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O presente de ser pai: a história de Natal da família Escandiuzzi e da pequena Luísa

Fabrício Scandiuzzi comemora duplamente o Natal, que também marca a chegada da filha adotiva

Fábio Bispo
Florianópolis
23/12/2016 às 11H24

 Foi numa sexta-feira de dezembro de 2013, às vésperas do Natal, enquanto a sogra montava a tradicional árvore de presentes, que a vida do casal Escandiuzzi mudou pra sempre. Naquele dia, de surpresa, recebiam o maior presente de suas vidas: a pequena Luisa, com apenas 20 dias de vida. Foi uma “gestação longa”, com mais de dois anos e meio na fila da adoção, e um “pré-natal” curto, tiveram apenas três dias desde que conheceram pequena até a primeira noite na casa da família. “Não tínhamos nada preparado. Não havia um quarto, um berço, uma mamadeira ou mesmo um pacote de fralda guardado que fosse”, conta o pai, Fabrício Scandiuzzi, 40. Desde então, eles não pediram mais nada para o Papai Noel.

Fabrício e Luísa aproveitam mais um Natal juntos - Flávio Tin/ND
Fabrício e Luísa aproveitam mais um Natal juntos - Flávio Tin/ND



A pequenina Luisa chegou com os olhos negros esbugalhados, a pele coberta de brotoejas, o cabelo arrepiado e uma carinha de pânico. E virou a vida do jornalista de ponta cabeça. O homem que antes não tinha hora para trabalhar, vivia na rua pra cima e pra baixo com uma câmera e demais parafernálias, hoje, não se importa em ficar uma manhã inteira no jardim se passando por um dinossauro, ou então sendo paciente da “dotola Luisa”.

Mas a chegada da pequena exigiu muito mais que o desejo de ser pai. Foi uma entrega, desde o gesto de buscar a adoção, enfrentar a espera angustiante, até abrir mão de algumas atividades profissionais. “Minha vida mudou completamente. Passei a ter horários para almoçar, jantar, descansar e trabalhar. A minha alimentação melhorou de uma maneira absurda. Me tornei mais paciente, mais calmo, mais bem-humorado. Vejo que há coisas mais importantes na vida do que muitas bobagens que eu dava valor há alguns anos”, conta que aos poucos deixou a cobertura do dia a dia pelo Portal Terra para trabalhar como freelancer e dedicar ainda mais tempo ásua paixão.

A mãe Gisele, 42, se desdobra para conseguir cumprir a jornada de oito horas de trabalho fora, fazer pilates duas vezes na semana, ir ao supermercado e dividir o tempo que sobra, antes de dormir, com a pequena.

Experiência registrada na internet

A forma inusitada como o casal conheceu Luisa, o amor à primeira vista e a felicidade em serem pais levou o jornalista Fabrício Escandiuzzi a criar um site para registrar essa convivência. O Diário do Papai traz desde o dia a dia e as dificuldades do casal de primeira viagem, as atividades com a criança até assuntos sobre adoção, alimentação e cuidados. Neste momento, aos três anos de idade, Luisa passa pelo que Scandiuzzi chama de “primeira adolescência”. “Agora ela está falando, quer tudo e negocia”, conta o pai. Todas essas experiências são relatadas no Diário. Estão lá, por exemplo, a primeira sessão de cinema, o primeiro chocolate, a primeira festa de aniversário e o primeiro atendimento numa emergência.

Com uma boa pitada de humor e uma habilidade narrativa, o jornalista diz que a experiência tem valido a pena. “Eu não sei até quando vou continuar escrevendo sobre ela, mas acho que vai chegar uma hora que o site vai ficar pra ela”, contou. Em breve, o Diário do Papai também deverá ganhar um canal no Youtube. Uma das expectativas é transformar as postagens num livro.

Ao passo em que Luisa vai crescendo, os pais tentam, aos poucos, explicar a situação em que a criança entrou na vida deles. “Nós não queremos deixar para contar isso pra ela num dia específico. Se não se torna uma coisa de novela. O que tentamos explicar pra ela é que ela não nasceu da barriga da mamãe, dizemos que ela foi trazida por uma cegonha. Queremos que isso seja algo natural na vida dela”, conta o pai.

Adoção ainda sofre entraves no país

Luísa foi entregue para adoção logo após o nascimento e tinha apenas 20 dias quando chegou à casa dos novos pais, um caso raro entre as crianças que estão disponíveis para receber uma nova família. Para Escandiuzzi, o ato da entrega voluntária para adoção também é uma prova de amor. “Entregar uma criança para adoção não é um crime, não merece condenação e é acima de tudo uma opção para aquelas pessoas que não se acham na condição de assumir tamanha responsabilidade. Por isso são importantes políticas públicas para a entrega voluntária. Caso contrário, vamos continuar encontrando crianças abandonadas em portas de hospitais, em sacos de lixos, etc”.

Em novembro deste ano, estavam disponíveis para adoção 7.193 menores. Na outra ponta da fila, 38.202 pretendentes cadastrados aguardam a oportunidade de confirmar a adoção. O caso da família  Escandiuzzi levou dois anos e meio para ser finalizado. Segundo o pai, a demora se dá no processo para atestar se a família está apta ou não. “Só entramos na fila depois que fomos considerados aptos. Até lá foram diversas entrevistas, no Fórum e aqui em casa. Falta assistente social para fazer análise dos casos, e isso tudo vai demorando”, conta.

Outro motivo que ainda impede futuros pais e filhos de se encontrarem são os critérios exigidos para a escolha. Pelo menos 20,59% dos pretendentes somente aceitam crianças brancas. Na região Sul, apenas 41% os pretendentes aceitam crianças negras, por exemplo. Outro critério é a faixa de idade pretendida pelos pais. A maioria quer adotar crianças entre zero e 4 anos, no entanto, apenas 19,7% das crianças para adoção estão nesta faixa etária.

“Eu acho um absurdo você estabelecer a cor como critério para adoção. Como assim eu vou escolher alguém para amar pela cor? Na minha opinião, quem usa este critério não está pronto para adotar”, emenda Escandiuzzi.

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