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Quinta-Feira, 15 de Novembro de 2018
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O caminho da tuberculose

Incidência da doença é a mesma há 21 anos, profissionais acreditam que o motivo é a atuação ineficiente nos presídios e na rua

Aline Torres
Florianópolis
Rosane Lima/ND
A.O.B. é tuberculoso, não faz tratamento, vive com outras quatro pessoas
A tuberculose é uma doença galopante. Atinge miseráveis, encarcerados e viciados, principalmente. A política de controle da doença nesses grupos é ineficiente. E a sociedade, em geral, não se preocupa com isso. Talvez por que desconheça que a taxa de incidência do bacilo de Koch no Estado é praticamente a mesma há 21 anos – apesar do certificado de eficiência, ofertado por Brasília, esse ano, a Florianópolis. E nessa estatística todos estão incluídos, nem celas, nem mocós contêm o microorganismo que caminha pela cidade, provoca um elevado número de internações e mata.

Em Santa Catarina, 1.730 pessoas têm tuberculose, segundo a Dive (Diretoria de Vigilância Epidemiológica). O governo do Estado garante que o atendimento na rede hospitalar é fácil: se faz exame de escarro, radiografia do tórax e dois comprimidos são receitados. Se agravado o caso há possibilidade de internação. Ano passado, 270 pacientes foram hospitalizados em Florianópolis, com percentual de cura de quase 80%, de acordo com o Ministério da Saúde.

Mas desse contingente, 145 infectados estão detidos no cárcere e 22%, o equivalente a 380 pessoas, são soropositivos. Só nos últimos três anos a dupla TB/HIV matou 213. “A falta de compromisso e prioridade frente ao problema da tuberculose, apesar do alerta do programa estadual de controle da tuberculose, vêm dificultando o controle da doença nas prisões, gerando insegurança e receio para a comunidade”, afirma Nardele Maria Juncks, coordenadora do programa, vinculado à Dive.

Os moradores de rua, que perambulam por ônibus, igrejas e cadeias, estão entre o grupo de risco. Mas não são contabilizados pela Dive. O acesso aos postos de saúde é costumeiramente negado, conta Simone Comerlato, vice-presidente das mulheres soropositivos de Santa Catarina, departamento do Gapa (Grupo de Apoio à Prevenção da Aids). “O sistema de saúde é desumano. O SUS (Sistema Único de Saúde) não atende todos. Quem não tem documento, que comprove residência, não tem direito à saúde. Como exigir isso de quem dorme na calçada?”, questiona.

A incidência da tuberculose em 1990 era de 27,6%. Em 2011, de 27,2%. Isso mostra que apesar das campanhas não houve redução da taxa de contágio. Segundo estudo das profissionais da Dive e do Gapa, o motivo é a bactéria, que se prolifera nas casas prisionais e nas ruas, sem as medidas apropriadas de contenção.

Contradições

 As versões do Deap (Departamento de Administração Prisional) são contraditórias. As informações dos diretores do complexo prisional da Trindade são opostas as do diretor do departamento, Leandro Lima.

 Gabriel Airton da Silveira, que dirige a Penitenciária Masculina de Florianópolis afirma que os oito tuberculosos da instituição compartilham as mesmas celas dos outros detentos, pois estão sendo tratados e não há risco de contágio. Rosane Mara dos Santos, diretora do Presídio Feminino, afirma que não há detentas infectadas. A mesma resposta é recebida do Presídio Masculino.

Entretanto, uma funcionária que não quis se identificar com medo de represália relatou que há um grande número de tuberculosos no Presídio Masculino. Essa também foi a alegação do diretor do Deap. Lima respondeu que não poderia expor a imprensa ao risco de contaminação.

 Não há precisão no número de doentes pelo bacilo de Koch. Os dados repassados à Dive não estão atualizados. E os responsáveis pelo controle nas casas prisionais não são autorizados a repassar o levantamento das pesquisas.

O cárcere 

Cruzes medem o grau de infecção causado pela tuberculose. Rosilda de Souza, 40 anos, atestava a quarta cruz – índice máximo – quando recebeu atendimento médico. Prisioneira do Presídio Feminino de Florianópolis, ela confundia suas dores com pontadas. “No final, tive muita febre, torcia o suor da roupa, tinha muita fraqueza”, conta.

Esses sintomas se estenderam por 15 dias. O tempo que demorou para ser atendida. Estava 10 quilos mais magra. Em nenhum momento foi separada das outras nove companheiras de cela, iluminadas por uma janela com sete palmos de largura.

