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Personagem fundamental de SC, Antonieta de Barros ganha homenagem na Alesc

A primeira deputada catarinense e primeira deputada negra brasileira foi lembrada em uma solenidade realizada na semana de seu aniversário

Carlos Damião
Florianópolis
06/07/2018 às 21H55

Nos registros antigos da Assembleia Legislati­va, de mais de 70 anos, uma misteriosa persona­gem mencionada como “Ela” indicava a presença de uma mulher entre os parlamentares. Esse ser quase invisível era a deputada Antonieta de Bar­ros. Uma busca nos arquivos da Alesc demonstrou, ainda, que não havia fotografias da deputada pre­servadas no acervo.

Altair Alves (AMAB) e Flávia Person, documentarista, na tribuna da Alesc, em homenagem especial a Antonieta de Barros, que foi a primeira deputada catarinense e primeira deputada negra brasileira - Carlos Damião/ND
Altair Alves (AMAB) e Flávia Person, documentarista, na tribuna da Alesc, em homenagem especial a Antonieta de Barros, que foi a primeira deputada catarinense e primeira deputada negra brasileira - Carlos Damião/ND


As informações foram transmitidas pela ex-deputada Ideli Salvatti (PT), durante uma soleni­dade especial comemorativa aos 117 anos de nas­cimento de Antonieta, convocada pela Bancada Feminina da Assembleia Legislativa e realizada no dia 5 de julho. Ideli lembrou que, durante seu mandato na Alesc, entre 1995 e 2003, atuou apai­xonadamente pelo resgate da história da primeira deputada catarinense e primeira deputada negra brasileira. Com a colaboração do então vereador Márcio Souza (PT), a equipe que assessorava Ideli conseguiu localizar fotos da parlamentar no porão do antigo Colégio Dias Velho, onde Antonieta foi di­retora – hoje um prédio abandonado pelo Estado na rua Victor Meirelles, onde funcionou o grupo escolar com o nome de Antonieta.

- ’Ela’ não tinha nome, não tinha identidade”, reforçou Ideli em seu pronunciamento. O gran­de desafio de retirar Antonieta da invisibilidade projetou o nome da primeira deputada de Santa Catarina de forma tardia, mas justa. Deu nome a uma medalha da própria Alesc, ganhou destaque no interior da Assembleia, com foto na galeria das deputadas (“Galeria Lilás”). Foi também o nome es­colhido, ainda na década de 1990, para batizar o tú­nel que liga o Aterro da Baía Sul à Via Expressa Sul.

Mas a luta para preservar e valorizar sua memória persiste na atualidade. Por iniciativa da documentarista Flávia Person, o retrato de Anto­nieta na Alesc foi substituído por um novo, obtido de uma foto original tratada, com a informação, na parte inferior: “Primeira deputada eleita em SC e a primeira negra no Brasil”. Flávia é autora do documentário “Antonieta”, realizado em 2016. Foi exibido em festivais no Brasil e exterior e ganhou o Prêmio da Reunión Especializada de Autoridades Cinematográficas y Audiovisuales del Mercosur (RECAM) no 14º Oberá em Cortos, na Argentina.

Representantes da AMAB (1ª, 2ª e 4ª), deputadas Dirce Heiderscheidt e Luciane Carminatti (3ª e 5ª), ex-deputada Ideli Salvatti (6ª) e documentarista Flávia Person (7ª), durante a solenidade que lembrou importância de Antonieta - Carlos Damião
Representantes da AMAB (1ª, 2ª e 4ª), deputadas Dirce Heiderscheidt e Luciane Carminatti (3ª e 5ª), ex-deputada Ideli Salvatti (6ª) e documentarista Flávia Person (7ª), durante a solenidade que lembrou importância de Antonieta - Carlos Damião


Sepultura depredada

Neste dia 11, data comemorativa dos 117 anos de nascimento de Antonie­ta, seu túmulo no Cemitério São Fran­cisco de Assis (Itacorubi) vai ganhar um placa de identificação, por iniciativa pessoal da deputada Luciane Carminat­ti (PT), que presidiu a Bancada Feminina da Alesc até o dia 4 de julho. No túmulo estão sepultadas também a mãe de An­tonieta, Catarina, e sua irmã, Leonor. A sepultura está parcialmente depredada, precisando de restauração. A própria Luciane deve apresentar um projeto de lei para que a Assembleia assuma esse desafio, devido à importância históri­ca de Antonieta. Luciane também vai protocolar um projeto de lei visando a incluir na grade curricular das escolas, públicas e privadas, a história de di­versas mulheres catarinenses, entre as quais Antonieta.

Ainda no dia 11, às 17h, será celebra­da uma missa comemorativa na cape­la do Asilo Irmão Joaquim e aberto o Espaço AMAB (Associação de Mulheres Negras Antonieta de Barros), no Monte Serrat (residência da dona Uda Gonza­ga), que vai proporcionar aulas de alfa­betização para adultos.

Túmulo de Antonieta, no Itacorubi, está abandonado. Ganhará placa e deve ser restaurado se Alesc aprovar projeto de lei - Carlos Damião/ND
Túmulo de Antonieta, no Itacorubi, está abandonado. Ganhará placa e deve ser restaurado se Alesc aprovar projeto de lei - Carlos Damião/ND


Trajetória marcante

Filha de uma ex-escrava (Catarina), Antonieta de Barros nasceu em Florianópolis em 11 de julho de 1901 e foi a primeira mu­lher a conquistar uma cadeira na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, exercendo o cargo de de­putada de 1935 a 1937 (Partido Li­beral Catarinense) e de 1947 a 1951 (Partido Social Democrático). Foi a primeira negra a ser eleita para um mandato popular no Brasil.

Professora, jornalista e escrito­ra, fundou aos 21 anos um curso voltado à alfabetização. Foi nome­ada professora da Escola Comple­mentar, que funcionava junto ao Grupo Escolar Lauro Müller. Mais tarde, conquistou o cargo efetivo de professora de português na Escola Normal Catarinense, onde hoje é o Museu da Escola Catari­nense. Também foi professora de português e psicologia do Colégio Dias Velho, que ganhou seu nome posteriormente, tendo sido dire­tora do mesmo colégio entre os anos de 1937 e 1945.

Como jornalista, foi fundado­ra e diretora do jornal "A Sema­na", de 1922 a 1927. Também diri­giu, em 1930, a revista quinzenal "Vida Ilhoa". Foi cronista dos jornais “O Estado” e “República” e, em 1937, publicou o livro "Far­rapos de Ideias".

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