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Entrevista: professor da UFSC fala sobre os rumos do jornalismo e jornais impressos

O professor de jornalismo da UFSC Rogério Christofoletti, destaca o papel do jornalismo nos dias de hoje e os desafios frente às notícias falsas

Felipe Alves
Florianópolis
12/03/2017 às 20H26

Neste dia 13 de março o jornal Notícias do Dia completa 11 anos no mercado catarinense com foco no jornalismo local e de qualidade. Para comemorar a data, convidamos o professor de jornalismo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Rogério Christofoletti, 45 anos, a refletir sobre os desafios e rumos do jornalismo e também do jornal impresso. Formado em jornalismo pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), Christofoletti é mestre em linguística e doutor em ciências da comunicação pela USP (Universidade de São Paulo). Professor da UFSC desde 2009, ele dá aulas na graduação, mestrado e doutorado, além de ser coordenador do Observatório de Ética Jornalística da UFSC. Nesta entrevista, ele aborda o papel do jornalismo nos dias de hoje, os desafios frente às notícias falsas cada vez mais disseminadas na internet, a importância de cada veículo se posicionar, do crescimento de veículos independentes em Santa Catarina e das discussões sobre regulação e regulamentação da mídia.

 Christofoletti é mestre em linguística e doutor em ciências da comunicação pela USP - Marco Santiago/ND
Christofoletti é mestre em linguística e doutor em ciências da comunicação pela USP - Marco Santiago/ND



 De forma geral, que rumo o jornalismo está tomando?

O jornalismo se consolidou junto às sociedades como algo importante, por que as pessoas precisam de informação para tomar decisões, sejam pequenas ou grandes. Da informação de que filme está em cartaz a informações sobre dinheiro público, políticas públicas, direito do cidadão, entre outros. Acho que essa demanda ainda vai continuar, tudo indica que ainda precisamos do jornalismo de alguma maneira para tomar decisões. Acontece que nas últimas décadas o papel do jornalismo vem reduzindo dentro da sociedade. Antes ele era praticamente único, havia quase que uma exclusividade do jornalismo para fornecer à sociedade alguns tipos de informação. Hoje o cidadão pode recorrer muitas vezes à própria fonte da informção, a um órgão público, a fontes que fazem a mediação disso ou a grupos de cidadãos em redes sociais para obter algum tipo de informção – pode não ser a melhor informação, a mais bem apurada, mas acontece. O futuro é incerto e tem muitos caminhos para o jornalismo. A gente está tentando se reacostumar com isso, por que antes era um caminho mais nítido. Havia um balcão que separava consumidores de informação e produtores. Esse balcão foi para o espaço e a ausência dessa primazia da informação faz com que nós, jornalistas, precisemos nos reacomodar e se reinventar.

 

Se discute muito o futuro do jornalismo impresso. Nos últimos anos, vimos alguns importantes jornais deixarem de circular em papel, como o Jornal do Commercio, Gazeta Mercantil, o Jornal do Brasil e o britânico The Independent. Qual o real valor do jornal impresso hoje na sociedade? Acredita que um dia ele deixe de circular?

Tudo que vamos dizer é de impressão, não conseguimos ver o futuro. Quando surgiram os leitores eletrônicos também pensaram que os livros acabariam. Os números hoje no Brasil mostram que o mercado de livros eletrônicos é pequeno ainda, 5% do consumo. As pessoas continuam comprando muitos livros hoje ainda por diversas razões, que vão desde gosto pessoal, ergonomia, funcionalidade, aversão à questão tecnológcia. A mesma coisa se dá com jornais impressos. A gente vê, sim, as tiragens reduzindo, as receitas publicitárias também reduzindo, mas os jornais já vêm buscando uma transição para o online. Imagino que teremos em um futuro próximo menos títulos de jornais impressos e tiragens mais enxutas, mas eles não devem desaparecer. O valor do jornal impresso é importante, certifica alguns acontecimentos, documenta, é fonte primária de pesquisa para historiadores e alunos. No caso do Brasil a crise dos impressos demorou para chegar. Os americanos, japoneses e britânicos já se queixavam na metade dos anos 1990 da queda e aqui demorou por conta de uma invenção muito engenhosa da Associação Nacional de Jornais de criar os populares de qualidade. Isso estancou um pouco a sangria, mas não está sendo mais suficiente. Então é necessário buscar outra forma para preencher esse espaço.

