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Terça-Feira, 13 de Novembro de 2018
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Gincana Cultural contagia gerações e une famílias há 17 anos em Biguaçu

Paixão pela brincadeira passa de pai para filho na cidade

Rafaella Martins
Florianópolis
Marco Santiago/ND
Rivais e amigos. Cinco equipes disputam o título este ano na Gincana Cultural

 

Nem a rivalidade entre Avaí e Figueirense consegue superar a competitividade que existe entre os gincaneiros de Biguaçu. O amor às cores da equipe é tão grande que ultrapassa gerações, arrastando pais e filhos para a praça central da cidade. Durante os meses de abril e maio, famílias inteiras dedicam o pouco tempo que resta para preparar tudo para suas equipes caírem de cabeça na disputa pelo título. E no próximo fim de semana, de 17 a 19, a atenção será total para a 17ª Gincana Cultural de Biguaçu.

Participante ativa, madrinha e uma das fundadoras da equipe mais vezes campeã da gincana, a funcionária pública aposentada Dalila Luz de Amorim, 59 anos, dedica todo tempo dos meses que antecedem a brincadeira para preparar tudo para que a equipe conquiste mais um título. A paixão pelo preto e amarelo da equipe A_A (Alegria, União e Amizade) surgiu quando o filho Willian, 29, com outros sete amigos, criou o grupo e um ano depois resolveu escrevê-lo na gincana. “Quando eles decidiram participar, fui convidada e resolvi ajudar meu sobrinho que teve a idéia de inscrever a equipe. Hoje, além do meu filho, tenho minha nora (Patrícia) e a certeza que em breve a minha neta também estará participando”, afirmou Dalila, referindo-se á pequena Sara, de 1 ano.

O que para muitos é uma diversão, para a pedagoga Luciane Hoffmann da Silva, 48, serve como consolo. Mãe da última rainha de Bigfest, Izabel Hoffmann da Silva, que morreu em 2011, aos 17 anos, ela encontra na equipe Chuchu Beleza forças para continuar seguindo em frente. “Eu participo da equipe com toda minha família, por ela, pois sei que se ela estivesse viva estaria aqui todos os dias. A equipe aproxima a Bel dos amigos. Ela sempre foi muito tímida e nunca gostou de concorrer, apesar de ser modelo, mas o amor pela equipe fez com que ela desfilasse e levasse o título duas vezes”, lembra Luciane.

Para Bianca de Souza Segala, 23, que começou a participar da equipe Raça por incentivo do marido Anderson da Silva Francisco, 24, um dos fundadores do grupo, a paixão pelo duende verde, símbolo da equipe, será passado para a filha Lara, de três anos. “Quero que ela entenda que isso representa amizade e união e aprenda a respeitar esses momentos, que é o período em que os amigos mais se encontram. Esse ano ela só não está na lista dos 100 porque a idade mínima permitida é de 10 anos”, disse Bianca, se referindo à lista principal em que os participantes são autorizados a participar das provas.

 

Luiz Evangelista/ND
Dalila Luz de Amorim é madrinha da equipe A_A e pretende passar a paixão pela equipe amarelo e preto para a neta Sara.

 

Festa começa na próxima semana

Correndo contra o tempo. A uma semana do início oficial da 17ª edição da Gincana Cidade de Biguaçu, os gincaneiros começam a contar os dias para ver a praça central da cidade pegando fogo. Envolvidos nos ensaios e organização das provas que vão de práticas esportivas, peças teatrais e dança à resolução de enigmas, eles aproveitam o período nos QG’s (Quartel General - sigla usada pra definir o ponto de encontro dos participantes de cada equipe) para rever amigos, exercitar a competitividade e estreitar laços.

As provas esportivas aconteceram no último domingo, 5. Neste sábado, 11, ocorre a disputa mais aguardada: a prova da madrugada, onde as equipes terão que buscar pistas em diversos pontos do município, até descobrir o resultado final.

Neste ano, a nova gestão da Liga dos Gincaneiros resolveu simplificar a gincana. Além de reduzir custos, facilitando o acesso de novos grupos, a Liga, constituída em 2008, acredita que o método tornará a disputa mais competitiva. “A gincana se profissionalizou muito, nos anos anteriores tinha equipes que contratavam profissionais para competir. Estamos tentando resgatar o amor à camisa”, explicou o presidente, Osvaldo Pietroski Júnior, o Nove, como é conhecido. Na 17ª edição, a responsável pela elaboração das provas será a equipe Imperatórios, de Blumenau, que já organizou a prova da madrugada nos anos anteriores.

Equipe solidária

Quem entra no QG da novata Virgens Forever, vê colada nas paredes e portas as regras para que os participantes possam manter o direito de utilizar o espaço. Apesar da pouca idade, já que mais da metade dos integrantes é menor de idade, o que se observa é que a experiência em organizar eventos solidários fez surgir ali um grupo motivado pela vontade de ajudar o próximo.

