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O desafio da Indústria 4.0 em Florianópolis, que agiliza processos na produção fabril

Chamada de revolução da eficiência, em razão de reduzir a margem de erro, ela trará mais tecnologia para o dia a dia das pessoas

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
03/03/2017 às 19H38
Carlos Alberto Fadul Reis mostra projeto da Fundação Certi, de placas para maquinário agrícola. “A inteligência evita defeitos”, diz - Daniel Queiroz/ND
Carlos Alberto Fadul Reis mostra projeto da Fundação Certi, de placas para a indústria. “A inteligência evita defeitos”, diz - Daniel Queiroz/ND



As relações não raro tempestuosas entre planos de saúde e usuários poderão azedar ainda mais quando as operadoras passarem a exigir dos clientes o uso de um chip para conferir se estes estão cumprindo à risca as determinações médicas, tomando os remédios na hora certa ou fazendo os exercícios recomendados para reduzir o teor de açúcar no sangue, por exemplo. Caso estiverem sendo relapsos, o plano poderá ser cancelado ou ter seu preço majorado pela operadora. Este é um exemplo de como a tecnologia dos sensores entrará ainda mais no dia a dia das pessoas num futuro não tão distante assim. Ao mesmo tempo, os carros dispensarão os motoristas e andarão movidos à eletricidade. E até as bancas de advogados perderão espaço para aplicativos na resolução de questões judiciais menos complexas.

Essas mudanças não são absurdas se pensarmos que já não há filas em bancos e as atendentes do rádio-táxi deram lugar a centrais com comunicação integrada e aplicativos que facilitam a vida da clientela. Contudo, por trás desses avanços está um fenômeno pouco percebido que vem mexendo com os processos de produção – a Indústria 4.0. Proposta originalmente na Alemanha apenas seis anos atrás, ela engloba inovações tecnológicas nos campos da automação, controle e tecnologia da informação aplicada aos processos de manufatura. Não por acaso, também leva o nome de manufatura avançada e traz a indicação 4.0 porque é vista como a quarta revolução industrial, caracterizada pela extrema conectividade, eficiência e fluxo de produção imune a erros. Ela não leva necessariamente à gestação de produtos inovadores, mas é inovadora na forma como conduz os processos produtivos.

Um exemplo prático dessa transformação é a possibilidade de uma indústria de vestuário, usando um minúsculo sensor, saber que uma peça está sendo experimentada no provador de uma loja e repor o estoque daquele produto específico. Um alerta é dado e a indústria, percebendo que aquela ou outra peça apresenta demanda superior à média, detona a produção de similares na unidade fabril.

Como a Indústria 4.0 implica em eficácia excepcional nos processos de produção, o uso maciço de robôs nas fábricas é uma questão de tempo e as relações de trabalho, assim como a oferta de empregos, sofrerão um baque dentro poucos anos. “Em menos de uma década, 65% das profissões atuais não vão mais existir”, anuncia o diretor regional do Senai/SC, Jefferson de Oliveira Gomes, baseado num dado divulgado em 2016 pelo Fórum Econômico Mundial.

 

Quando os sistemas ‘conversam’ entre si

 O que facilitou a criação e expansão da Indústria 4.0 foi a combinação da conectividade (graças ao barateamento do preço dos sensores, periféricos e bens de capital) com outros recursos que se tornaram mais acessíveis, como a tecnologia de banco de dados (big data), a internet das coisas (IoT), os sistemas cyber-físicos, a robótica avançada e a inteligência artificial. “É uma revolução, que vai se traduzir em mais tecnologias a preços baixos, em todos os setores”, diz Jefferson Gomes, que também é professor do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), em São José dos Campos (SP). Ele faz uma comparação que dá a medida das transformações em curso: “Um celular tem 500 vezes mais tecnologia do que a nave que pousou na Lua”.

Hoje, os sistemas “conversam” entre si, o que equivale a dizer que os fluxos de produção estão mais rápidos e assertivos. Isso é um passo adiante em relação à revolução dos meios digitais. O monitoramento de processos em tempo real ajuda as empresas a atingir níveis inéditos de excelência. Para isso, sensores captam informações e se integram a sistemas que permitem agilidade na tomada de decisões e o controle da venda de determinado produto, no caso do varejo. Um exemplo de interconectividade é o da Amazon, o maior e-commerce do mundo, onde a um pedido remoto do usuário entram em ação vários procedimentos controlados por um sistema computacional. Pequenos robôs levam as prateleiras onde está o item solicitado até os funcionários, que conferem os dados do pedido e, sem perda de tempo, tratam de enviá-lo ao comprador. Parte do processo pode inclusive ser acompanhada pelo cliente na internet.

