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Normalidade começa a ser retomada em Santa Catarina após greve de caminhoneiros

Vários setores recomeçaram a voltar à rotina na quarta-feira, mas normalização total demorará dias ou até semanas

Felipe Alves
Florianópolis
30/05/2018 às 20H34

Aos poucos, a normalidade começou a ser retomada em Santa Catarina. Com a retirada de caminhoneiros dos pontos bloqueados nas rodovias do Estado, os caminhões voltaram a circular depois de dez dias de paralisação. A gasolina começou a reaparecer nos postos de combustíveis, os caminhões com alimentos chegaram à Ceasa (Centrais de Abastecimento de Santa Catarina) e supermercados, e o gás de cozinha chega nas distribuidoras. Mas a volta total à normalidade ainda demorará alguns dias ou até semanas.

Abastecimento de gasolina  - Marco Santiago/ND
Os caminhões voltaram a circular depois de dez dias de paralisação - Marco Santiago/ND

Uma projeção da Fecomércio SC (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Santa Catarina) prevê um impacto de R$ 350 milhões de prejuízos ao Estado. A agroindústria, um dos setores mais afetados, retoma aos poucos a normalidade com a chegada de caminhões de todo o Estado e a volta dos abates de forma gradual. Na ponta final, o consumidor deve sentir o impacto no bolso, com produtos com valores superiores a 30% do praticado normalmente.

De acordo com o governador Eduardo Pinho Moreira (PMDB), o comitê de crise do governo do Estado continua vigilante e a união de todos os poderes constituídos e das entidades são fundamentais para retomar todos os serviços. “Todos participaram e mostramos que precisávamos encerrar o movimento, pois  é preciso retomar o crescimento de Santa Catarina. A normalidade está voltando”, disse.

A repercussão econômica nas empresas e no próprio Estado será sentida nas próximas semanas e meses. “Haverá um período de dificuldade que deveremos enfrentar com muita racionalidade e economia”, afirmou o governador. 

O presidente da Fiesc (Federação das Indústrias de Santa Catarina), Glauco José Côrte, que esteve reunido com Pinho Moreira ontem, disse apoiar as medidas do governo para a volta à normalidade. “As medidas vêm sendo tomadas no sentido de proteger as famílias, os cidadãos, restabelecer a ordem e para que o setor produtivo possa voltar a operar normalmente, gerando empregos, receitas, contribuindo para a paz social em Santa Catarina”, afirmou.

 

Abastecimento em SC  -  Airton Fernandes/SECOM/Divulgação ND
Abastecimento em SC - Airton Fernandes/SECOM/Divulgação ND



Nesta quinta-feira, caminhões não chegarão aos postos da Grande Florianópolis

Até a tarde desta quarta-feira (30), a Grande Florianópolis havia recebido 1 milhão de litros de gasolina e cerca de 50% dos postos (mais de 100 estabelecimentos) haviam recebido combustível. Mas segundo o presidente do Sindópolis (Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis Minerais de Florianópolis), Lurran Nascimento de Souza, não há previsão de chegada de novos caminhões nesta quinta-feira (31) nos postos da Grande Florianópolis. “Não temos previsão de caminhão para amanhã (quinta-feira). A tendência é que se normalize, mas não temos previsão. Há a possibilidade de greve na Petrobras, que também pode impactar aqui na região”, afirmou.

De acordo com Souza, a venda nos postos continua sendo limitada a R$ 100 por consumidor e com proibição da comercialização em galões. Essas regras só serão alteradas com a normalização do abastecimento. Até ontem,33 caminhões abasteceram os postos da Grande Florianópolis.

De acordo com o Procon-SC, a gasolina deve ser vendida ao preço praticado antes do início da greve, entre R$ 4,19 e R$ 4,49. Em Florianópolis, alguns postos já começaram a praticar valores maiores.  Segundo o Procon da Capital, o Sindópolis já foi notificado, mas uma nova fiscalização do Procon só começará na segunda-feira (4). Os consumidores que se sentirem lesados devem procurar o Procon com o cupom fiscal e abrir um processo administrativo para solicitar o ressarcimento.

