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Por telefone, amigo de Temer acertou 'encomenda' com entregador de propina, diz PF

Gravações de telefonemas constam no relatório final do inquérito que apurou repasses ilícitos da empreiteira para integrantes do MDB

Folha de São Paulo
Brasília (DF)
06/09/2018 às 09H46

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A Polícia Federal obteve gravações de telefonemas nos quais transportadores de dinheiro da Odebrecht acertam a entrega de “encomendas” com o coronel João Batista Lima Filho. Amigo do presidente Michel Temer, ele é apontado pelos investigadores como seu arrecadador de propinas.

O conteúdo dos diálogos consta do relatório final do inquérito que apurou repasses ilícitos da empreiteira para integrantes do MDB. O documento atribui ao presidente os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Os áudios foram captados pelo doleiro Álvaro Novis, um dos operadores da Odebrecht, dono da corretora Hoya, e entregues à PF. Também constavam dos autos da Operação Cadeia Velha, uma das fases da Lava Jato no Rio, e foram requisitados pelos investigadores.

As conversas tratam de entregas feitas em 19, 20 e 21 de março de 2014 na sede da Argeplan, empresa que pertence ao coronel. Naquela época, Temer ainda era vice de Dilma Rousseff.

No primeiro dia, teriam sido levados R$ 500 mil. Num telefonema feito antes da 10h36 a Lima, Edimar Moreira Dantas, um dos funcionários da Hoya, questionou: “Seu João? Meu pessoal está aí. O senhor já está no local daquela encomenda?”

O amigo de Temer respondeu: “Só vou estar lá na minha base por volta das 14h30. Como é que o senhor vê ai? Dá pra passar às 14:30?”

A PF rastreou registros de telefonemas para terminais da Vice-Presidência no mesmo dia. Pouco depois da conversa, às 10h47, o coronel ligou para o aparelho usado por Nara de Deus Vieira, chefe de gabinete de Temer, e manteve conversa por dois minutos e 24 segundos. Às 11h35, houve um telefonema de 55 segundos para o aparelho do próprio Temer.

A confirmação do horário da entrega se deu logo em seguida, em outro diálogo. “Hoje, então, aquela reunião foi adiada, né? Vai ser entre 3 e 5h. Das 15 às 17”, avisou Márcio José Freire do Amaral, outro funcionário da Hoya, ao coronel. Ele assentiu:“Ok. Tô por lá nesse horário”.

Na sequência, os dois já deixam combinados os encontros futuros. “Só que nós temos três etapas dessa reunião, que vai ser [sic] quinta e sexta-feira. Queria ver com o senhor se pode ser entre 10 e 12 h”, disse Amaral.

O coronel retrucou: “Veja se vocês podem me fazer isso daí às 12h. Eu faço de tudo para estar às 12h.”

Encerrada a conversa, Lima ligou novamente para o terminal de Temer. Falou-se por mais quatro minutos e 58 segundos.

Temer ressaltou que, nos últimos dois anos, a empresa estatal se recuperou de uma
A Polícia Federal concluiu que Temer recebeu propina da Odebrecht- Marcelo Camargo/Ag Brasil



Pelas regras do Setor de Operações Estruturadas, o departamento de propinas da Odebrecht, era necessário apresentar uma senha para receber as quantias enviadas. No entanto, segundo a PF, o coronel não sabia o que dizer naquela ocasião e a empreiteira aceitou uma quebra de protocolo.

“Meu pessoal está aí com você? (…) Eles disseram que você não sabia o nome, né?”, indagou Amaral a Lima na tarde daquele dia. “Então, não houve um nome. Só ficou nessa base do ok e nada mais. Só isso!”, reagiu o amigo de Temer.

Nova remessa, segundo registros da Hoya obtidos pela PF, foi feita para o coronel no dia seguinte, uma quinta-feira, no valor de R$ 500 mil. Uma terceira, de R$ 438 mil, teria sido entregue na data imediatamente posterior, a uma pessoa por ele indicada.

Na segunda-feira seguinte, diante de um mal entendido na empresa, Amaral ligou para o coronel para se certificar de que tudo deu certo: “Tivemos três reuniões: quarta, quinta e sexta. Fiz na quarta, fiz na quinta, e na sexta você ia demorar, me pediu que entregasse ao Silva. As três reuniões foram concretizadas”.

“Tudo bem! Tem alguma previsão pra mais alguma coisa ou não?”, emendou o coronel, ouvindo que não.

Lima falou ainda sobre um aspecto da entrega mais recente: “A última, da sexta feira, em que foi entregue aí ao Silva as atas [sic], elas não foram iguais às atas anteriores, né? Ficou um pouco abaixo”.

Segundo a PF, ele se referia à quantia menor, de R$ 438 mil. Na data daquele encontro, o coronel telefonou três vezes para Temer.

O sigilo dos dados telefônicos do presidente foi quebrado entre sete de fevereiro e 30 de julho de 2014. Naquele intervalo de tempo, ele e o coronel se falaram 176 vezes.

Em depoimento, funcionários da empresa Transnacional, transportadora de malotes que atendia a Hoya, confirmaram ter levado dinheiro ao endereço da Argeplan.

Questionado pela PF, Lima ficou em silêncio. Sobre sua relação com o coronel, Temer alegou, por escrito, aos investigadores: "Tal como é público e notório Joao Batista Lima Filho é meu conhecido há muitos anos. Desde quando trabalhou comigo na Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paula, em 1984."

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