 

A INDÚSTRIA EM QUATRO MOMENTOS

1ª Revolução Industrial – Século 18

Aprimoramento das máquinas a vapor; criação do tear mecânico

2ª Revolução Industrial – Século 19

Utilização do aço, da energia elétrica, de motores e de combustíveis derivados do petróleo

3ª Revolução Industrial – Século 20

Avanço da eletrônica, dos sistemas computacionais e robóticos para manufatura

 4ª Revolução Industrial – Hoje

Sistemas cyber-físicos, aplicação da internet das coisas e processos de manufatura descentralizados

Thiago Mantovani: empresas para sobreviver, precisam dos processos da Indústria 4.0 - Daniel Queiroz/ND
Thiago Mantovani: empresas para sobreviver, precisam dos processos da Indústria 4.0 - Daniel Queiroz/ND



Onde a inteligência é gestada

Um modelo bem sucedido de empreendimento voltado para essa nova ordem é o LABelectron, laboratório-fábrica vinculado à Fundação Certi que desde 2002 atua junto a empresas no desenvolvimento de produtos inovadores. A fundação é privada e produz soluções tecnológicas para o setor industrial do Estado, de outras regiões do país e também do exterior. O laboratório faz protótipos para montadoras de automóveis, empresas de energia e também desenvolve produtos, cria projetos de novas fábricas, customiza processos eletrônicos, faz estudos de viabilidade, planos de negócios e plantas industriais. Tendo a inteligência como matéria prima, pode produzir em pequena escala itens de alto valor agregado.

Uma característica das empresas de tecnologia é que elas focam na inovação, mas não fabricam o produto final. Uma empresa de tratores e colheitadeiras, por exemplo, precisa de uma placa que comande a operação das máquinas nas fazendas do centro-oeste do Brasil, e encomenda essa solução junto ao LABelectron. A placa é desenvolvida de forma que o trator desempenhe o trabalho dentro da maior eficiência possível, inclusive com GPS, tornando o operador da máquina uma figura secundária. “Cada componente elétrico tem sua função”, diz Carlos Alberto Fadul Reis, diretor executivo do Centro de Processos Produtivos da Fundação Certi, mostrando como máquinas extremamente precisas inserem os componentes nas placas.

Com 130 clientes e 80 funcionários, o LABelectron tem uma máquina que inspeciona cada placa, que contém cerca de cinco mil componentes, antes de ir para o forno – tarefa impossível de ser executada manualmente. É a tal conversa entre máquina e objeto. “A inteligência evita defeitos”, afirma Carlos Alberto.

Para Thiago Mantovani, gerente do Centro de Produção Cooperada da Certi, a manufatura é o coração da indústria e, por isso, deve ter a capacidade de se remontar – para não fechar. “A Indústria 4.0 é necessária para a sobrevivência das empresas”, afirma. Ele cita o caso da indústria têxtil, que precisa reduzir custos na operação sem perder competitividade. Neste segmento, a tendência é o desenvolvimento de modelos próprios que vão customizar a produção, chegando ao ponto de cortar o tecido na medida do cliente, colocar uma etiqueta com seu nome e embalar o pedido com o endereço do comprador.

A importância de formar e reformar pessoas

Entusiasta das novas tecnologias, o diretor regional do Senai, Jefferson de Oliveira Gomes, adverte que o novo paradigma industrial apresenta desafios como a preparação de mão de obra para dar conta das demandas futuras e alerta para o temor que as transformações trazem aos governos. Ele chega a afirmar que a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos reflete o medo da globalização. “Hoje, no mundo, há 3,5 bilhões de pessoas com algum tipo de contrato de trabalho”, informa Oliveira Gomes. “Destas, 1 bilhão atua em profissões que não existiam antes de 2011. A sociedade vai mudar suas características, haverá novos produtos e processos, novas necessidades individuais e para grupos de pessoas, empresas, lojas, chãos de fábrica, conglomerados e os consumidores em geral. Tudo isso será bom para as startups, pequenas empresas de base tecnológica”.

O profissional define a Indústria 4.0 como “um conjunto de tecnologias baratas que permitem soluções e consequências importantes”. Elas aumentarão a preocupação com a formação e a reformação de pessoas. O ensino demandará mais qualidade, embora não mais tempo de estudo – em 160 horas, estima Gomes, pode-se formar um bom técnico para trabalhar com tecnologia e projetar soluções baseadas na inteligência artificial. Saber resolver problemas será mais importante do que o conteúdo e o diploma. “Num futuro próximo, os jovens terão de cinco a seis profissões antes de se aposentarem, e os robôs serão muito mais comuns nas fábricas do que hoje em dia”, conclui ele.

 

CURIOSIDADES

  • O Airbnb (serviço online onde as pessoas anunciam e reservam acomodações e meios de hospedagem) e o Uber são dois exemplos de novos produtos e serviços que a tecnologia tornou acessíveis. As mudanças para as pessoas são mais rápidas que as leis e regulações que vão cuidar delas.
  • Em menos de uma década será possível produzir em casa um alimento com o mesmo valor que o frango, sintetizando os elementos que compõem a proteína da ave.
  • Como muita coisa – roupas, canetas, pneus, ceras, cosméticos, produtos de limpeza, plásticos, corantes – advém do petróleo, será possível transformar os itens que perdem utilidade em combustível. Isso deverá reduzir os impactos da queima de material fóssil, no futuro.
  • Com problemas de infraestrutura e telecomunicações, o Brasil é o 72º no ranking mundial da Indústria 4.0; na América Latina, está atrás do Uruguai, Costa Rica, Panamá, Trinidad e Tobago e Colômbia.
  • Especialistas preveem que em 2020 mais de 50 bilhões de objetos – sete vezes a população mundial – estarão conectados à internet, promovendo negócios estimados em US$ 32 trilhões.
  • O livro “A quarta revolução industrial” (editora Edipro, 2016, 160 p., R$ 49), do alemão Klaus Schwab, explica em que medida a Indústria 4.0 é diferente de tudo o que a humanidade já experimentou e como ela vai mudar vidas e impactar as gerações futuras.
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