No Estado, Sindipetro (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Santa Catarina), prevê que a normalidade do abastecimento deva ser regularizada em até uma semana.

Alimentos começam a chegar nos mercados e Ceasa

Mesmo com o feriado, supermercados e Ceasa funcionarão normalmente nesta quinta-feira (31) para tentar repor os prejuízos dos dez dias de greve dos caminhoneiros. De acordo com a Acats (Associação Catarinense de Supermercados), com o desbloqueio das rodovias o abastecimento de produtos que estavam em falta nos supermercados começou a ser retomado. Em algumas regiões as redes começaram a movimentar internamente cargas de produtos que estavam estocadas em centros de distribuição, o que agiliza a reposição de algumas categorias de produtos com mais rapidez.

Falta de alimentos em SC  - Flávio Tin/ND
Com o desbloqueio das rodovias o abastecimento de produtos que estavam em falta nos supermercados começou a ser retomado - Flávio Tin/ND


Segundo a Acats, os maiores problemas são frutas, legumes e verduras, leite UHT, pães industrializados, derivados do leite em geral e outros itens perecíveis lácteos. O gás de cozinha, um problema em todo o Estado, começou a chegar nas distribuidoras nesta quarta-feira à tarde.

Na Ceasa, ainda faltam limão, mamão, melão e abacaxi. De acordo com o diretor-técnico da Ceasa, Albanez Souza de Sá, até a tarde desta quarta-feira, os produtores estavam reabastecidos com 80% de mercadorias, mas os donos de boxes dentro da Ceasa encontravam mais dificuldade, e apenas 30% estavam com mercadorias. Segundo Albanez, é difícil prever quando tudo estará 100%, mas a expectativa é que até segunda-feira (4) a normalidade seja retomada, apesar de que muitas mercadorias perecíveis terão que ser descartadas.

Impacto de R$ 350 milhões na economia catarinense

De acordo com pesquisa feita pela Fecomércio SC, a paralisação dos caminhoneiros afetou quase 80% dos empresários do Estado e teve um impacto financeiro de R$ 350 milhões. As perdas foram estimadas em -32,4% no setor de comércio, serviços e turismo. Os impactos foram mais significativos no setor de hotéis (-86%) e atacado (-41,4%).

Em 40,8% das empresas as mercadorias ou insumos encomendados não chegaram ao destino. Os segmentos mais afetados foram os postos de gasolina, onde 90% do combustível não chegou, seguido pelo segmento de material de construção, que deixou de receber 70% dos produtos, e o transporte intermunicipal (67,5%), também impactado pela falta de insumos.

Entre as medidas encontradas para contornar o desabastecimento, os empresários catarinenses optaram por adiantar folgas de empregados, buscar insumos diretamente na distribuidora, estabelecer limite de compras para clientes e reduzir horários de atendimentos.

Agroindústria é um dos setores mais prejudicados

As grandes indústrias instaladas no Estado voltaram ontem a abater suínos e aves e a tendência é de que nos próximos dias a agroindústria volte à normalidade.  A Cooperativa Central Aurora, a BRF Brasil, a JBS e a Pamplona têm plantas em pleno funcionamento em Santa Catarina e devem retomar o ritmo normal progressivamente, de acordo com a capacidade de estocagem. De acordo com o secretário de Estado da Agricultura e da Pesca, Airton Spies, essa notícia traz uma tranquilidade maior ao setor e evita o sacrifício sanitário de animais pela falta de alimentos.

Com 36,84% das empresas da agroindústria e agricultores com atividades paradas de acordo com pesquisa da Fiesc, a diretoria da Fetaesc (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Santa Catarina) avalia que a conta dos prejuízos será paga tanto por quem produz quanto por quem consome os produtos. Em média, os consumidores já estão pagando 35% a mais do que o normal e a tendência é aumentar, segundo a Fetaesc. Na agricultura, os impactos vão desde o aumento abusivo no preço dos alimentos e a falta de produtos a desperdícios de produção, perda e falta de alimentos para os animais.

