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Sábado, 27 de Maio de 2017
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Multinacional contratada pela Casan conclui estudos para emissário de esgoto em alto-mar

Três pontos foram mapeados no Norte da para análises oceanográficas que indicam melhores especificações para obra

Edson Rosa
Florianópolis

O primeiro emissário submarino de Florianópolis para despejo de esgoto em alto-mar, que só nos estudos iniciais custou R$ 1,7 milhão, será anunciado ainda neste primeiro semestre. E será no Norte da Ilha. Apontado como a solução para salvar o que resta das baías e dos riachos que nelas desembocam, o projeto está entre as prioridades, mas não faz parte das ações emergenciais planejadas para os dois próximos anos pela Casan (Companhia Catarinense de Água e Saneamento) depois que a “crise do rio do Brás” trouxe à tona a ineficiência do atual sistema de coleta e tratamento.

Daniel Queiroz/ND
Dispensa de tratamento terciário e despoluição das baías e bacias hidrográficas são vantagens do emissário submarino, diz Trevisan


Resultado de ano e meio de pesquisas oceanográficas da multinacional CB&I (Chicago Bridge and Iron Company) em diferentes pontos e profundidades, a proposta é apontada como a solução mais viável para a cidade nos próximos 60 anos.

Foram instalados equipamentos de sondagens subaquáticas para estudos de alternativas nas enseadas de Canasvieiras, Ingleses e ao largo de Moçambique, com levantamento minucioso do comportamento dos três tipos de ambientes marinhos, inclusive da fauna, em diferentes períodos do ano e variações climáticas.

A intenção, segundo o oceanógrafo Rodrigo Barletta, da CB&I, é estabelecer alternativas de emissão e dispersão em alto-mar e aliviar a carga de efluentes com e sem tratamento despejados atualmente nos já contaminados rios da Ilha.

Análise ambiental, econômica e social

“Mas, antes é preciso conhecer a natureza em volta, as correntes marinhas, o comportamento das ondas, o nível médio do mar e das marés, a influência dos ventos e todas as variantes climáticas”, diz. Nas águas protegidas da enseada entre Canasvieiras e Jurerê, os estudos se concentraram a profundidade de oito metros.

Lá, segundo as análises preliminares, o lançamento dos efluentes exigiria tratamento mais eficiente em terra. Os dois outros equipamentos estão a leste do primeiro, um deles no ponto de transição entre a baía e o mar aberto, a 20 metros de fundura, entre Praia Brava e Ingleses. Por último, foi feito diagnóstico do ambiente oceânico de Moçambique, 30 metros abaixo, onde, teoricamente, há melhores condições de dispersão e diluição de efluentes.

Com encerramento previsto para abril, a definição do modelo hidrodinâmico da região costeira e oceânica inclui o entorno das três unidades federais de conservação ambiental localizadas na região – Área de Proteção Ambiental de Anhatomirim, na baía dos Golfinhos; Estação Ecológica de Carijós, no estuário da baía Norte; e Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, a 15 quilômetros da costa.

Também foram considerados os eventuais impactos sociais e econômicos, como perfil das comunidades do entorno, atividades de turismo, mergulho, navegação, pesca e maricultura. Paralelamente, a qualidade da água e dos sedimentos de fundo é monitorada em outros 15 pontos, na superfície, no meio e no fundo.

Outra parte do estudo definiu o modelo matemático hidrodinâmico, simulando as condições marinhas para elencar as melhores alternativas ao emissário. “No primeiro filtro, ficaram 42 alternativas em diferentes locais e sistemas diferenciados de tratamento. Por eliminação, restaram três opções, levando em conta eficiência técnica, qualidade ambiental e viabilidade econômica”, explica o engenheiro químico Alexandre Trevisan.

