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Palhocense servia o Exército no Rio quando Getúlio Vargas deu um tiro no peito

Cláudio Silveira não estava em serviço no dia do suicídio, mas trabalhou nos dias tensos logo após a morte do ex-presidente

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
10/08/2018 às 21H05

Mais de seis décadas após, Silveira guarda o fato vivo na memória e também a foto do ex-presidente em pose oficial - Marco Santiago/ND
Mais de seis décadas após, Silveira guarda o fato vivo na memória e também a foto do ex-presidente em pose oficial - Marco Santiago/ND


Há 64 anos, em 24 de agosto de 1954, o presidente Getúlio Vargas deu um tiro no peito e, como escreveu momentos antes do ato fatal, deixou a vida para entrar na história. Naqueles dias, estava no Rio de Janeiro o palhocense Cláudio Silveira, que havia sido selecionado com centenas de catarinenses no ano anterior, a maioria deles descendentes de alemães do Vale do Itajaí e Norte do Estado, para servir no 1º Batalhão de Polícia do Exército. Teria sido apenas um período de muita ordem unida, disciplina e ginástica pesada se o presidente, pressionado pela oposição e pela imprensa, não tivesse ido tão longe, ao considerar-se traído por membros do próprio governo e injustiçado por desafetos que pediam sua renúncia, acusando-o de conivência com a corrupção e com ilicitudes de seu ministério.

Silveira alistou-se para o serviço militar obrigatório sem imaginar que seria deslocado para a então capital federal, cuja beleza e glamour ainda guarda vivos na memória. “Ao sair daqui, jamais pensei que estava partindo para uma tragédia da qual, de certa maneira, fui testemunha”, diz ele. Em várias ocasiões ele deu guarda no palácio do Catete, residência oficial do presidente, a quem via chegar em um carro blindado. Não estava em serviço na noite do suicídio, mas um colega de plantão relatou haver escutado o disparo que matou Vargas. O que veio depois disso foi “uma loucura”, na expressão de Silveira, porque o Rio se transformou num campo de batalha, quebradeiras e protestos em profusão.

“Estávamos sempre de prontidão”, conta ele hoje, aos 85 anos. “O telefone tocava e estavam nos chamando para controlar uma confusão em algum ponto da cidade. O presidente era venerado pela população e fez muitas coisas boas, promoveu avanços na área trabalhista, aumentou o salário mínimo e realizou campanhas como a do petróleo, de caráter nacionalista. Não acredito que um homem que fez a Revolução de 1930 para melhorar o Brasil estivesse envolvido em falcatruas, como falavam seus opositores”.

Getulista rachado, Cláudio Silveira tem numa das paredes de sua casa, em Palhoça, a foto do ex-presidente em pose oficial. Considera-o “um homem incorruptível” e não respalda as críticas do deputado e jornalista Carlos Lacerda, que nas páginas da “Tribuna da Imprensa” desancava Getúlio Vargas com a mesma verve ferina que caracterizava seus discursos, como grande orador que sempre foi. Primeiro vereador pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) em sua cidade, Silveira também era admirador de João Goulart, o Jango, sobrinho de Vargas que foi deposto em 1964 pelos militares.

 

Boas lembranças da ‘cidade maravilhosa’

O batalhão dos “catarinas” se concentrou em Joinville antes da partida, em janeiro de 1954, numa “maria-fumaça”, rumo a São Paulo, e depois num trem a diesel para o Rio. Antes disso, no 14º BC, no Estreito, as despedidas de Cláudio Silveira foram de choro e abraços da família, porque ele praticamente nunca saíra de Palhoça, uma cidade pacata, onde todos se conheciam e onde o tempo parecia passar muito devagar. Os jovens catarinenses vinham do interior, eram fortes e disciplinados e quase nunca viravam motoristas, mecânicos, pintores ou cozinheiros do Exército – destino do quem tinha menos de 1,70m. As acomodações precárias dos vagões e as refeições feitas nos batalhões no curso de linha férrea não incomodavam aqueles homens, muitos criados nas lides da roça. A primeira etapa da viagem, até a Estação da Luz, na capital paulista, durou três dias.

Ida ao Rio foi praticamente a primeira vez que Silveira deixava Palhoça - Reprodução Marco Santiago/ND
Ida ao Rio foi praticamente a primeira vez que Silveira deixava Palhoça. 

A primeira etapa da viagem, até São Paulo, durou três dias.

- Reprodução Marco Santiago/ND



No Rio, a dureza na PE (Polícia do Exército), localizada na Tijuca, era compensada pelas folgas, quando os soldados saíam para conhecer a “cidade maravilhosa”. “Logo ficamos encantados com o requinte do Rio, com os homens de gravata e as mulheres bem vestidas – um colírio para o mané vindo da Palhoça”, brinca Silveira. A praça preferida era a Saens Peña, local de namoros e cinemas. “Foi a melhor época da minha vida, porque me diverti muito e, ao mesmo tempo, aprendi com a disciplina do Exército”.