 

Os meios digitais, mesmo atrelados a veículos tradicionais de imprensa, não são rentáveis. As pessoas não querem pagar pela informação, mas muitos jornais apostam em formas de lucrar como o paywall. Não existe ainda uma fórmula para esse impasse. Como enxerga essa situação?

Não existe fórmula única, quem disser que tem está mentindo. O que a gente vem observando, e talvez seja a única certeza que temos, é de que não há solução única. Antes nós tínhamos uma solução, que era a venda de espaço publicitário, que não era única também, por que se somava com venda de exemplares avulsos e assinaturas. Isso vai continuar, mas é insuficiente. Nós temos hoje paywall, publieditorial, financiamento coletivo para determinados produtos como grandes reportagens e livro-reportagens, temos assinaturas premium e conselhos de leitores associados. Então é preciso buscar composições de receitas. Antes os jornalistas estavam acostumados a apenas executar as pautas, hoje eles são instados também a pensar na sustentabilidade dos produtos. Temos um problema real que foi criado com o advento da internet que é a gratuidade da informação somada à grande oferta da informação. O preço do nosso produto ficou muito baixo, mas os custos não reduziram, em alguns casos até aumentaram, então a conta não fecha. Há um grupo de milhões de pessoas que não quer mais pagar por informação por que ficou mal acostumado. Nós vamos ter que repactuar isso. Por isso que é necessário que quem gosta e precisa de informação da sociedade que assine o jornal da sociedade. Na verdade não tem uma crise do jornalismo, nós temos crises, como a econômica, a do relacionamento com o público, de governança, de transparência e de credibilidade. Temos um problemão para resolver no jornalismo, mas a boa notícia é que o jornalismo sempre viveu à margem das crises, ele se reinventa por que vive em sociedades complexas.

 

Cada vez mais o uso de tecnologias se agrega ao jornalismo, assim como à vida das pessoas. Todo mundo – e qualquer um – difunde informação. A internet e as redes sociais se tornaram um antro de disseminação de mentiras e desinformações. Por que isso acontece e como o jornalismo pode ajudar nisso?

Talvez o que se fale mais hoje no jornalismo é em fake news (notícias falsas) e pós-verdade. Isso é de assustar. Tem um levantamento divulgado há pouco tempo que mostra que em um curto período 5,7 milhões de informações verdadeiras foram distribuídas nas redes sociais contra 7,5 milhões de informações falsas. Isso é muito preocupante. Mas também é um grande momento para o jornalismo, porque crise também é oportunidade, também é uma maneira de perceber onde estão os erros. Esse é o momento do jornalismo mostrar e desmascarar o jornalismo falso e daqueles que querem ocupar o lugar do jornalismo, como sites caça-clíques, sites de propaganda, de assessorias de imprensa que têm propósito de difundir informação falsa. O jornalismo verdadeiro, que quer resgatar credibilidade, chega para separar o joio do trigo e mostrar o que a população quer. Os jornais precisam chegar a isso. Nos últimos anos observamos o surgimento de serviços de checagem de fatos e dados. Isso é primordial para o jornalismo e ajuda a desmascarar as chamadas fake news e uma série de iniciativas que vão plantar notícias. Credibilidade é o maior ativo que um meio jornalístico e que um profissional podem ter. Não tem nada mais importante do que a credibilidade.

 

O termo pós-verdade ganhou popularidade no ano passado. Em síntese, descreve a situação em que, na hora de criar e modelar a opinião pública, os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais. O que esse termo tem a ver com o jornalismo?

Isso é o resultado desse momento que estamos vivendo do império das redes sociais, que acabam formando grandes bolhas sociais. Então, por exemplo, no meu núcleo de amigos estou sempre recebendo informações que tenham a ver com os meus propósitos e no que eu acredito e eu replico essas informações. Isso tem um efeito devastador que é o de criar convicções, muitas vezes equivocadas, e de nos separar da realidade. O jornalismo precisa se posicionar e se contrapor. Não só o jornalismo está preocupado com isso, mas as próprias redes sociais, como Facebook e Google estão organizando forças-tarefas para debelar as falsas notícias por que isso também é ruim para eles, pois mina a credibilidade das redes sociais. Nós estávamos, durante gerações, acostumados a receber informações e acreditávamos que as informações eram confiáveis. Agora a gente duvida. Ótimo. Continuem duvidando e os jornalistas têm que continuar fazendo o melhor jornalismo possível e derrubando notícias falsas.

