/2018 às 12H21

Por uma dessas circunstâncias que só a his­tória é capaz de engendrar, quis o destino que um pintor de paredes que ingressou no serviço público fosse o responsável pela salvação de parte significativa do acervo da Biblioteca Públi­ca do Estado, em Florianópolis. Um ex-diretor da casa, preocupado com a falta de espaços para o material que aumentava a cada ano, decidiu se desfazer das coleções de jornais do século 19, que considerava de pouco valor e utilidade. Foi quando João Chrisóstomo Paiva (1876-1964), en­tão porteiro da biblioteca, denunciou a intenção do diretor a José Artur Boiteux, destacado inte­lectual, político e advogado da época. Com sua influência, Boiteux interferiu e evitou a destrui­ção dos periódicos, que hoje ajudam a compor o rico acervo da Hemeroteca Digital Catarinense.

Alzemi Machado foi quem tirou do limbo o ato heroico do porteiro João Chrisóstomo Paiva - Marco Santiago/ND
Alzemi Machado foi quem tirou do limbo o ato heroico do porteiro João Chrisóstomo Paiva - Marco Santiago/ND


Quem tirou do limbo o ato heroico de Chri­sóstomo Paiva foi o coordenador técnico da he­meroteca, Alzemi Machado, em artigo publica­do no ND e em textos produzidos para outras publicações. Ele não conseguiu precisar o ano em que o porteiro se rebelou contra a ideia do diretor, e nem o nome deste, por falta de docu­mentos que comprovem ou testemunhem sua intenção. Sabe apenas que Chrisóstomo se apo­sentou em 1938, após 31 anos de serviços presta­dos ao Estado (25 deles na biblioteca), e que tam­bém comentou sobre o risco de eliminação dos periódicos com outras pessoas de seu círculo de amizades. “Católico praticante, ele fez parte das irmandades do Rosário, da Conceição e do Par­to, ocupando nesta última o cargo de provedor”, diz o coordenador da Hemeroteca Digital.

Chrisóstomo era sobrinho do padre e po­lítico Joaquim Gomes de Oliveira e Paiva – o Arcipreste Paiva que dá nome a uma das prin­cipais ruas centrais de Florianópolis. Ingressou no quadro público como “inspetor de higiene” em 1907, sendo nomeado porteiro da Biblioteca Pública em 14 de fevereiro de 1913. Em setembro de 1936, dois anos antes de se aposentar, foi pro­movido ao cargo de amanuense arquivista. Ca­sado com Duartina da Luz em 1896, ficou viúvo e constituiu nova família com Rosa Francisca de Jesus, deixando seis filhos. Alzemi foi atrás dos descendentes, que segundo informações que le­vantou ainda moram no bairro Balneário, mas não teve sucesso nas buscas.

Figura ligada à cultura e ao Carnaval

Um aspecto relevante na perso­nalidade de João Chrisóstomo Paiva era seu apego às questões da cultura da Capital, tanto que foi fundador do grupo dramático Horácio Nunes Pires e músico dos quadros da Sociedade Amor à Arte. Carnavalesco assíduo, também participava dos desfiles das sociedades Os Pantomimeiros e Saca Rolha. Suas atividades o aproximaram de José Boi­teux, que foi secretário de Estado, depu­tado, fundador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catari­na. O político e intelectual era frequen­tador diário da Biblioteca Pública, órgão que um século atrás tinha importância substancial na vida da cidade, apesar das dimensões acanhadas e de contar com apenas cinco funcionários.

Na época em que Chrisóstomo se afastou por tempo de serviço, o diretor da biblioteca era o escritor e historiador Carlos da Costa Pereira, que permane­ceu no cargo até 1958 e que citou o por­teiro como o grande responsável pela salvação do acervo de jornais do século 19. Já o jornalista Hermínio Menezes, di­retor da revista “Fatos e Fotos”, atribuiu a José Boiteux o mérito pela preservação do material, embora sem desmerecer o papel de Chrisóstomo, que não chegou a concluir o ensino médio. “Se ele fosse destruído, teríamos perdido a memória jornalística do Estado desde o surgimen­to dos primeiros periódicos até o início do século 20”, afirma Alzemi Machado, da Hemeroteca Digital Catarinense.

Por isso, e por ter pertencido a uma certa vanguarda intelectual na primei­ra metade do século passado, Machado lamenta que Chrisóstomo nunca tenha sido distinguido sequer com um nome de rua na cidade. Sua sugestão é que ele ba­tize o prédio em reforma que vai receber parte do acervo da Biblioteca Pública, na praça 15 de Novembro, onde funcionou até há poucos anos a sede da Fecam (Fe­deração Catarinense de Municípios). A hemeroteca que o porteiro, indiretamen­te, ajudou a salvar reúne 1.800 títulos de jornais catarinenses de todas as tendên­cias e correntes – republicanos, monar­quistas, literários, sindicais e religiosos –, além de periódicos em língua estrangeira e preciosidades como “O Moleque”, edita­do pelo poeta Cruz e Sousa.

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