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Sábado, 17 de Novembro de 2018
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Pedra Branca é marco histórico nos limites entre Palhoça e São José e monumento natural esquecido

Falta de interesse público e privado se reflete nas trilhas ao ponto de observação da mais bela paisagem do aglomerado urbano de Florianópolis e da Serra do Tabuleiro

Edson Rosa
Florianópolis

Sempre que chega ao pé do morro e olha para cima, o empresário João Paulo Souza Ramos, 32, sente que está pagando parcela de uma conta infinita. Uma dívida de gratidão do tamanho do próprio monumento, tão colossal quanto à própria pedra que de branca tem o nome que representa o marco geográfico e histórico mais conhecido no ponto culminante dos limites entre Palhoça e São José, na Grande Florianópolis.

Sem conhecimento dos pais, aos 11 anos o menino obeso chegou pela primeira vez ao topo do maciço, parte do trajeto com a bicicleta nas costas. “Eu era o mais novinho, e o gordinho da turma. Lembro que chegamos a pensar em levar tinta branca para pintar a pedra”, diz João Paulo, que, depois de tanto pedalar para subir e descer, virou atleta e hoje é dono de uma das maiores lojas de bicicletas de São José.

Marco Santiago/ND
Apesar da falta de manutenção da trilha, muitos se encorajam em caminhar os 5km até o topo

 

De lá para cá, foram muitas idas e vindas, sempre aos sábados à tarde. Tombos não foram tantos, mas todos doloridos. Numa das subidas, há uma década, João Paulo levou a mãe, Marlene Silvano Ramos, na época com 52 anos, amarrada a uma corda pela cintura. “Parte do caminho eu a puxei morro acima. Foi emocionante, porque ela entendeu porque eu passei parte da minha infância e adolescência aqui em cima”, conta.

Há dois anos sem subir a pé ou de bicicleta, João Paulo estranhou as condições da trilha, na subida pelo Sertão do Maruim. Abandonado pelos jipeiros desde o fim das missas promovidas pela Orionópolis no topo do maciço, na década de 1990, o caminho tem sido utilizado esporadicamente por motociclistas, ciclistas e caminhantes. Sulcos formados por pneus de motos e bicicletas, afundados pela força da chuva, em alguns trechos formam boçorocas que podem se transformar em armadilhas para quedas.

A falta de manutenção na trilha, no entanto, não desencoraja quem se arrisca a caminhar cerca de cinco quilômetros em pouco mais de 2h, para contemplar uma das mais belas paisagens da região. Sem contar aqueles que preferem  escaladas e descidas de rapel, e, ainda, quem tem o disparate de deixar lá em cima restos de sacolas plásticas e garrafas pet não destruídas por fogueiras acesas entre as fendas das pontas da pedra que afloram no entorno do platô central.

“Lembro-me da romaria e dos congestionamentos de jipes na trilha em dias de missa”, diz João Paulo, ao passar por trecho mais íngreme pavimentado com concreto para facilitar o acesso ao que chamavam de “estacionamento”. A clareira de 500 metros quadrados cercada de palmiteiros, cedros, canelas e perobas na chegada ao topo, é também o melhor abrigo para montagem de barracas por quem se aventurava a passar a noite lá em cima. 

 

Marco Santiago/ND
João Paulo, no topo da Pedra Branca

 

Marco colossal sem interesse público

Ponto de referência nos limites entre São José e Palhoça, a Pedra Branca já foi alvo de disputas entre os dois municípios e marca explorada comercialmente nos dois lados. Em 1999, por meio de projeto de lei aprovado na Assembleia Legislativa, arte do maciço foi incluída no território oficial josefense, mas até hoje não há interesse do poder público em demarcar a APP (Área de Preservação Permanente) do entorno ou sinalizar e melhorar a segurança das trilhas, maior parte delas em propriedades particulares.

Para o presidente da Fundação Cambirela do Meio Ambiente, João Batista dos Santos, a pedra já foi motivo de orgulho para Palhoça, mas agora pertence a São José.  Santos reconhece falta de informações turísticas e geológicas e o potencial turístico do lugar.

De acordo com pesquisas do jornalista e historiador Celso Martins, a Pedra Branca começou a ficar conhecida com a abertura do Caminho dos Tropeiros. Foi traçado da primeira estrada entre a vila de Nossa Senhora do Desterro, atual sede de Florianópolis, e Lages, em 1787, quando o alferes Antônio José da Costa partiu da Capital com 12 homens armados e 12 escravos em direção à Serra.

