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O fantasma das fake news: objetivo, motivação e prejuízos das notícias falsas

O Notícias do Dia publica nesta semana série de reportagens para discutir o impacto das notícias falsas e como combatê-las

Alexandre Gonçalves
Especial para o ND
27/03/2018 às 12H12
Fake News - Arte/ND
Fake News - Arte/ND


Recente pesquisa com leitores brasileiros a respeito do consumo de notícias online mostrou que me­tade dos entrevistados admitiu já ter tomado decisões baseadas em informações falsas. Realizada via internet pela agência de checagem Aos Fatos, entre 26 de janeiro e 28 de janeiro, a pesquisa ajuda a en­tender a relação entre a forma de acessar notícias na internet e a ex­pansão das chamadas fake news. De acordo com os dados coletados, um terço dos entrevistados nunca ou raramente questiona a veraci­dade de notícias nas redes sociais. Por outro lado, 33,8% disseram consumir informações diretamente em redes sociais ou aplicativos de mensagem.

A pesquisa recebeu respostas de 805 pessoas, com idade entre 18 e mais de 65 anos (veja abaixo). “Os dados que reunimos indicam que as pessoas estão atentas para o conteúdo falso disseminado nas redes“, diz a jornalista Tai Nalon, di­retora-executiva e cofundadora da Aos Fatos. “Mas isso não significa que elas chequem sempre as infor­mações que recebem pelo Facebook ou pelo WhatsApp“. Na avaliação da Tai, as pessoas sabem que existe conteúdo não confiável nas redes sociais. “Desconfio que as pesso­as querem conseguir informações de credibilidade, não sabem como, mas sabem que é necessário“, diz.

Consumo de informações online

Dados da pesquisa realizada pela agência de checagem Aos Fatos

  • 43% dos entrevistados disseram não confiar na maioria das vezes em notícias vindas de aplicativos de mensagem; 30% disseram confiar apenas quando conhecem quem compartilhou.
  • Metade dos entrevistados admite já ter tomado decisões baseadas em informações falsas.
  • Entrevistados que se informam principalmente por veículos alternativos são menos propensos a admitir que já tomaram decisões baseadas em notícias falsas: mais de 80% afirmam nunca ter caído em fake news.
  • Quem se informa por links em redes sociais ou mecanismos de buscas diz o contrário: mais de 80% já tomou decisões baseadas em notícias inverídicas.
  • Busca por audiência e ganhos políticos ou financeiros é a principal motivação para a existência das notícias falsas, segundo os entrevistados.
  • Um terço dos entrevistados nunca ou raramente questiona a veracidade de notícias nas redes sociais.
  • Entrevistados que se informam principalmente por veículos tradicionais afirmam ser mais críticos sobre a notícia consumida: 62% alegam checar a informação. Por outro lado, quando a principal fonte são agregadores de conteúdo, apenas 35% admitem fazer checagens próprias. Em redes sociais ou aplicativos de mensagem, o percentual é de 37%.
  • A ausência de fontes e outras referências é apontada por 42,5% dos respondentes como um dos principais sintomas de desinformação.
  • Sobre a origem de consumo de notícias online, 33,8% e 33,4% dos entrevistados responderam que fazem, respectivamente, diretamente em redes sociais ou aplicativos de mensagem e via pesquisa em mecanismos de busca.
  • 30% dos entrevistados disseram confiar nas notícias vindas diretamente de redes sociais ou aplicativos de mensagem, dependendo de quem enviou ou publicou a informação.
  • A opção Desconfio na maioria das vezes aparece em segundo lugar com 24,1% das respostas.

FONTE: AOS FATOS (todos os dados em WWW.AOSFATOS.ORG)

 

Uma das formas de contribuir para reverter esta situação, para Tai, é tratar do assunto constante­mente. “Se a gente dá ferramentas para elas mesmas checarem as in­formações pela internet, eu acho que vamos conseguir combater de modo mais efetivo esse problema das fake news”, diz a jornalista. E é o que está acontecendo no Bra­sil e em todo o mundo, como nos Estados Unidos desde a eleição do presidente Donald Trump, cercada ainda hoje de desconfiança em tor­no da atuação de criadores e pro­pagadores de notícias falsas. Por aqui, as fake news têm sido tema de discussão em diversos setores da sociedade. Na imprensa, entre for­madores de opinião, no Senado e no Tribunal Superior Eleitoral. Este último, de olho nas eleições deste ano, criou um Conselho Consultivo com diversas entidades para tratar do assunto e preparar ações com cartilhas para orientação dos juí­zes eleitores.

