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Sexta-Feira, 21 de Setembro de 2018
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No fim de semana das bruxas, os causos bruxólicos de Franklin Cascaes perpetuam em Florianópolis

Histórias de bruxas, lobisomens, sacis e boitatás ainda são ditas no interior da Ilha, onde a velha corcunda de nariz adunco pode ser a bela morena de olhos azuis que encanta e seduz

Edson Rosa
Florianópolis

A bruxa de agora se comunica pelo whatsapp e pode se esconder atrás de vistoso batom vermelho. Pode ser a velha benzedeira do interior da Ilha, uma das filhas ou a neta dela, mas as mais prováveis são moças loiras, ruivas e, principalmente, as morenas de olhos negros, azuis ou verdes. Pupilo de Franklin Cascaes, folclorista que percorreu o interior da Ilha para relatar em textos e desenhos figuras do imaginário popular entre os séculos 19 e 20, o museólogo Gelci Coelho Peninha, 60, sabe bem de quem está falando.

Zambi/ND


“Elas [bruxas] são as mulheres belas da Ilha que encantam e seduzem”, brinca Peninha, que ressalta a importância da obra de Cascaes ao relatar antigos causos de mulheres esqueléticas e de nariz adunco que faziam traquinagens nas praias e matas da Ilha. São lendas, que, segundo ele, se perpetuaram ao serem contadas pelas mães como forma de manterem seus filhos longe dos perigos da escuridão enquanto os maridos se ausentavam para pescar ou caçar.

A preservação da memória é o maior legado de Cascaes. Católicas, estas mulheres descobriram os segredos da natureza, da germinação, das plantas que curam e da espiritualidade. “Verdade ou mentira, o que contavam era uma espécie de educação repressora, uma forma de manter a prole sob sua guarda” , argumenta Peninha.

Um dos principais destinos turísticos do Brasil, Florianópolis ainda é parada obrigatória de bruxas, fadas, lobisomens, sacis, curupiras e boitatás, seres que resistem às inovações tecnológicas e habitam o imaginário popular. A cidade estaria estrategicamente localizada sobre um dos 47 pontos da “malha do mundo”, padrão energético que circunda a Terra e forma a força que atrai os elementais. Obviamente, nada disso tem comprovação científica.

Originalmente ocupado pelo homem do sambaqui e pelas primeiras tribos tupi-guaranis, o litoral brasileiro cultua lendas de bruxas desde a chegada dos primeiros colonos portugueses, entre 1748 e 1756. Foram cerca de 4.000 pessoas trazidas das ilhas dos Açores e da Madeira, entre elas, mulheres expulsas de lá sob a acusação de feitiçaria. Com elas, vieram também crenças e tradições mais tarde repassadas oralmente de geração para geração.

 

Assista ao Conto do Cuíca, adaptado de um texto de Franklin Cascaes

 

História contada de pai para filho se perpetua no Pântano do Sul

Católico praticante, o fiscal da Floram (Fundação do Meio Ambiente de Florianópolis) Zenaldo Mariano, 47, mostra os braços arrepiados quando lhe pedem para repetir uma história que ouvia desde menino nas noites de lua cheia. O pai, Zenildo Domingos Mariano, 76, homem de fé e que nunca gostou de mentiras, juntava os filhos para contar as peripécias do velho Jovelino, homem solitário que passava dias e noites entre a restinga do Pântano do Sul e a mata nativa da Costa de Dentro.

“Ele aparecia também nas trilhas da Lagoinha do Leste, no Matadeiro, nos costões da Solidão, na subida do Saquinho e na orla da Lagoa do Peri”, diz Zenaldo. De pouca conversa e solteirão, Jovelino era o caçula de sete irmãos, um deles benzedeiro, que cresceram nas roças de feijão e mandioca espalhadas pelas encostas do Sertão, e só desciam à praia para trocar o que produziam por peixe e querosene.

Numa sexta feira de lua cheia, na quaresma, Zenildo, que os amigos conheciam como Babaco, levava uma das filhas à novena, na capela do Pântano, quando foram cercados por três ou quatro cachorros assustadores. Um deles destacava-se dos demais pelo tamanho e ferocidade. “Papai conta que pegou uma pedra e jogou para espantá-los, não para ferir os bichos. Mas acertou no maior deles, e todos saíram ganindo pela restinga afora”.

Alguns minutos depois, quando ainda se recuperavam do susto, Zenildo e a menina foram surpreendidos pela chegada de Jovelino, que, trôpego, trazia uma das mãos à testa ensanguentada.

 

Bruxas

As mais prováveis são a primeira ou a sétima filha de uma prole só de mulheres. Uma forma de cortar o encantamento é a mais velha batizar a caçula imediatamente depois do nascimento.

Algumas belas, outras nem tanto, se juntavam quatro vezes ao ano em congressos de elementais que duravam dias e noites, sempre na escuridão da lua nova e nas mudanças de estações.

Com sua algazarra e voos rasantes em vassouras, assustavam pescadores e caçadores, roubavam canoas, bailavam em tarrafas e se divertiam dando nós nas crinas e nos rabos de cavalos.

Na cultura popular do litoral brasileiro, a fada antibruxa é representada pelas parteiras e benzedeiras, estas também confundidas com as próprias bruxas.

 

Lobisomem

Apareciam de muitas formas – cão, cavalo, boi ou porco. Geralmente, era o primeiro ou sétimo filho do casal e, como as bruxas, o mais velho deveria batizar o caçula para cortar o encantamento. Em noites de lua cheia, quando o sujeito se deitava nu no mesmo lugar onde o animal estava deitado, e, assim, absorvia o calor deixado pelo outro corpo no solo durante a metamorfose . 

 

Boitatá

Touro que lança chamas pelas ventas  ou pela cobra de fogo, encenação de alma penada ou protetor da mata.

 

Luz do Bota

Ponto de luz, como a brasa de um cigarro, que aparecia quase sobre o mar durante pescarias noturnas. Flutuava de um lado para outro, de cima para baixo, como se observasse os pescadores. Depois, desaparecia.

 

Curiosidades

Na Ilha, no período entre 30 outubro e 2 de novembro, o “Finadinho”, as crianças saíam de casa em casa da vizinhança e recebiam agrados como ovos, doçuras e outros mimos, em oferenda aos mortos.

O Dia das Bruxas, ou halloween, é celebrado em 31 de outubro, véspera do Dia de Todos os Santos, em parte dos países ocidentais. Chegou aos Estados Unidos com os irlandeses em meados do século 19.

A data surgiu há 2.500 anos entre os celtas. Eles  acreditavam que espíritos vagavam para assumir os corpos dos vivos. E, para afastá-los, decoravam as casas com caveiras, abóboras e ossos coloridos.

A festa pagã foi perseguida na Europa na Idade Média, com condenações à fogueira da Inquisição. Para evitar influências na Europa Medieval, a Igreja Católica criou o Dia de Finados, em 2 de novembro.

Resgata figuras assustadoras, como fantasmas, bruxas, zumbis, caveiras, monstros e até  Drácula e Frankestein. Crianças usam fantasias assustadoras e saem pela vizinhança para receber guloseimas.

No Brasil, a influência norte-americana ocorre por meio da televisão e proliferação de cursos de inglês. Para contrapor a aculturação, em 2005 o governo brasileiro instituiu 31 de outubro como Dia do Saci Pererê.

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