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Sábado, 22 de Setembro de 2018
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Ônibus acidentado não tinha autorização para trafegar pela BR-282, entre Lages e Florianópolis

Licença da ANTT para a linha Posadas-Florianópolis da Reunidas é para o trecho pela BR-470, depois de Lages

Leonardo Thomé
Florianópolis
Rosane Lima/ND
Ônibus que capotou na BR-282, em Alfredo Wagner, ficou completamente destruído


A empresa Reunidas não tem autorização da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) para trafegar com a linha Posadas-Florianópolis pela BR-282 entre Lages e Florianópolis. Depois de Lages, esta  linha tem que ser feita pela BR-470. É este o trajeto que está no site da Reunidas, mas não foi o que fez o motorista Marcos Rudimar Lopes Machado, 53 anos, um dos nove mortos no acidente no Km 109,8 da BR-282, em Alfredo Wagner, na madrugada de domingo, que deixou 21 pessoas feridas – dez seguem internadas em hospitais de Florianópolis, São José e Lages. Além das causas do acidente, este é mais um motivo a ser investigado pela Polícia Civil.


 A ANTT, por meio de nota, informou que aguardará a conclusão do inquérito policial para tomar as medidas administrativas necessárias, que podem variar entre multas até a suspensão da concessão do serviço da Reunidas. Ao ND, o advogado da empresa, Anderson Marins, afirmou que a prioridade “foi e continua sendo o atendimento às vítimas”.

A empresa, de Caçador, Oeste do Estado, refuta informações dando conta do excesso de velocidade no momento do acidente e de suposto descumprimento de escalas e horários determinados pela legislação. Na medição preliminar do tacógrafo, o disco aponta que o ônibus estava a 122 km/h. “Não vamos falar sobre essa autorização para trafegar”, disse Marins.

Além de não estar autorizada a fazer a linha Posadas-Florianópolis pela BR-282, a Reunidas tem contra si oito inquéritos civis espalhados por promotorias do Estado. Todas as ações estão em andamento, e boa parte se refere a problemas de limpeza, manutenção e um caso de motorista flagrado falando ao celular durante a viagem.

Troca de motorista foi em Passo Fundo

Inicialmente, a Reunidas sustentou que a troca de motoristas havia acontecido em Lages, na última parada do ônibus antes do acidente. Para o policial civil Vanderlei Kanopf, da delegacia de Alfredo Wagner, a informação não é verdadeira. A última troca de motorista, garante, aconteceu em Passo Fundo (RS), cerca de seis horas antes do acidente. “A troca de motoristas foi em Passo Fundo, isso é certo. É preciso aguardar os resultados das perícias para tentar determinar o que causou o acidente, que pode ter sido falha mecânica, humana ou outro fator ainda desconhecido”, afirmou.

De acordo com a ANTT e o site da Reunidas, depois de parar em Lages o veículo deveria seguir para a BR-470, por Rio do Sul, Ascurra, Blumenau e, já na BR-101, passar por Itajaí, Balneário Camboriú, Itapema e Florianópolis. “Não prestei atenção na rota, a gente queria apenas que a viagem fosse concluída com sucesso”, disse Tereza Silva Alves, 21 anos, uma das sobreviventes do acidente.

Todos os inquéritos que tramitam no MP-SC contra a Reunidas tratam de violação aos direitos dos consumidores. Estão incluídas ações por problemas de higiene, falta de manutenção no interior do veículo e até uma por supostamente vender passagens tendo como destino a estação rodoviária de Gaspar e, na hora do desembarque, deixar os passageiros em outro local que não o indicado inicialmente. (Leonardo Thomé)

“O ônibus vinha muito rápido”, diz sobrevivente

Sentada na poltrona 33, na janela, Tereza Silva Alves, 21 anos, acordou pouco antes do acidente. Ao despertar, algo lhe chamou a atenção. “O ônibus estava muito rápido, a velocidade causava um barulho estranho. Não demorou e outros passageiros fizeram a mesma reclamação. Daí alguns acenderam as luzes e, nesse momento, sentimos o ônibus perder o controle... Daí tudo escureceu”, contou a gaúcha de Passo Fundo que está em Florianópolis, se recuperando do trauma no lugar onde pretende recomeçar a vida. “Eu vim para morar aqui. Se sobrevivi a esse acidente é porque devo ficar”, disse.

Antes do recomeço, Tereza deseja, como todos os sobreviventes, que a causa do acidente seja identificada logo. O culpado, seja ele quem for deve responder pelo ocorrido, cobrou.

Do que acompanhou nos instantes finais da viagem, Tereza afirmou que “o ônibus parecia estar bem, mas o motorista viajava acima da velocidade, senão outros passageiros não teriam reclamado”. Ainda tensa com o susto, ela agradecia por ter sobrevivido mesmo sem estar com cinto de segurança. Um descuido que cometeu após retornar do banheiro. “Tirei o cinto e depois esqueci de colocá-lo. Mas minha sobrinha estava com o cinto”, ressaltou.