 

Cada vez mais o jornalismo digital e multimídia ganha espaço. Nos últimos anos, redações, companhias de comunicação e profissionais têm se adaptado para acompanhar a nova realidade. Mas não se descobriu ainda a fórmula ideal que agregue um jornalismo de qualidade e que lucre. Que caminho você vê?

Uma coisa importante nessa relação de sustentabilidade é ouvir mais e verdadeiramente o público. Buscar repactuar as coisas com o público e talvez o público possa sinalizar como ele quer informação. Por que se nós, como produtores de informação, providenciarmos informação do jeito que as pessoas querem, é muito possível que elas queiram pagar por isso.

 

De que forma os jornais podem se aproximar mais dos seus públicos?

Durante muito tempo nós fomos impermeáveis ao público. Nós imaginávamos um público, produzíamos o material e despejávamos ali. Uma situação paternal e vertical, mas isso mudou, e o público muitas vezes pode prescindir da gente e ir atrás da informação. Talvez com muito mais trabalho e menos grau de certeza, mas o fato de reaproximar e horizontalizar essa relação significa ouvir mais o público, ter uma relação mais de conversação nas redes sociais. Há pouco tempo eu orientei um trabalho de mestrado em que o aluno observava os jornais do Brasil e Santa Catarina para ver como os jornais respondiam quando o público apontava erros. De maneira geral ele viu que os jornais respondem ainda muito pouco, não dão satisfação. Parece que o público fica comentando sozinho. Esse é um aspecto, é preciso dialogar mais com o público. Outro é criar estruturas dentro das redações que sejam mais permeáveis aos leitores, que eles possam participar mais.

 

Hoje em dia, a imprensa tem realmente este poder todo, de influir nas opiniões e decisões das pessoas?

Acho que a televisão ainda é muito influente. A pesquisa brasileira de mídia feita pelo Governo Federal mostra que 65% da população vê televisão com uma grande frequência e confia muito na TV brasileira. E a TV aberta brasileira é um conjunto de meia dúzia de emissoras. Imagina o poder que isso tem. Os jornais reduziram um pouco o seu poder, do que tinham nos anos 1950, 1960. Mas ainda são muito importantes por que formam opiniões de classes extremamente influentes, como econômica, política e ideológica no Brasil. O jornalismo ainda tem muita importância na sociedade, mas essa influência está bastante disputada com outros grupos e instâncias de intervenção urbana, como redes sociais, grupos de WhatsApp e o próprio entretenimento.

 

Existia aquela premissa de que o jornalismo deveria ser isento e não tomar partido. Mas hoje o que vemos é cada vez mais os veículos no Brasil tomando partido. O que pensa disso?

Vejo isso de maneira muito positiva. Isso é novidade para a gente, mas não para os franceses, por exemplo. Se você vai para a França você sabe o lado de cada jornal e sabe o que está comprando. Aqui no Brasil tem poucos veículos que você sabe o que está comprando. A revista Caros Amigos, por exemplo, você sabe que é de esquerda, a Carta Capital é mais de centro-esquerda. Então a grande maioria de veículos no Brasil se coloca como isento, mas não é isento. Temos aí um problema de novo com o público que é o problema da falta de transparência. Por isso que eu vejo como positivo quando alguém assume um lado. Alguns autores americanos vêm dizendo que a transparência é a nova objetividade no jornalismo. Quer dizer, quanto mais transparente eu sou, mais posso ser cobrado pelo meu público e mais presto contas a ele. Por que essa coisa de transparência é um clamor geral. O jornalismo sempre exigiu transparência do governo e vêm exigindo das corporações. E o público vem exigindo isso do jornalismo também. Assumir um lado é uma dimensão de ser transparente com o público. Isso pode implicar em riscos do ponto de vista de perder leitores? Pode. Mas o contrário também.

 

O que é ser um jornalistas nos tempos atuais? Existe uma mudança de postura dos jornalistas das décadas passadas para hoje?

Não, a essência é a mesma, claro que hoje é preciso ser mais versátil, pois as exigências cresceram. O jornalista busca informação relevante para a sociedade, se preocupa em apurar com rigor as informações, é alguém comprometido eticamente com o seu público, precisa de rigor, autocrítica, coragem, curiosidade e se interessar por gente.

