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Domingo, 23 de Setembro de 2018
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Os "Tiradentes" do Centro Histórico de Florianópolis

Rua que homenageia o líder da Inconfidência Mineira guarda memórias e cicatrizes do passado da capital catarinense

Fábio Bispo
Florianópolis

As pernas que batem de um lado para o outro em meio aos carros que cruzam da avenida Hercílio Luz à praça 15 anunciam o novo dia. O odor da madrugada anterior ainda paira no ar. Nereu Coelho, 70 anos, um dos jornaleiros mais antigos da cidade, lança um bom dia, enquanto a vida segue apressada. O cheiro ruim ameniza perto da hora do almoço. É quando as cozinhas espalham aromas pelo ar: “A maioria do comércio é formada por restaurantes”, avisa o filho de Nereu, Gilberto Coelho, 41. Mas ali também é possível encontrar móveis usados, floricultura, loja de calçados e um dos mais antigos estúdios de fotografia da Capital. O sol quente nos fazer esquecer que já é outono, mas não é capaz de esconder certos descasos com o patrimônio histórico que edificou uma das mais antigas e democráticas vias da cidade.

Bruno Ropelato/ND
Paulo Silva, fotógrafo, espera que a rua volte a ter vida social como nos velhos tempos


Principal homenagem de Florianópolis a Joaquim José da Silva Xavier, o mártir da Inconfidência, a rua Tiradentes ainda é um elo entre o passado e o futuro da cidade. Não apenas pela homenagem ao patrono cívico do Brasil, mas por guardar em si a própria história da cidade que se ergueu aos arredores da praça 15. Muitos acham que a via parou no tempo desde que o Centro da cidade migrou para o outro lado da praça. “Com a retirada do Terminal Cidade o comércio perdeu força. Existem planos de melhorar, mas para isso precisaria mudar o tipo de comércio também”, opina Gilberto, que hoje toca o negócio da família na banca Joreli, aberta desde 1964.

Paulo José da Silva, 62, viveu grandes momentos de efervescência do hoje conhecido Centro Histórico. “Aqui na frente tinha o Petit, era o melhor lanche da cidade, todos vinham aqui para comer, beber e conversar. Ali se reuniam o pessoal do Tribunal de Contas, do governo, o Aldírio Simões, o Zinho e toda essa galera que depois migrou para o Box 32”, lembra o fotógrafo que há 40 anos atende no número 175 da rua Tiradentes, de frente para a travessa Ratclif.

Silva lembra, por exemplo, o furor que causou a passagem de Liza Minelli por aqueles cantos da cidade, em fevereiro de 1979, quando a estrela internacional escolhia Florianópolis para passar férias. Chegou à cidade a convite do músico catarinense Luiz Henrique Rosa e aportou no antigo Petit — hoje Canto do Noel — para conhecer as delícias da culinária manezinha.

Esperançoso de que a região volte a ter vida social como nos velhos tempos e com material suficiente para encher um caminhão de memórias, Silva está reformulando a loja, onde pretende devolver às paredes fotos históricas e uma pequena exposição com as câmeras que utilizou ao longo do tempo nos estúdio. “Nada está à venda, é só para mostrar mesmo”, diz.

De casarios a via de passagem

Nos séculos 18 e 19 a rua Tiradentes era uma via residencial. Em dezembro de 1887, na tentativa de incentivar o fim das casas ditas como de antiga arquitetura, foi aprovada lei isentando por cinco anos de imposto predial as casas reconstruídas a partir do ano seguinte. Assim, o Centro foi se transformando e substituídas as primeiras casas de porta e janela por sobrados maiores. Enquanto a rua Augusta — hoje João Pinto — era mais dedicada ao comércio, a Tiradentes foi reservada praticamente às residências.

A memória desses tempos marca os quase 300 metros da via, como o prédio histórico da Casa de Câmara e Cadeia, arquitetura do século 18, e o edifício que hoje abriga o Arquivo Histórico Municipal, que conserva os registros oficiais da administração municipal desde 1715.

No entanto, muitas dessas construções estão fadadas ao esquecimento. Algumas funcionam como depósitos, outras fechadas aguardando investidores, enquanto algumas já são tidas como irrecuperáveis.

Em 2001, por meio da Lei Complementar 82, a Câmara de Vereadores autorizou a criação de um calçadão, mas o projeto nunca saiu do papel. Com a migração das grandes empresas e órgãos públicos para outras regiões da cidade, a via se transformou em local de passagem.

Luta do resgate histórico

Uma das propostas do poder público para revitalizar o Centro Histórico, ao leste da praça 15, é o Centro Sapiens, parceria da prefeitura com o Sapiens Parque. O projeto prevê uma reestruturação dos espaços nas ruas João Pinto, Tiradentes e Victor Meirelles, onde estão previstas a inauguração do Museu da Cidade, na Casa de Câmara e Cadeia; reforma do Museu Victor Meirelles; e a criação de espaços de coworking e valorização dos casarios antigos.

Parte desse movimento de ocupação do Centro Histórico já vem sendo colocada em prática com o projeto Viva a Cidade, aos sábados, onde a população encontra um verdadeiro centro cultural em funcionamento. Seja com o samba no Bar do Noel, as mesinhas em plena Nunes Machado da Loja de Antiguidades, bar e café Tralharia, ou com a feira de orgânicos da Comcap no Terminal Cidade, a Tiradentes e todo o lado histórico da cidade começam a ganhar nova vida.

Em breve, a Tiradentes deve ganhar mais um novo espaço para manifestação artística e cultural. O projeto do jornalista Fifo Lima, organizador da Feira de Artes de Florianópolis, é de instalar num dos prédios vagos da rua uma galeria de arte, molduraria e espaço para oficina e cursos. Segundo Lima, a ideia é encaixar a proposta ao conceito de reocupação cultural do Centro Histórico.

Biografia de Tiradentes

Líder da Inconfidência Mineira, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, nasceu na Fazenda Pombal, em Minas Gerais em 12 de novembro de 1746. Tiradentes pagou com a própria vida a tentativa de tornar o Brasil independente da coroa portuguesa. Tropeiro, minerador, comerciante, militar, ativista político e dentista, este último lhe deu o nome de herói, foi condenado ao enforcamento e esquartejamento pela rainha Maria I pelo crime de lesa-majestade, sido executado no dia 21 de abril de 1792.

A Inconfidência foi o primeiro movimento de tentativa de libertação colonial do Brasil. Seu gesto permaneceu esquecido enquanto o país seguiu na monarquia regida pela Casa de Bragança com os descendentes de Maria I, Dom Pedro I e D. Pedro II.

Sua memória só foi resgatada com a criação da República, em 1889, pelos ideólogos positivistas que viam em Tiradentes a personificação da identidade republicada. Só a partir de então seu nome passou a figurar em prédios, monumentos, ruas e avenidas como forma de homenagem.

Em 1953 a escritora Cecília Meireles imortalizou o sonho de liberdade dos inconfidentes na obra literária Romanceiro da Inconfidência. A popularidade e uso da imagem de Tiradentes foram reforçados nos anos 1960 quando o presidente Juscelino Kubitschek oficializou a cerimônia do dia 21 de abril que ocorre todos os anos em Ouro Preto (MG).

 

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