Tereza viajava acompanhada da sobrinha, Amanda de Vargas, 18. Ela embarcou em Passo Fundo. Ontem, ainda estava com os pés inchados e com dores pelo corpo. A sobrinha, como ela, teve ferimentos leves.

Os minutos seguintes ao acidente, contudo, são os que custam a sair da memória. “Eu desmaiei na hora do capotamento, mas acordei depois em meio ao início de atendimento às vítimas. Era horrível, muitos gritos e sangue. Ainda bem que saímos quase ilesas de um acidente tão grave”, contou. (Leonardo Thomé)

Tacógrafo aponta 122 km/h

A medição preliminar do tacógrafo do ônibus da Reunidas que caiu numa ribanceira de 20 metros em uma curva fechada do Km 109,8 da BR-282, em Alfredo Wagner, a 114 quilômetros de Florianópolis, acusou 122 km/h num trecho onde a velocidade máxima permitida é de 60 km/h. “A medição é preliminar e ainda será comparada com a perícia feita pelo IGP [Instituto Geral de Perícia]”, informou o chefe da 1ª Delegacia da PRF (Polícia Rodoviária Federal), em São José, Jean Coelho.

De acordo com a PRF, o disco do tacógrafo mostra que o motorista transitava a uma velocidade média de 60 a 80 km/h. Na hora do impacto, a velocidade chegou a 122 km/h, o que demonstra que aconteceu alguma coisa anormal que fez o ônibus ficar sem controle. Coelho informou que o disco está com a Polícia Civil para ser encaminhada ao IGP. Dos 41 ocupantes do ônibus (40 passageiros e o motorista), nove morreram e 21 ficaram feridos. Até o fechamento deste edição, dez passageiros continuavam hospitalizados.

A Polícia Civil deve começar a ouvir hoje os primeiros passageiros que sobreviveram ao acidente. O inquérito será presidido pelo delegado de Bom Retiro João Roberto de Castro, porque em Alfredo Wagner não tem delegado. Mas os depoimentos serão recolhidos pelo policial responsável pela delegacia de Alfredo Wagner, Vanderlei Kanopf.

A causa do acidente deverá ser anunciada após a conclusão da pericia feita no ônibus. “Vamos analisar se ocorreu falta de freio ou outra falha mecânica”, ressaltou Kanopf. O pedido da perícia foi encaminhado ontem à tarde ao IGP.

Dos 21 feridos encaminhados aos hospitais, dez continuam internados em Lages, São José, Florianópolis e Passo Fundo (RS). O caso mais grave é o de Gustavo Victor de Assis, que está na UTI do Hospital Regional de São José. O quadro do morador de Passo Fundo é estável. (Colombo de Souza)

Pacientes internados

Hospital Nossa Senhora dos Prazeres, em Lages: Ana Lúcia dos Santos Avilla, Luiz Fernando Colverio Bilhar e Matheus Weber

Hospital Infantil, Florianópolis: Vitor Hugo Scheneider, 14 anos

Hospital Celso Ramos, Florianópolis : Marcelo Modelski, 18 anos, Thalis Jose Girardi, 22 anos, e Vitoria Domenico, 17 anos.

Hospital Regional de São José: Gustavo Victor de Assis, 44 anos

Hospital Universitário, Florianópolis: Loreci Kurz

Hospital Florianópolis: Sussi Abel Menine Guedes, 48 anos

BR-282 está entre as piores rodovias do país

O trecho da BR-282, entre Florianópolis e Lages, está entre as piores rodovias federais avaliadas pela CNT (Confederação Nacional do Transporte) no ano passado. Das 109 estradas analisadas na 18ª edição da Pesquisa CNT de Rodovias, o trecho catarinense da BR-282 aparece na 92ª colocação, com avaliação de regular.

As condições da pista na BR-282, que chegou a liderar o número de mortes nas rodovias federais em Santa Catarina no início de 2013, não estão boas em toda a extensão. Em dezembro do ano passado, o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura) rescindiu o contrato com a empresa designada para fazer a conservação, manutenção e restauração da malha rodoviária, “por falta de atendimento”.

Na BR-282, há problemas de trincas, fissuras, deformações e afundamentos em diferentes trechos, além de desgaste na sinalização horizontal. Além disso, os trechos de pista simples, o tráfego intenso de caminhões e os pontos de curvas, declives e sem acostamento, principalmente na região entre Alfredo Wagner e Rancho Queimado, onde aconteceu o acidente com o ônibus da Reunidas, exigem mais atenção dos motoristas.

 

 

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