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O espírito da Páscoa: três famílias compartilham tradições e histórias de vida do feriado

Enquanto alguns prezam pela produção de coelhinhos de chocolate e bolachas, outros aproveitam a data comemorativa para fazer arte e criar decorações

Aline Torres (Especial para o Notícias do Dia)
Florianópolis
30/03/2018 às 21H39

A Páscoa é a data mais importante para a indústria nacional de chocolates. Logo depois do Carnaval, parreiras de ovos são montadas nos supermercados. As marcas começaram cedo a pensar nas tendências, o que venderá massivamente, quais os personagens infantis farão sucesso. Mas há aqueles que na contracorrente prezam por uma Páscoa singular, mais afetiva do que comercial. E o primeiro passo é usar as próprias mãos, o tempo e as ideias.

Todos sabem que a data é cristã. Mas não é somente em Cristo que a maioria das pessoas pensa quando chega esta data. Pensa-se em comida, que é uma forma ancestral de comunhão.
A comida que se partilha é carregada de afeto, de símbolos profundos enraizados em nossas lembranças mais valiosas, que são, quase sempre, lembranças em família.

Martina e Julia produzem chocolates ao lado da mãe, Denise Loesch - Marco Santiago/ND
Martina e Julia produzem chocolates ao lado da mãe, Denise Loesch - Marco Santiago/ND


A fantástica fábrica de coelhinhos

Martina, 9 anos, e Julia, 7 anos, são ajudantes do Coelho da Páscoa e se empenham com afinco para manterem o posto. Há três semanas elas produzem pirulitos de chocolate, bombons em formato de coelhinhos e pequenos ovos recheados. A mãe, a gaúcha, Denise Loesch, 39 anos, e o pai, o argentino, Enrique Mantovani, 44, supervisionam, mas elas se saem bem em todas as etapas da produção. O irmão Matias, 12, é responsável pela degustação, tarefa árdua.

Talvez o desembaraço culinário seja herança da avó argentina, que é chef. Pode ser também influência da filosofia da mãe, que acredita que elas têm que desenvolver ao máximo suas potencialidades na infância para não passarem trabalho na vida adulta.

E não bastasse o trabalho na cozinha, a duplinha participa de um curso de decoração para a Páscoa. O resultado são coelhos de pano, caprichosamente costurados, que irão enfeitar a festa.
A família aproveita a data para se reunir em uma grande celebração, com parentes vindos de outras cidades. Tem caçada ao ninho, com direito a pistas e lupas de detetive e, claro, a distribuição das doçuras. Um momento tão grandioso quanto a intenção materna de alimentar a alma das meninas.

As cores da Páscoa

No centro da mesa da sala de Regina Floriani Petry, 57 anos, há um ninho de ovos de galinha. Eles foram pintados há 14 anos pelo seu irmão, o artista plástico Sergio Martins Floriani.

Na Páscoa, Regina Floriani Petry tem o hábito de pintar ovos de galinha - Marco Santiago/ND
Na Páscoa, Regina Floriani Petry tem o hábito de pintar ovos de galinha - Marco Santiago/ND


Quando eram pequenos, os cinco irmãos Floriani, incluindo Regina e Sergio, pintavam ovinhos com papel de seda e água misturada no vinagre. Nos domingos depois da missa, saiam à caçada dos tesouros recheados de amendoim doce – muito bem escondidos na chácara dos pais.

Quando Sergio adoeceu gravemente, Regina buscou nas memórias da infância um consolo. Para distraí-lo da tristeza, levou até ele 36 ovinhos brancos. Era fevereiro de 2004. Ele os tingiu com cores fortes, múltiplas, falsos fios de renda e morreu na sexta-feira santa, aos 41 anos.

Mas em todas as Páscoas sua obra está lá, no centro da mesa, onde a família se une, confraterniza, come amendoim doce e lembra-se de Sérgio. O amor é capaz de ressurreições.

As bolachas da avó

Odila esperava o navio. Ele traria condimentos e massas congeladas da Alemanha para que os imigrantes de São Bento do Sul pudessem fazer as famosas bolachas decoradas.

Filha de portugueses, Odila Gomes Pereira repassou para as netas uma receita antiga de bolachas - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND
Filha de portugueses, Odila Gomes Pereira (ao centro) repassou para as netas uma receita antiga de bolachas - Arquivo Pessoal/Divulgação/ND


Por ser uma Gomes Pereira, filha de portugueses, se distinguia do povoado de alemães e polacos encravado em pleno Planalto catarinense desde o final do século 17.

Não se sabe qual das vizinhas alemãs confidenciou o segredo das bolachas a Odila, mas ela não o deixou morrer. Sua neta, a manezinha Andréia Oltramari, 40 anos, preparou muitas fornadas para está Páscoa. A massa fininha e crocante com cravo, canela e noz-moscada ganha recortes de coelhinhos e corações e camadas de glacê, uma pintura cuidadosa e cheia de graça.

Para buscar os ingredientes, Andréia segue os passos da avó. Vai a São Bento do Sul para comprar produtos diretamente dos produtores locais, como melado caseiro, quentinho.

Quinze dias antes da Páscoa a produção começa. Amigos e familiares são presenteados. Neste ano, encomendas foram enviadas para saciar a gula de parentes da França, Espanha e nos EUA.

E a cada bolacha compartilhada a memória de vovó Odila, ou Nini, como era chamada, permanece viva.

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