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Pesquisador da UFSC se prepara para segunda expedição à Antártica

Doutorando em Biotecnologia e Biociências, Eduardo Bastos estuda o potencial biológico das macroalgas no continente gelado

Andréa da Luz
Florianópolis
31/08/2018 às 21H34

Identificar as espécies de macroalgas do continente Antártico, mapear sua distribuição geográfica e investigar o potencial biológico são os objetivos principais do pesquisador Eduardo de Oliveira Bastos, 34 anos. Doutorando em biotecnologia e biociências da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e fotógrafo de natureza, Bastos participou da Operantar 36 (Operação Antártica Brasileira) no começo deste ano, fazendo pesquisa durante dez dias em um acampamento na ilha Snow Island. Agora, se prepara para a segunda expedição (Operantar 37) em um novo acampamento na mesma ilha, que vai durar 32 dias, entre novembro e dezembro de 2018.

Na próxima visita ao continente artártico, Bastos estudará as algas vivas. Ele fará micromodificações no ambiente e na quantidade de nutrientes das algas para descobrir como elas vão se comportar com essas mudanças. Isso porque, embora a Antártica preserve muito de seu ambiente original, já não é mais intacto. "Fiquei surpreso e decepcionado de encontrar garrafas pet, boias de navios e outros resíduos por lá", disse o pesquisador.

Pesquisador  - Eduardo Bastos/Divulgação/ND
Pesquisador da UFSC, doutorando Eduardo Bastos, em sua primeira expedição à Antártica - Eduardo Bastos/Divulgação/ND

Bastos também se mostra preocupado com os esgotos jogados no mar, por causarem alterações no ciclo das espécies da fauna e flora. "Já não basta retirar os coliformes fecais dos efluentes. Há estudos que mostram resíduos de fármacos e de hormônios femininos - os quais são eliminados pela urina e vão parar nos esgotos - que podem alterar o ciclo de reprodução dos peixes, pois os resíduos das pílulas anticoncepcionais podem fazer com que todos os indivíduos de determinadas espécies troquem de sexo, o que impedirá a reprodução desses animais", afirmou.

Ele explicou que a nova expedição permitirá avaliar os impactos do aumento da poluição e da temperatura e a acidificação dos oceanos, por exemplo, no crescimento das algas marinhas da Antártica. "O estudo pretende mostrar como esses fatores vão interferir no desenvolvimento das diferentes espécies de macroalgas e na quantidade de compostos químicos que elas produzem. Será que elas vão produzir mais ou menos desses compostos? Quais espécies não resistirão ao aumento do efeito estufa e quais se desenvolverão melhor em águas mais poluídas, o que é um cenário não tão distante no futuro", disse.

Os compostos químicos presentes nas macroalgas estão sendo estudados e decifrados por químicos e podem ser úteis na descoberta de novos fármacos, como antitumorais e medicamentos para leishmaniose, aponta o pesquisador Eduardo de Oliveira Bastos. "Por isso será importante saber o impacto de fatores externos e variações climáticas no desenvolvimento dessas algas e dos seus nutrientes", explicou. As macroalgas se destacam por seu tamanho: chegam a cinco metros, enquanto as que temos por aqui ficam entre 15 e 20 centímetros.

Através do projeto, 104 espécies de algas marinhas bentônicas já foram identificadas (28 de algas pardas, 24 de algas verdes e 52 de algas vermelhas). "Agora, vamos trabalhar com uma gama de espécies que representam o cenário que encontramos no ambiente, desta forma podemos ter uma melhor resposta. Teremos exemplares que são sensíveis às mudanças no ambiente e exemplares que são tolerantes a estas mudanças", contou.

A pesquisa dele faz parte do projeto Macroalgas Antárticas Proantar Brasil, que está dentro de um grupo maior de investigação científica em várias partes do Brasil, coordenado pelo professor Pio Colepicolo, do Instituto de Química da USP (Universidade de São Paulo), abrangendo diversas áreas do conhecimento, como biologia, geologia, paleontologia, química, etc. Há grupos pesquisando bactérias, fungos, aves e fósseis. Em Florianópolis, o projeto é coordenado pelo orientador de Bastos, o professor Paulo Antunes Horta, do Departamento de Botânica da UFSC.

