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Sábado, 22 de Setembro de 2018
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Pescadores de Florianópolis dão aulas de história aos turistas sobre período de caça às baleias

Enquanto as baleias não chegam para amamentar os filhotes, velhos pescadores são únicas referências sobre período em que eram caçadas e abatidas a arpão e dinamite

Edson Rosa
Florianópolis

Estudante de química em Pouso Alegre, pequena cidade ao Sul de Minas Gerais, Dennys Waney Vonhass, 22, chegou sem nada saber sobre a história da Armação do Pântano do Sul. A exemplo dos 15 acompanhantes de viagem, logo conheceu o significado dos nomes Matadeiro, da praia vizinha, e Sangradouro, o rio que as separa. Também não sabiam que a enseada diante da capela de Santana faz parte do roteiro das baleias francas austrais, entre os meses de julho e novembro, por ser um dos “berçários” prediletos delas para amamentação e, ao mesmo tempo, é cemitério de número inimaginável de adultos e filhotes abatidos a arpão até o início da década de 1970.

Marco Santiago/Arquivo/ND
Pescadores falam sobre a presença das baleias no litoral catarinense

 

“Tem muitas ossadas submersas, e algumas são desenterradas do fundo nas ressacas”, confirma Aldori Correia de Souza, 48. Bom pescador e mergulhador de fôlego, ele costuma ficar até três minutos embaixo d’água em apneia e, em um destes mergulhos voltou com o osso de uma das nadadeiras. A peça necrosada e esbranquiçada pela longa permanência no fundo do mar parece um troféu sem valor na frente da casa da família, no centrinho do bairro.

Como a maioria dos turistas, Vonhass e amigos foram recebidos pelo aposentado Darci Floriano Vieira, 73, guia informal da Armação, que lhes mostrou as ruínas de antigas colunas de pedras e tijolos assentados com massa gala-gala  [a liga proveniente da mistura de óleo de baleia, com barro e areia grossa].

“Aqui era o galpão principal, onde ficavam fornos e barris para derreter a banha”, diz Vieira. Entusiasmado com o interesse dos visitantes, o velho guia contou que dissecar baleias e separar toicinho (gordura) da carne foi seu primeiro trabalho, ainda na adolescência. Ele tinha apenas 14 anos, e hoje ainda tenta se esquecer da mistura de sangue e óleo espalhada na praia e espuma das ondas.

“São cenas tristes, mas fazem parte da história do lugar”, diz Darci Vieira. A caminho de Minas Gerais, Vonhass leva a certeza de ter conhecido um dos lugares mais belos da Ilha, e a sensação de que precisa voltar. “É uma história e uma cultura que não podem ficar perdidas no vácuo do tempo, venho outras vezes”, diz.

Carlos Alberto da Costa, 62, dono de restaurante na beira da praia do Pântano do Sul, ao lado de velho marco do Projeto Baleia Franca, mantém uma ossada de costela na porta da casa. A peça faz parte das memórias do pai dele, Amaro José da Costa, 80, que trabalhou como remador da Pioneira da Costa até 1970, e hoje sente falta de divulgação da história do lugar.  “A presença das baleias no período de amamentação seria alternativa viável para incrementar o turismo de inverno na Ilha”, resume.

 

Pescador esteve nas últimas caçadas

Tataraneto do coronel Izidoro Pires, açoriano enviado pela Coroa Portuguesa para implantar a fazenda de Santana da Lagoinha e única armação de baleias da Ilha de Santa Catarina, em 1735, o pescador Aldo Correia de Souza, 76, é referência para jovens e adultos na Armação. Pai de Aldori, ele conhece como poucos a história do lugar.

Remador de braços fortes, aos 17 anos Aldo já estava embarcado em uma das baleeiras de apoio na caça às baleias.  Trabalhava para os empresários Isaac e Arlindo Costa, que até a década de 1970 mantiveram a estrutura na frente da capela de Santana. “Eram duas embarcações, uma para fazer a arpoada e outra de apoio em casos de emergência. Em uma ocasião, a baleia deu uma rabanada e destruiu o barco Pioneiro”, conta.

Segundo o velho pescador, todo o processo era artesanal. Movidas a remos, as baleeiras chegavam até bem perto das baleias, a uma distância que permitisse ao arpoador se aproximar e desferir o golpe fatal, abaixo de uma das nadadeiras. Mais tarde, detonador de dinamite foi adaptado ao cabo do arpão, tornando ainda mais sangrenta a tarefa dos pescadores.

“Era um chafariz de sangue e óleo, mais pedaços de gordura espalhados pela praia. Era uma pena, é uma cena triste de ser lembrada”, diz Aldo, que hoje tem uma relação amistosa com as baleias que atravessam a enseada da armação. Mesmo quando arrebentam as redes fundeadas com a cabeça, “como se fossem teias de aranha”.