De acordo com a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), com menor oferta de produtos, mas com a mesma carga tributária, mesmo custo operacional e possível alta nos insumos para a produção industrial, ficará mais caro produzir.  Estima-se que os custos para a recuperação da normalidade do processo deverão ser 30% acima do anteriormente praticado.

As grandes agroindústrias como a Aurora Alimentos, e o setor madereiro projetam os números da cidade - Aurora/Divulgação/ND
 A tendência é de que nos próximos dias a agroindústria volte à normalidade - Aurora/Divulgação/ND



Polícia Civil atua para identificar quem pratica ilegalidades

Integrada com outras forças de segurança, a polícia civil de Santa Catarina está com duas frentes de atuação. O Saer (Serviço Aeropolicial) e equipes em terra estão prestando apoio no deslocamento de produtos considerados essenciais à população, enquanto que a polícia civil trabalha para identificar e responsabilizar todos que estão praticando atos de ilegalidade nos pontos onde estão concentrados os manifestantes.

O delegado-geral da Polícia Civil, Marcos Ghizoni Júnior, disse que o movimento dos caminhoneiros começou de forma ordeira e transbordou para a ilegalidade. “Há inúmeras pessoas já identificadas que serão responsabilizadas perante a Justiça pelos crimes que cometeram”, afirmou o delegado ao citar a situação que aconteceu em Imbituba na noite de terça-feira. Um veículo foi atingido por uma pedra e uma criança, que se encontrava no banco traseiro, quase foi atingida. “A Polícia Civil não admite essas atitudes e vai atuar fortemente para responsabilização criminal de quem as cometeu”, ressaltou.

Liminar garante desobstrução de vias em todo Estado

A partir de uma ação civil pública do MP-SC (Ministério Público de Santa Catarina), o juiz Fernando de Castro Faria, da 2ª Vara da Fazenda da Capital, concedeu na manhã desta quarta-feira (30) o pedido de liminar (tutela de urgência) para determinar que todos os envolvidos na paralisação dos caminhoneiros se abstenham de impedir, obstaculizar ou dificultar a locomoção de pessoas e veículos em qualquer via pública do território catarinense. A multa diária é de R$ 100 mil às pessoas jurídicas e de R$ 5 mil às pessoas físicas.

A ação é contra a ABCam (Associação Brasileira dos Caminhoneiros), a Confederação Nacional dos Transportes Autônomos, a Unicam (União Nacional dos Caminhoneiros) e aos demais integrantes de movimentos não identificados e pessoas não identificadas. O magistrado havia determinado também que o uso da força policial fosse usado como último recurso e somente após duas horas de negociações com os manifestantes.

Na tarde desta quarta-feira, o MP-SC protocolou uma petição apontando a localização dos pontos em que ainda persistem obstáculos e impedimentos nas rodovias estaduais e federais em Santa Catarina para cumprimento da medida liminar concedida para garantir o livre exercício do direito de ir e vir.

Em sua decisão, o magistrado reconheceu a legitimidade do movimento dos caminhoneiros em diversos pontos. “O que se vê daqui para frente, a persistir o movimento, vitorioso, insista-se no ponto, é um quadro caótico não desejado. As manifestações são bem-vindas, mas a mais contundente deve ocorrer nas urnas, e estamos a poucos meses desse novo encontro, na esperança de um consenso mínimo que impeça o caminhar do país em direção ao caos e a buscas por soluções milagrosas, que não acontecerão”, assinalou.

A organização das operações do Estado, a partir da liminar da Justiça, foi articulada entre os representantes da segurança pública e do Ministério Público, em reunião na manhã desta quarta-feira, no Cigerd (Centro Integrado de Gerenciamento de Riscos e Desastres). Conforme o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Araújo Gomes, “a ordem judicial é oportuna e fortalece a ação do Estado”. Ele observa que a ação operacional em diversos pontos no Estado contará com união de todas as forças de segurança.

 

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