WhatsApp

Tudo isso gira em torno do alcance que as fake news vêm obtendo. Mesmo em situações de menor impacto, como compartilhando uma foto de um lugar como sendo de outro, é possível perceber a forma como os usuários de redes sociais como Facebook agem. Mas a professo­ra, pesquisadora e especialista em mídias sociais da Universidade Fe­deral de Pelotas, Raquel Recuero, afirma que o alcance de uma fake news depende sempre do tipo de notícia e da plataforma usada. “No WhatsApp, por exemplo, as pessoas tendem a compartilhar mais infor­mações no estilo ‘corrente’, mais pessoalizadas”, diz. “Muitas vezes mesmo sem certeza se a notícia é verdadeira, acabam divulgando em suas redes ‘pelo sim ou pelo não‘”.

WhatsApp está fora do ar no Brasil - Divulgação/ND
No WhatsApp, fake news costumam vir agregadas de algum sentido de ur­gência ou recompensa - Divulgação/ND


Raquel destaca que as informa­ções falsas que circulam em aplica­tivos como o WhatsApp, com mais de 1,3 bilhão de usuários ativos no mundo, costumam vir sempre agregadas de algum sentido de ur­gência ou recompensa pelo engaja­mento. Expressões como “Compar­tilhe com todos os seus amigos!”, “Cuidado!”, “Se chegamos a um mi­lhão de pessoas, poderemos fazer a diferença” são usadas com frequ­ência e com uma linguagem mais pessoalizada. Já no Twitter ou no Facebook, segundo Raquel, as pes­soas tendem a compartilhar mais informações com as quais concor­dam, sem muitas vezes ler a infor­mação por inteiro. “Compartilham apenas pelo título ou simplesmen­te porque outra pessoa comparti­lhou”, conta a pesquisadora.

As notícias falsas assemelham-se a notícias verdadeiras e partem de sites ou fanpages com nomes que remetem ao padrão usual de veículos de comunicação como Fo­lha Política, Plantão Brasil, Falando Verdades, Política na Rede, Jorna­livre, Pensa Brasil e Notícias Brasil Online, conforme levantamento da Folha de S.Paulo. Raquel Recuero diz que as fake news trazem tí­tulo impactante e, muitas vezes, opinativo e até sem relação com a matéria, junto com algum link que se assemelhe com um veículo de informação tradicional. As fake news são, em sua maioria, notícias chamativas, com conteúdos curtos e afirmações fortes. Estas notícias visam claramente mexer com as emoções do leitor de tal forma que ele passe a acreditar em seu conte­údo de forma inquestionável. “Em alguns casos, inclusive, a notícia falsa é baseada em uma informa­ção verdadeira”, diz.

A metodologia das fake news

- Para a professora e consultora Luciana Manfroi é possível implantar mecanismo que impeça a publicação de notícias falsas. Mas é muito difícil desmantelar a cadeia de agentes que envolvem as fake news. “São muitos os envolvidos, cada qual com suas ações”, diz. E há a metodologia da fake news, como explicada Luciana:

- “Existe o agente que paga a conta, um agente financeiro que indica ao criador, que adquire um aparelho (celular, computador, modem, etc) no mercado paralelo, que não se consegue rastrear o IP, abre locais para publicação de conteúdo (locais ponto com, onde se consegue não haver o registro de quem se inscreve na conta, como, por exemplo, o WordPress). Em seguida, entra em ação o produtor de conteúdo, que publica as notícias falsas no blog e, por fim, o disseminador, que impulsiona patrocinados nas redes sociais, com cartões pré-pagos, em que não se pode localizar o proprietário, até ser compartilhado pelas pessoas da rede.”

Pesquisa aponta que a maioria dos jovens das classes D e E acessa internet apenas pelo celular - Valter Campanato/Agência Brasil
É comum o uso de estratégias que ajudam a impulsionar uma notícia falsa, como o uso de robôs e perfis falsos - Valter Campanato/Agência Brasil



Objetivo, motivação e prejuízos

O objetivo de um criador de fake news é convencer o usuário a replicar a publica­ção, mesmo que não tenha cer­teza de sua veracidade, lembra Raquel Recuero, para “dar vo­lume” em compartilhamentos, curtidas e comentários como forma de dar credibilidade. Para isso, além da linguagem, é comum o uso de estratégias que ajudam a impulsionar uma notícia falsa como o uso de robôs (bots) e perfis falsos. “Quem cria fake news tem ple­na consciência da inveracidade dos fatos, dados, números e si­tuações que descreve“, afirma José Vitor Lopes, advogado es­pecializado em direito digital da Lopes&Philippi Advogados.