 

Sem sobrevoos não há monitoramento

O monitoramento aéreo das baleias franca em Santa Catarina é realizado pelo Projeto Baleia Franca desde 1987. A área percorrida é o litoral centro sul do estado, desde Florianópolis a Torres, na divisa com o Rio Grande do Sul. A primeira saída para avistamentos está prevista para o início de agosto, sem data ainda definida e, segundo a bióloga Karina Kroch, serão realizados três sobrevoos - outro no início de setembro e o último no início de novembro. Em 2015, foram avistadas 58 animais em setembro, pico da temporada reprodutiva, porém um número maior, 68, foi registrado no início de agosto o que indica temporada atípica.

“Setembro é o pico, quando deveríamos ter mais baleias em agosto”, diz Karina. Em 2014, o monitoramento foi prejudicado pela falta de sobrevoo em setembro, mas a bióloga ressalta que conclusões sobre o número de cetáceos no litoral catarinense não podem ser feitas a partir de um ou dois anos isoladamente.

“É preciso analisar um conjunto de anos, uma série de dados que devem ser analisados pela complexidade do ciclo migratório da espécie”, reforça. Com gestação de um ano, as baleias francas têm ciclo reprodutivo trianual, e as fêmeas sobem o litoral catarinense com maior frequência quando estão grávidas e prontas para parir.

“Além disso, podem utilizar outras áreas de reprodução, como no Uruguai e na Argentina, e nem todas vêm para o Brasil anualmente para ter filhotes”, explica. Os machos têm comportamento migratório mais aleatório, sem seguirem um padrão para o retorno às áreas de reprodução.

“E isso contribui para a grande flutuação no número de baleias em nosso litoral”, explica. Apesar de o trabalho ser feito desde 1987, só em 2015 a Fatma (Fundação de Meio Ambiente) requereu a inclusão do monitoramento de cetáceos no Plano de Controle Ambiental do Porto de Imbituba, como condicionante da Licença Ambiental de Operação das atividades portuárias. 

 

Menos comida, poucos nascimentos

Apesar das diferenças observadas a cada ano, o número de baleias na costa catarinense não está reduzindo, diz Karina Kroch, com base em trabalho publicado recentemente na revista Scientific Reports, em parceria entre o Projeto Baleia Franca e a equipe do Ecomega (Laboratório de Ecologia e Conservação da Megafauna Marinha), da FURG (Universidade Federal do Rio Grande).

“As variações são decorrentes de flutuações naturais”, garante. O artigo trata da influência de fatores climáticos relacionados a eventos de El Niño, por exemplo, e da disponibilidade de alimento no sucesso reprodutivo das baleias. “Elas se alimentam principalmente de krill, pequenos organismos com aparência de camarão, cuja abundância no ambiente é variável e dependem de fatores ambientais”, complementa. 

Segundo a pesquisadora Elisa Seyboth, primeira autora do artigo, quedas na disponibilidade de krill significam menos alimentos disponíveis para as baleias, o que pode prejudicar fisiologicamente a reprodução e reduzir a geração de filhotes. O trabalho foi realizado com a utilização de dados do programa de monitoramento aéreo do Projeto Baleia Franca desde 1987, no período em que a espécie vêm se reproduzir no litoral de Santa Catarina (entre julho e novembro). A redução de nascimentos pode ameaçar a espécie, mas as flutuações observadas, de acordo com a bióloga, ainda não influenciam na taxa de crescimento populacional - em 2011, estimada em 12% para o Brasil. “Número bastante alto”, afirma.

 

Águas calmas e quentes para amamentar

O litoral sul do Brasil, em especial a costa catarinense, oferece condições ideais para a reprodução das baleias franca. Em comparação com a Antártida, onde se alimentam no verão, apresenta temperatura mais amena e águas calmas e rasas. “Ambiente adequado para o nascimento e cuidados com os filhotes nos primeiros meses de vida”, diz Karina Kroch.  Há preferência, ainda, por regiões que ofereçam proteção contra predadores naturais, como orcas e tubarões

Estas características também são apropriadas para o acasalamento. Além disso, pares de mãe-filhote têm preferência por águas rasas para evitar interações com outros grupos formados por baleias adultas e juvenis, que podem representar alto custo energético durante o período de amamentação.

 

APA da Baleia Franca

Sede: Imbituba/SC

Abrangência: 130 km de litoral

Área entre a Lagoinha do Leste, em Florianópolis, ao Balneário do Rincão, ao Sul de Santa Catarina.

Contato: 48-3255-6710 ou apabaleiafranca@yahoo.com.br.

 

O que é: Armação baleeira, ou de baleação, é a estrutura montada entre séculos 17 e 18 para caça de baleias no litoral brasileiro.

Em Santa Catarina:

1730 - Armação da Piedade – Governador Celso Ramos

1772 – Armação Sant’Anna da Lagoinha – Armação do Pântano do Sul, Florianópolis

1778 – Armação de Itapocoróia – Norte do rio Itajaí, em Penha

1793/1795 – Armação de Garopaba

1796 – Armação de Imbituba

1807 – Armação da Ilha da Graça – São Francisco do Sul

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