Projetos dessa magnitude, que são muito caros e de logística difícil, permitem mapear e registrar novas espécies e identificar compostos que podem posteriormente serem decifrados pela engenharia genética e sintetizados em laboratório para tratar várias doenças. "Há muitos anos não se descobre um novo antibiótico", citou Eduardo de Oliveira Bastos. "Por isso, precisamos conhecer o que tem lá para podermos preservar, antes que tudo se perca".

A organização é meticulosa para que tudo saia conforme o planejamento. Bastos conta que as amostras coletadas pelos pesquisadores são congeladas e encaixotadas e só estarão disponíveis novamente em março, quando o navio finaliza os trabalhos e retorna para o Brasil. "Aí vamos buscar tudo no Rio de Janeiro, inclusive os equipamentos que levamos", explicou. Enquanto o material não chega, é feito o processamento de dados, imagens e números levantados no trabalho de campo.

Suporte da Marinha do Brasil

Toda a logística da operação e transporte dos pesquisadores e seus instrumentos de pesquisa é feita pela Marinha do Brasil. Segundo Eduardo, meses antes da expedição, o grupo que irá a campo pela primeira vez é levado ao Rio de Janeiro, onde recebe treinamento especial para o acampamento. São realizadas palestras e provas de resistência física, além de simulações de situações de risco.

Isso é extremamente necessário para enfrentar temperaturas que oscilam entre -2ºC e 3ºC (no verão) e ventos constantes de até 40 km/h, com rajadas que podem chegar aos 70km/h. Vento, neblina, chuva e neve atrapalham os trabalhos e podem mudar de um momento para outro, sem aviso, por isso as previsões meteorológicas não ajudam muito. Por fim, há que se acostumar a 20 horas de sol forte e apenas quatro de penumbra, entre a meia-noite e as quatro da manhã.

Um alpinista experiente acompanha o grupo, para orientar nas situações de risco, exploração do terreno, montagem de barracas e sobrevivência em ambientes hostis. As equipes dispõem de quatro tipos de barracas: a de convivência que é onde fica a cozinha, a barraca-laboratório onde as pesquisas são desenvolvidas, a do banheiro químico (vermelha) e as individuais que servem como dormitório.

Barracas utilizadas no acampamento antártico: à esquerda dormitórios indivuduais, ao centro a cozinha e atrás o laboratório, à direita o banheiro (vermelha) - Eduardo Bastos/Divulgação/ND
Barracas utilizadas no acampamento antártico: à esquerda dormitórios indivuduais, ao centro a cozinha e atrás o laboratório, à direita o banheiro (vermelha) - Eduardo Bastos/Divulgação/ND


Todo o suprimento também é fornecido pela Marinha, desde a comida pronta e congelada até as roupas especiais, barracas e equipamentos de comunicação com a base que fica no navio. "Usamos três camadas de roupas - uma para aquecer, outra para manter a temperatura e a última para cortar o vento, além de muitas vezes precisar de três luvas, gorros e proteção no rosto para evitar queimaduras de sol", conta o pesquisador.

O navio fica transitando entre o Chile e a Antártica. "Quando chegamos na Ilha, a equipe do navio ajuda a desembarcar os equipamentos. Aguarda a montagem da cozinha e do rádio de comunicação, e depois vai embora. O navio fica circulando entre as quatro ilhas que ficam entre o Chile e a Antártica e só volta ao final da expedição. Durante esse tempo, o suprimento chega de pára-quedas, lançado por helicóptero", detalha.

Terminada a expedição, tudo retorna ao navio: lixo, restos de comida, água usada para lavar a louça e descarte dos banheiros. A equipe não toma banho durante o acampamento. "É uma experiência diferente, entretanto temos soluções tecnológicas para driblar este problema. O uso do lenço [umedecido] é fundamental", diz.

Saiba mais

Formado em Engenharia de Aquicultura e com mestrado em Biologia, o pesquisador Eduardo de Oliveira Bastos é natural de Florianópolis e atualmente cursa doutorado em Biotecnologia e Biociências, na UFSC. Utiliza a fotografia como ferramenta de registro e divulgação científica e cultural, buscando a sensibilização do público para questões ligadas ao conhecimento e à conservação da paisagem e organismos que ali vivem.

Para visualizar imagens da última expedição, visite o site pessoal do pesquisador.

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