A coordenadora do programa de controle da tuberculose, Nardele Maria Juncks, explica que a resistência da bactéria “particularmente elevada nas prisões está relacionada ao tratamento irregular e à detenção tardia dos casos”. Segundo o órgão, vinculado à Dive (Diretoria de Vigilância Epidemiológica), há um baixo percentual de cura nestes casos, quase 30% permanecem com a infecção, que embora atinja em primeira instância os pulmões e a laringe, se espalha pelo organismo, afetando ossos, órgãos e as meninges – membranas que envolvem o cérebro.

Outro problema são as transferências dos presos, que facilitam o abandono do tratamento e a transmissão da doença. Entre os detentos tuberculosos, 15% trocaram de casa prisional, segundo a Dive.

O relatório da Comissão de Direitos Humanos e do Conselho Nacional de Justiça, elaborado em 2011, também alerta sobre as más condições de saúde dentro das prisões catarinenses. “Estão em ambientes pequenos, insalubres e de elevada concentração de pessoas, muitas vezes obrigadas a dormir no chão, e inexoravelmente acaba resultando na exposição de todos, especialmente os internos, a doenças”.

A rua

Nivaldo de Souza, 50 anos, é agente do Gapa (Grupo de Apoio à Prevenção da Aids), há 20 anos mora nas ruas da Capital, onde mapeou 300 pessoas, que vivem como ele. “Nas minhas caminhadas vejo minha família com tosse frequente, febre, perdendo peso”, relata.

Nivaldo já teve pneumonia grave. Há um mês, um amigo sentiu fortes pontadas nas costas. Nivaldo ligou para o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência): “vocês não têm vínculo social”, foi a resposta. O jeito foi carregar o companheiro nas costas até o Hospital Nereu Ramos, onde o médico os socorreu.

 A.O.B, 29, também está desabrigada, tem tuberculose, mas interrompeu o tratamento. “Uma moça do posto de saúde, que é minha amiga, me ajudou. Fui atendida e estou bem. Antes parecia uma caveirinha, mas não terminei meu tratamento. Parece que faltam três meses”, conta.

A Vigilância Epidemiológica explica que a interrupção do tratamento fortalece o bacilo e provoca infecções mais agudas, por vezes, assintomáticas e que se espalham pelo corpo. A mulher divide o mocó com outras quatro pessoas. Circula pelo Centro da Capital diariamente. Já esteve presa sete vezes.

 FIQUE POR DENTRO

Números e fatores da doença

 Taxa de incidência da tuberculose em Santa Catarina é praticamente a mesma desde 1990

1.730 catarinenses têm a doença

Em 2011, 270 foram hospitalizadas em Florianópolis com a infecção

Dentro do sistema penitenciário, 145 detentos têm a bactéria

Desses, 15% foram transferidos durante o tratamento

380 são portadores do vírus HIV

A tuberculose unida à Aids matou 213 pessoas nos últimos três anos no Estado

 Disseminação nas prisões

 - Celas superpopulosas, mal ventiladas e com pouca iluminação solar

- Exposição frequente ao agente causador da doença em ambiente confinado

 - Falta de informações sobre a gravidade do problema (população carcerária, agentes prisionais e gestores das unidades prisionais)

- Dificuldade de acesso aos serviços de saúde na prisão (diagnóstico tardio dos casos)

- Falta de profissionais de saúde no sistema prisional

- Transferências frequentes dos doentes em tratamento (dificultando o tratamento até a cura)

- Dificuldade na busca de sintomáticos respiratórios (pessoas com tosse)

- Falta de uma rotina (protocolo) para realização da triagem (bacilocospia e raio X) na entrada e saída dos indivíduos encarcerados (impedindo a entrada de casos novos sem tratamento e/ou a saída sem o encerramento do mesmo)

- Elevado contingente de portadores do HIV, co-infecção TB-HIV, outras infecções crônicas, usuários de drogas e álcool, bem como tabagismo endêmico ativo e passivo e intercâmbio frequente com população de moradores de rua.

 Sintomas

 Tosse com ou sem catarro, por mais de três semanas

Febre baixa, geralmente à tarde

Suor noturno

Falta de apetite

Emagrecimento

Fraqueza

 Recomendações

 Lugares ventilados

Luz solar

Beber água

Não interrompa o tratamento, que pode durar de dois anos a seis meses, dependendo do nível de infecção

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