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Quinta-Feira, 25 de Maio de 2017
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Pesquisadores mergulham em busca da pedra com inscrição que deu nome à praia do Santinho, na Ilha

Suspeita-se que inscrição rupestre retirada de sítio arqueológico em Florianópolis pelo arqueólogo Padre Rohr tenha sido jogada no mar

Edson Rosa
Florianópolis
Piero Regazzi/ND
Pesquisadores mergulham para desvendar mistério do santinho que deu nome à praia do Norte da Ilha

 

Duas alavancas de ferro, roldanas, cordas, uma surrada roupa de mergulho, força e coragem foram indispensáveis em mais uma tentativa de elucidar um dos capítulos ainda obscuros da arqueologia catarinense: que fim levou o santinho que deu nome à praia, em Florianópolis? 

Hipótese mais recente desde o desaparecimento de pedra com a imagem do homenzinho venerado por pescadores da antiga colônia de Aranhas, em Ingleses, o fundo do mar foi vasculhado nesta sexta-feira pelo pesquisador Adnir Ramos, 50. De lá, com ajuda de três voluntários, ele retirou uma lasca de aproximadamente 300 quilos, encoberta de algas, mariscos e cracas marinhas. “Vamos mantê-la na superfície e fazer a limpeza, sem causar riscos ou fissuras, para concluir a investigação”, explica.

O geógrafo Ciro Couto, 48, coordenador de ecologia do Costão do Santinho Resort, parceiro das pesquisas, também acredita que a pedra seja a mesma do homenzinho sagrado.

“Pelos ângulos dos cortes, parece que a lasca se encaixa no bloco, acima das outras inscrições rupestres características deste sítio”, observa Couto. O lugar parece um templo a céu aberto a beira mar, com degraus de pedras cercado por inscrições rupestres.

A pesquisa submarinha é resultado de dica dada por antigo estagiário de João Alfredo Rohr, o arqueólogo que em 1948 retirou a pedra do costão. “O professor Paulo Rocha garante que o padre nunca levou o homenzinho para o museu do Colégio Catarinense. Apenas uma pegada humana que encontrou no mesmo costão”, explica Ramos.

Arriscado, o resgate da suposta pedra sagrada demorou três horas e atraiu a curiosidade dos pescadores no costão. Um deles, o nativo Antônio João Libânio, 45, disse que parte do sítio arqueológico do Santinho foi destruída por vândalos.

Na infância e adolescência, Libânio via pegadas de pés, “que pareciam de gigantes”, mãos e patas de gado em meio às inscrições nas pedras. “Sumiu quase tudo. Levaram e estragaram muita coisa”, lamenta. As safras malogradas de tainhas na praia, acredita o pescador, estão relacionadas ao desaparecimento do santinho.

 

Piero Regazzi/ND
Inscrições rupestres preservadas no costão norte do Santinho 

 

Pedra desaparece de museu

A retirada da pedra do santinho foi o trabalho mais polêmico do padre João Alfredo Rohr, e até hoje causa controvérsias entre arqueólogos e pescadores mais velhos do lugar. Em 1944, durante seus estudos dos petróglifos da Ilha, o religioso descobriu que a colônia de pescadores do Canto das Aranhas, em Ingleses, cultuava a imagem de um homenzinho desenhada em bloco de rocha de basalto, numa  de altar cercado por inscrições rupestres.

Com um círculo sobre a cabeça, ou espécie de auréola ou capacete, o homenzinho passou a ser cultuado como “santinho” pelos pescadores, e deu nome à praia.  O povo católico fazia romarias ao templo a céu aberto e acenbdia velas no altar, de frente para o mar.

Em 1948, Rohr e sua equipe removeram a pedra do lugar, e a levaram para o museu do Colégio Catarinense, no centro de Florianópolis. A retirada revoltou a comunidade de pescadores e, e gerou opiniões divergentes entre os arqueólogos. A intenção do religioso era evitar a repetição das romarias ao costão.

Meses depois da retirada, no entanto, a pedra sumiu misteriosamente. Moradores de Ingleses percorreram protestaram e exigiram explicação dos governos municipal, estadual e também da administração do Colégio Catarinense. O destino do santinho, no entanto, ainda é um grande mistério.

No texto "Petroglifos da Ilha de Santa Catarina e Ilhas Adjacentes", publicado 1969, Rohr escreve que "a praia do Santinho tem o seu nome derivado de um petroglifo, em forma de boneco, gravado em um bloco de diabásio, ao qual o povo simples dos arredores tributava culto, acendendo velas. Sem estarmos a par dessas ocorrências, há 25 anos, junto com outras itacoatiaras da mesma praia, transportamos ao museu (Museu do Homem do Sambaqui, inaugurado no Colégio Catarinense, em 1964), este pretenso santinho."

 

Arte Mendes/ND

 

Quem foi

João Alfredo Rohr, nasceu em Arroio do Meio/RS, em 18 de junho de 1908, e morreu em Florianópolis em 21 de julho de 1984.

Jesuíta, professor e arqueólogo, criou o Museu do Homem do Sambaqui, do Colégio Catarinense.

É conhecido como “pai da arqueologia em Santa Catarina. Escavou 431 de 801 sítios conhecidos até o fim da década de 1990.
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