Mais tarde as planícies do entorno foram ocupadas por imigrantes açorianos – surgindo comunidades como Caminho Novo e Cova Funda, atual São Sebastião, em Palhoça; e Pagará, Sertão do Maruim, no lado de São José.

 

Referência para aviadores e aprendizes

Para pilotos que aterrissam ou decolam da pequena pista do Aeroclube de São José, no Sertão do Maruim, a principal referência é a imensa lasca acinzentada de granito que forma penhasco no portal de montanhas e vales da Serra do Tabuleiro. “A Pedra Branca é nosso marco principal de localização visual, o ponto geográfico mais importante ao lado do Cambirela e da baía Sul”, diz João Paulo Martendal Sobrinho, 28, funcionário do aeródromo.

Com 500 metros de altitude e localizada ao lado de uma das rotas de chegada ao Aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis, a pedra cria particularidades em voos com aeronaves de pequeno porte, sendo comuns a instabilidades orográficas – ou chuvas de relevo. “Algumas manobras chegam a ser abortadas pelos instrutores do aeroclube em dias de vento oeste”, confirma Martendal.

Nestas condições de vento oeste, a massa de ar quente rebate no morro e sobe ao encontro da massa de ar fria, “proporcionando correntes térmicas geralmente muito bem aproveitadas por instrutores e pilotos de planadores”, acrescenta o gerente do Aeroclube de São José, Augusto Timm, 28. “Além da paisagem espetacular lá de cima”, acrescenta.

 

Lendas que se perpetuam

Antes repassadas de boca a boca, as lendas sobre a Pedra Branca agora se espalham na velocidade da internet, onde também se multiplicam publicações com depoimentos, fotos e vídeos, de novos e velhos aventureiros. No Sertão do Maruim, por exemplo, durante anos seguidos moradores mais antigos contavam que na Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945) muita gente subiu para se esconder no alto do morro, inclusive soldados amotinados. E que muitos deles não desceram de volta.

Algo parecido teria ocorrido na Revolução de 1930, quando fazendeiro da Cova Funda, atual bairro São Sebastião, em Palhoça, escondeu os cavalos no pasto do topo do morro para proteger o rebanho dos revolucionários que vinham do Rio Grande do Sul. Alguns dias depois, desceu com a cavalada sem maiores sobressaltos.

Entrevistado por Celso Martins na década de 1990, o pesquisador Claudir Silveira, resgatou outra lenda sobre a existência de um baú com precioso tesouro escondido na Pedra Branca. Durante a Revolução Farroupilha (1835-1845), um comerciante muito rico de Palhoça, dono de terras na Pedra Branca, teria fugido para o alto do morro com joias, moedas de ouro e dinheiro.

O homem teria enterrado o tesouro em uma caverna e fechado a entrada com pedras, morrendo sem revelar o local exato do esconderijo. Durante algum tempo houve romaria nas encostas, mas, apesar das escavações, o baú nunca foi encontrado. "Curiosamente, a gente bate com o pé e tem a sensação de estar sobre solo oco", mostra João Paulo, que lamenta o desinteresse público e privado em transformar a Pedra Branca em ponto turístico da região.

As mais recentes fazem parte do imaginário de João Paulo Souza Ramos, que ouviu, por exemplo, a história de motoqueiro que, empolgado com a subida, passou reto pelo platô e desapareceu no penhasco. “Tem, ainda, histórias de aventureiros alucinados que se jogaram ao ar, crentes que conseguiriam voar”, sorri .

 

Características naturais

Pedra Branca sempre foi considerada ponto de orientação para viajantes e povos nômades.

Desde os tempos mais remotos, a formação que se ergue entre 460 e 500 metros de altitude funciona como bússola, mostrando que o mar está próximo.

Cientistas estimam que o morro da Pedra Branca tenha cerca de 120 milhões de anos.

Formado por rochas calcárias, o maciço é abraçado por vegetação de mata atlântica de encosta, orquídeas e bromélias, com predomínio de gramíneas no topo.

 

Localização
Ao lado do rio Maruim, entre Palhoça e São José.

 

Altitude
Entre 460 e 500 metros

 

Pedra:  120 m²

 

Paisagem
Nas faces leste sul, área continental de Florianópolis, Sul da Ilha e aglomerado urbano de Biguaçu, São José e Palhoça; a norte e oeste, montanhas, vales e rios da Serra do Tabuleiro

 

Acessos
Colônia Santana, Sertão do Maruim, em São José; e Caminho Novo e São Sebastião, em Palhoça

 

Dificuldade
Média, com cerca de cinco quilômetros de caminhada a partir do km 226 do Contorno Viário, em construção no Sertão do Maruim.

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