Entre as vantagens dos emissários em mar aberto, ele destaca a dispensa de tratamento terciário (com 98% de pureza nos efluentes despejados) e a despoluição das baías e bacias hidrográficas. Entre os aspectos negativos, Trevisan aponta o alto custo, a indisponibilidade tecnológica e a resistência cultural.

O dinheiro, segundo ele, pode ser captado em agências internacionais, enquanto a construção certamente seria assumida por grupo de empresas com experiência em projetos semelhantes. Para romper eventuais reações comunitárias, será produzido audiovisual com apresentação detalhada e didática do projeto.

A apresentação oficial do trabalho coordenado pelo oceanógrafo Rodrigo Barletta, da CB&I deve ocorrer somente entre maio e junho, mas na Casan o emissário para o Norte da Ilha já é considerado realidade. “Os estudos já estão prontos, são o começo de tudo, a base do EIA-Rima e da captação dos recursos necessários”, diz Trevisan.

Grupo avalia e aprova proposta

A proposta até já foi debatida por grupo de 50 pessoas ligadas aos setores públicos e privados, em debate organizado pelo advogado Ernesto São Thiago, especializado em direito de orla. “É a única solução, a mais viável”, diz o advogado, que aponta os emissários como equipamentos com eficiência comprovada mundialmente quando bem projetados e executados.

“Preservam a vida marinha, as atividades pesqueiras, a maricultura, a balneabilidade, os aquíferos e o meio ambiente em terra. É, sem dúvida, um avanço para a saúde pública”, acrescenta. Outra proposta sugerida como solução para a falta de saneamento básico na Ilha, o tratamento descentralizado, mostrou-se inviável tecnicamente.

Este modelo, segundo Ernesto São Thiago, teria condições de atender a apenas 20% da população da cidade pela impossibilidade ambiental de licenciamento de todas as pequenas estações de tratamento necessárias.

Além de maior parte do território da cidade ser formado por APPs (Áreas de Preservação Permanente), nenhum dos cursos d’água tem dimensões suficientes para receber os efluentes das estações de tratamento. Exemplos disso são as atuais condições ambientais dos rios do Brás e Papaquara, em Canasvieiras e Capivari, em Ingleses, responsáveis pela falta de balneabilidade nas duas praias mais movimentadas do Norte da Ilha.

Campeche é opção para efluentes do Sul da Ilha

No Sul da ilha, a previsão para entrega do EIA-Rima (Relatório dos Estudos de Impactos Ambientais) na Fatma é setembro. O emissário submarino também é apontada como a alternativa mais viável para a região, que tem rede de coleta instalada parcialmente apenas nas principais ruas do Campeche e no trecho do Alto Ribeirão da rodovia Baldicero Filomeno.

A estação de tratamento, no Rio Tavares, está embargada desde as obras de terraplenagem, em 2013. Lá, só nos estudos preliminares de impactos ambientais foram gastos R$ 1,4 milhão. O despejo dos efluentes tratados em estação de nível secundário seria em alto-mar, a cinco quilômetros ao largo da ilha do Campeche, em profundidade média de 40 metros e forte influência das correntes marinhas do Sul. A hipótese do emissário para o Sul ganhou força entre técnicos da Casan em 2014.

Na ocasião, a Jica (Agência de Cooperação Internacional do Japão) já dava sinais de que suspenderia o financiamento de R$ 105 milhões para rede de coleta em sete bairros e despejo dos efluentes na baía sul, em área da Reserva Extrativista do Pirajubaé.

O emissário do Campeche recebeu parecer favorável também do ICMbio (Instituto Chico Mendes da Biodiversidade), que administra a reserva extrativista em gestão compartilhada com a Associação Caminhos do Berbigão.

Para técnicos do Instituto que conhecem de perto a fragilidade daquele ecossistema, levar os efluentes para o mar aberto seria a solução ambiental mais efetiva para salvar a frágil bacia do rio Tavares e o estuário da baía Sul.

Arte/ Zambi/ Rogério Moreira Jr.
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