A equipe que surgiu de um time de futebol, onde cada participante levava um item para montar uma cesta básica e doar para uma família carente, começou a ganhar força em dezembro de 2012, quando organizou o Natal Solidário em Biguaçu, distribuindo brinquedos e doces para cerca de 500 crianças dos bairros Praia João Rosa e Saveiro. “Devido ao sucesso do evento, fomos convidados pela Liga para participar da gincana. Queremos ganhar o prêmio para promover uma festa ainda maior no Natal desse ano e mostrar que a equipe não é bagunça, mas felicidade, brincadeira e solidariedade”, disse uma das líderes da equipe, Karine Miranda, 21.

 

Marco Santiago/ND

 

Entre duendes e amigos

Na busca por um título desde 2007, a equipe Raça aproveita o período pré-gincana para reunir os amigos e estreitar os laços existentes entre eles. Criada há dez anos a partir do time de futebol de mesmo nome, o grupo acredita que mais importante do que competir é a aproveitar a brincadeira. “Competir é legal, mas o nosso objetivo é aproveitar”, disse um dos líderes Rodrigo Cesar Ockr, 28.

O grupo verde, que tem como mascote um duende, acredita que a maior dificuldade hoje é passar a equipe para os mais jovens. “Isso é preciso, mas precisamos ver que existe essa vontade, pois não entregaremos o nome da equipe para qualquer pessoa”, afirmou Fabrício Joaquim Francisco, um dos sete integrantes que ajudaram a criar a e que ainda permanecem na equipe. Intimidade e irreverência não faltam no grupo, que para descontrair criaram um novo slogan: “Na equipe nada falta, tem até um astronauta”, referindo-se a um dos líderes, Marcos de Larah, que participar da promoção que levará dois brasileiros ao espaço.

 

Marco Santiago/ND

 

Admirada pelos adversários

A equipe mais antiga do município é também a mais respeitada pelos adversários. Fundada no ano 2000, por um grupo de amigos que adoravam motos e acompanhavam o piloto de Motocross Samuel Carvalho, conhecido como ECC_Caldinho, a irreverente e descontraída, a ECC (Equipe Caldo de Cana) tem como principal objetivo alegrar a população cada vez que realiza uma prova. “Na última prova ouvimos de um integrante de outra equipe que no coração dele existem duas equipes, a dele e o ECC”, disse um dos líderes, Charles Luiz de Melo Junior, 33, mostrando o carinho conquistado pelo grupo.

Conhecida por não ter como objetivo a vitória, um dos líderes explica que a idéia de participar para brincar e não concorrer surgiu como forma de protesto. “Participamos um ano e não vencemos devido a uma prova que não ficou clara no regulamento. A partir daí começamos a participar somente para brincar, Hoje surgirmos para quebrar a tensão das outras equipes”, disse Eduardo de Borba Porcher, 30, lembrando o vínculo existente entre os participantes é muito forte.

 

Marco Santiago/ND

 

A aniversariante

O rosa pink, classificado por muitos como a cor do amor, traduz bem o sentimento dos 320 integrantes da Chuchu Beleza. Com o slogan “Na camisa e no coração”, uma das equipes mais competitivas da gincana mostra a importância sócio-cultural da competição para os jovens do município. “A gincana me ensinou muito coisa que acabei levando para a vida, como a competitividade, espírito de liderança. Sempre fui muito tímida e graças a equipe consegui quebrar essa barreira”, comentou a integrante e ex-líder Fernanda Rodrigues Lemos Pinto, 27. “A gincana tem o poder de transformar”, completou Murilo Azevedo, 27.

Comemorando dez anos, a Chuchu Beleza recebeu como presente a renovação das lideranças. Cinco jovens, que desde pequenos participavam do grupo, foram escolhidos para liderar durante os dias de gincana. “Todos que assumiram entraram bem pequenos na Chuchu. Isso para nós que ajudamos a fundar e por anos lideramos, veio como presente, pois temos a certeza que existe o interesse dos jovens de levar a equipe à frente”, comemorou Fernanda.

 

Luiz Evangelista/ND

 

Mania que virou paixão

Mais do que apenas uma peça do quebra-cabeça, conforme descrevem no hino da equipe desse ano, a equipe A_A (Alegria, União e Amizade), talvez seja o elo central da gincana. A mais vezes campeã, com seis títulos, é reconhecida pelo profissionalismo dos integrantes na hora de organizar as provas. “A gincana se profissionalizou e nós crescemos com ela. Os membros foram se especializando para produzir cada vez melhor as provas”, disse um dos membros, Maike Ferreira, 31. “Valorizamos nossos integrantes, temos como costume manter esse vínculo, é respeito com o grupo”, completou o ex-líder da equipe, Oscar Silva Neto, 29.

Criada a partir do grupo de mesmo nome no mirc, a equipe amarelo e preto começou a participar da gincana da cidade em 2003. A união do grupo e o amor pelo A_A é tão grande que em épocas de gincana é comum haver revezamento para definir a escala de ausência na aula. “Há alguns anos isso era mais frequente, mas existia um cronograma de quais aulas poderiam ser perdidas. As pessoas que não conhecem não entendem como isso é forte”, afirmou uma das líderes, Amanda Costa Correa, 28.

 

Luiz Evangelista/ND
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