 

Hoje existe uma ansiedade enorme nas redações para divulgar a notícia primeiro, mesmo sem a apuração completa. O leitor realmente quer esse imediatismo?

Vai depender da informação que estamos falando. Imagine uma informação de tragédia. O leitor tem muita curiosidade, vai recorrer à TV e meios instantâneos, como a internet. No dilema da pressa e da qualidade, a transparência nos ajuda. Precisamos ser transparentes. Por exemplo, chegou a informação de que houve a queda de um avião, nós checamos essa informação e realmente ele caiu em tal lugar. Mas essas são as informações que temos para o momento. O que sabemos é “isso”, e o que não sabemos é “isso” e assim você vai amarrando o seu público em uma cadeia de interesse, muitas vezes para o seu público te ajudar. Você pode engajar o público nessa busca de informações. Às vezes é preciso sacrificar a pressa e chegar depois do concorrente, mas chegar melhor, com um texto mais bem-feito, com menos imperfeições e menos erros.

 

Santa Catarina e Florianópolis não têm jornais expressivos nacionalmente, mas possuem bons produtos locais. Como você analisa o mercado da comunicação aqui?

É um mercado ainda muito fechado, com poucas oportunidades para os profissionais, que tem talentos e potencialidades. Santa Catarina é uma das grandes economias do Brasil. A gente mostra pouco Santa Catarina e Florianópolis para fora daqui. Nos últimos três anos tenho notado o surgimento de vários meios independentes ou alternativos. Isso é muito bom por que fertiliza e ajuda os meios profissionais e os já estabelecidos, por que desacomoda muitos deles. O que esses meios precisam buscar é a maneira de se sustentar. Buscar nichos e operar nesses nichos. É um bom momento de oxigenar a cena. A gente está num bom momento. A nossa mídia aqui padece dos mesmos males da nacional e internacional: enxugamento das redações, crises de sustentabilidade, recursos de receita que não se sabe para onde vão e também buscar formas de se repactuar com os públicos.

 

Muitos jornais têm apostado no jornalismo hiperlocal, apostando na cobertura focada em cidades ou até em bairros. Esse é um dos caminhos?

É um dos caminhos, mas as pessoas não podem se iludir. É preciso ter escala para sustentar. Se você pegar um jornalismo hiperlocal de um bairro, aquele bairro precisa dar sustentação física e editoral, no sentido de produzir notícias a ponto de ter aquilo cotidianamente e ter um público que vai consumir e pagar por aquilo. O mercado tem muitas potencialidade, não é preciso olhar só para as capitais.

 

Há anos se debate no Brasil a questão da regulamentação da mídia. Agora, o assunto está parado. Qual a importância de ter uma mídia regulada? Existe um temor de que isso traga um tipo de censura ou seria a melhor forma de rediscutir concessões e monopólios?

Precisamos regular e regulamentar. Regulamentar é estabelecer regras, como um máximo de emissoras de rádios por pessoa, por exemplo. Regular é colocar as regras em funcionamento, ou seja, observar, ter sistemas punitivos e fiscalizatórios. A questão da regulamentação e da democratização dos meios de comunicação no Brasil é essencial para a democracia brasileira. O Brasil é maior que a Europa, mas tem só meia dúzia de emissoras de TV aberta. Claro que isso contraria interesses econômicos, políticos e culturais. Por que emissoras de rádio e TV muitas vezes são utilizados como palanque eleitoral. Enfrentar isso é enfrentar grandes poderes. Tivemos em 2009 a Confecom (Conferência Nacional de Comunicação), que aprovou 600 teses relacionadas a comunicação no Brasil, mas de lá para cá quase nada foi feito. Tivemos o Marco Civil da Internet, que regulamentou um pedaço, mas ainda faltam outras coisas. A regulação e a regulamentação não podem implicar em censura. Precisamos fazer uma regulação econômica, social e política, no sentido de garantir direito a informação por parte do público, e que não implique em censura. A Inglaterra tinha há até pouco tempo um órgão de autorregulamentação da imprensa, ou seja, os jornais se autorregulamentavam. Ela teve que refazer isso quando ocorreu o escândalo dos grampos do jornal News of the World. Eles também revisaram isso, mas era uma autorregulamentação. É um sistema em que todos participam. Precisamos andar bastante nisso no Brasil, estamos muito atrasados.

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