Quando voltou, Silveira cursou Direito, Administração e Farmácia e entrou no serviço público federal. Aposentou-se em 1987 como superintendente do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) em Santa Catarina. Voltou algumas vezes ao Rio, mas a cidade já não era a mesma e nem havia mais a tranquilidade dos velhos tempos. Um dos pavilhões da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, serviu mais tarde para sessões de tortura de presos políticos, durante a ditadura.

Silveira (à dir.) chegou a servir no Palácio do Catete, mas no dia da morte não estava em trabalho - Reprodução Marco Santiago/ND
Silveira (à dir.) chegou a servir no Palácio do Catete, mas no dia da morte não estava em trabalho - Reprodução Marco Santiago/ND




Capital federal virou ‘um verdadeiro inferno’

Depois de mais de seis décadas do suicídio de Getúlio Vargas, Cláudio Silveira ainda recorda com nitidez o ambiente que antecedeu e o que se seguiu à tragédia. A UDN (União Democrática Nacional), partido ligado aos fazendeiros e industriais de Minas Gerais e São Paulo, fazia uma oposição ferrenha ao presidente. Seu porta-voz era Carlos Lacerda, que usava o jornal para denunciar desvios e acusar o governo de entreguismo, dobrando-se a interesses externos. Foi quando Gregório Fortunato, membro da guarda pessoal de Getúlio, planejou um atentado para assassinar Lacerda. O episódio ocorreu em 5 de agosto na rua Tonelero, em Copacabana, e resultou na morte de um amigo do jornalista, o major Rubens Florentino Vaz, da FAB (Força Aérea Brasileira).

Carlos Lacerda foi ferido na perna e aproveitou o incidente para aumentar as críticas ao governo, acusando Vargas de mentor do atentado. A crise desestabilizou ainda mais o governo. Getúlio convocou uma reunião com os ministros civis e militares, que terminou com a sugestão de que melhor faria se deixasse o cargo. Vargas retrucou que só sairia morto do Catete. O desfecho é conhecido, mas poucos esperavam pela violenta reação popular ao episódio. A notícia dada pelo radialista Heron Domingues no Repórter Esso, na manhã do dia 24 de agosto, causou um furor sem precedentes. “Começou um verdadeiro inferno, todo o batalhão entrou em prontidão fechada e até os soldados que estavam na rua foram intimados a se apresentar”, conta Silveira.

Ele lembra que jornais foram depredados e incendiados, o povo chorava nas ruas e palavras de ordem pediam a morte de Carlos Lacerda. Uma multidão compareceu ao velório no palácio do Catete, sob a guarda da Polícia do Exército. No embarque do corpo do presidente para o Rio Grande do Sul, onde seria enterrado, o aeroporto Santos Dumont ficou apinhado e a multidão não arredou pé após a decolagem do avião. Em vez de dispersar, como pediam os alto-falantes, atacou o pelotão da Aeronáutica, por entender que “tudo acontecera graças ao apoio desta Arma à UDN de Carlos Lacerda”, diz Silveira.

A resposta veio na forma de bombas de feito moral, gás lacrimogêneo, cassetetes e até metralhadoras. A turba foi para cima do Exército, o que resultou em centenas de pessoas pisoteadas, feridas e mortas. “Depois dessa data ficamos em prontidão ainda por mais 40 dias, atendendo ocorrências a toda hora, até que a paz voltasse ao Rio de Janeiro”, recorda Cláudio Silveira.

 

De fotos e eleições

- Antigos colegas da Polícia do Exército ainda realizam encontros anuais em diferentes cidades catarinenses, mas Cláudio Silveira não tem conseguido comparecer. Ele lembra que um dos colegas catarinenses tinha o apelido de Três Andares, devido à grande compleição física.

- Cláudio pertence a uma das famílias mais tradicionais de Palhoça – um parente ilustre foi o ex-governador Ivo Silveira (1918-2007). Ele ainda se lembra de cabeça onde morava cada família na cidade. Hoje, brinca, “os moradores antigos só se encontram nos velórios”.

- As fotos que guarda em casa mostram os antigos bondinhos do Rio de Janeiro, o time de futebol do Exército, os passeios, a praça Saens Peña. De Palhoça, as imagens são da família, da namorada com quem se casou, das festas religiosas e do pai, que era marceneiro e construía pontes na região.

- Cláudio Silveira sempre votou, mesmo depois que isso deixou de ser obrigatório, em vista da idade. No entanto, em 2018 vai se abster, “por causa da situação política do país”. Ele acha que o cenário só vai melhorar com a mudança do sistema. “Só mudar os políticos não adianta”, afirma.

 

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