Para ele, a criação de fake news é motivada pelo desejo consciente de causar prejuízo aquele que é objeto do conteú­do falso. “O prejuízo é a destrui­ção de reputações com lincha­mentos morais e físicos, como o caso da mulher amarrada, espancada e arrastada até a morte por um grupo de mora­dores do bairro Morrinhos, no Guarujá (SP), em 2014, após bo­atos de que seria sequestrado­ra de crianças serem espalha­dos no Facebook”.

Já Luciana Manfroi, acredita que a motivação de uma fake news parte de duas possibili­dades:

1) Motivação de empresas que são geradoras de conteú­dos falsos, que geram receita com este tipo de notícia. “São especializadas em propagar notícias falsas e recebem capi­tal através de cliques de usuá­rios que entram em seus sites/ blogs”, diz.

2) Motivação das próprias pessoas que não checam as fontes e acabam compartilhan­do as fake news, muitas vezes porque estes tipos de notícias são fabricadas com o propósito de sensacionalismo e gerar re­ações emocionais nos usuários.

Mas as fake news também são criadas como conteúdo caça cliques. “Podemos ve­rificar a relação entre sites caça cliques e aplicações de Facebook que exigem dados e permissões, que são constan­temente utilizadas para propa­gação de informações falsas e criminosas, sendo muito fácil converter tais redes em repu­blicadores de fake news“, alerta José Vitor.

Temas e papel do público

O “Fla-Flu” político que domina as redes sociais desde 2013 também impulsionou o avanço das fake news. Por isso, não é de se estranhar que o tema predomina como o mais recor­rente entre as notícias falsas que circulam nas redes sociais. Mas isso pode variar em períodos em que há algum assunto na pauta do dia, como explica Gilmar Lopes, criador do site E-Far­sas, especializado em verificar e desvendar bo­atos da internet.

Ele cita o surgimento de casos relacionados à doenças como Gripe Suína ou, mais recentemente, Febre Amarela, que servem de “gancho” para a criação de notícias falsas. Além disso, o comportamento do pú­blico também contribuiu para o fan­tasma da fake news seguir assom­brando as redes sociais. “A diferença das fake news para o conteúdo de sites de humor como Sensacionalista e Não Salvo é que esses canais hu­morísticos deixam claro que aquilo é uma brincadeira”, conta. “Mas acon­tece que algumas pessoas copiam o texto, que a princípio era uma sátira, e o compartilham fora do contexto e aí nasce um boato digital”.

O fato do público virar “meio” com a internet (com blog pessoal, perfil em rede social…), se colocando mui­tas vezes no mesmo patamar de ve­ículos, contribui para a propagação de notícias falsas ou mal apuradas. “Contribui bastante porque alimen­ta uma confusão de papéis sociais”, explica o professor do curso de Pós- Graduação em Jornailsmo da UFSC, Rogério Christofoletti.

Ele conta que até pouco tempo atrás se esperava que apenas jorna­listas e meios profissionais tivessem a obrigação de confirmar as infor­mações antes de passá-las adiante. “Gosto de pensar que antes da inter­net com redes sociais e blogs, havia um balcão que separava quem pro­duzia informação profissionalmente e quem as consumia”, conta. “Com a internet e suas potencialidades, de­ram um pontapé nesse balcão e lá se foi a separação rígida entre pro­dutores profissionais e amadores”. E no caso dos amadores muitas vezes falta preparo profissional e compro­metimento ou responsabilidade com a informação.

Para Christofoletti, as fake news ajudam a erodir a noção de verdade, e isso afeta sobretudo os sistemas de confiança e credibilidade. Na opinião dele, a desinformação gera confusão, que gera medo e insegurança, que gera descrédito, que gera compor­tamentos irracionais. “As fake news funcionam para minar as nossas (poucas) certezas, produzindo com­portamentos de manada que quase sempre são de fuga desesperada ou de instinto de sobrevivência”, atesta.

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