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Morre Victor Fontana, ex-vice-governador de Santa Catarina

O corpo do político será cremado em São Paulo em cerimônia íntima para amigos e familiares

Redação ND
Florianópolis
05/12/2017 às 20H01

Em agosto de 2014, duas semanas após o 98º aniversário, Victor Fontana recebeu a reportagem do Notícias do Dia em seu escritório, em Florianópolis, e foi logo informando que estava prestes a completar 88 anos no batente. Ainda na ativa, ele resumiu, em duas horas de conversa, a rica trajetória que começou aos 11 anos de idade como caixeiro de bolicho (palavra que denomina bar ou venda no interior gaúcho) e falou de fatos marcantes da carreira, de episódios políticos relevantes e das principais funções que desempenhou em Santa Catarina e fora dela. Diretor técnico da Sadia durante décadas, ele é considerado responsável por uma grande revolução no agronegócio brasileiro. Foi vice-governador do Estado, secretário da Agricultura e deputado federal constituinte. 

Victor Fontana revolucionou o agronegócio em Santa Catarina e no Brasil - Marco Santiago/Arquivo/ND
Victor Fontana revolucionou o agronegócio em Santa Catarina e no Brasil - Marco Santiago/Arquivo/ND



Na madrugada dessa terça-feira, aos 101 anos, Fontana morreu no Hospital Moriah, em São Paulo, onde estava internado desde 15 de novembro. De acordo com a mulher, Lia Fontana, seu corpo será cremado em São Paulo, em cerimônia restrita a familiares e amigos. O governador Raimundo Colombo (PSD) lamentou a morte do ex-vice-governador e decretou luto oficial de três dias no Estado. “Victor Fontana foi um dos grandes líderes da transformação agrícola e do agronegócio do nosso Estado”, afirmou Colombo. “Mas ele também foi um líder político e um brasileiro que mudou e contribuiu para melhorar a vida de muitos, de um Estado e de um país. Foi um grande cidadão, um homem à frente de seu tempo. Ele merece todas as nossas homenagens”.

Também o presidente da Fiesc (Federação das Indústrias do Estado), Glauco José Côrte, falou do empresário e homem público que ajudou a aprimorar e expandir a agroindústria de Santa Catarina. “A busca do conhecimento e a pesquisa colocaram a agroindústria catarinense no patamar mais avançado do segmento no mundo”, afirmou Côrte. “Por isso, o legado de Victor Fontana pode ser visto nos milhares de empregos gerados pelo segmento e na presença de produtos catarinenses nos supermercados de todo o mundo”, disse.

Do agronegócio a governo do Estado 

Nascido em Santa Maria (RS) e órfão de pai aos seis anos, aos 14 Victor já era telegrafista da estrada de ferro que cortava o Estado rumo à fronteira, em Uruguaiana. Quando foi transferido de Alegrete para Porto Alegre, começou a estudar regularmente e fez o curso de engenharia química, que abriria as portas para a Sadia, criada pelo tio Attilio Fontana em Concórdia, no Alto Uruguai catarinense. A empresa era pequena e sem ambições, mas com seu trabalho (na função de diretor técnico, a partir de 1948) se transformou numa potência com unidades produtivas em vários Estados brasileiros.

Na Sadia, Victor contratou um veterinário, ensinou novas técnicas aos agricultores e usou reprodutores de raças selecionadas, além de chamar engenheiros agrônomos para trabalhar na associação rural de Concórdia, criada por ele próprio.

Como o tio Attilio fora vice-governador na gestão de Colombo Salles (1971-1975), entrar na política foi um caminho natural para Victor. Como secretário da Agricultura de Antônio Carlos Konder Reis, ele estendeu a assistência técnica a todos os municípios, importou gado leiteiro de raça e trouxe dinheiro de Brasília para melhorar o desempenho do agronegócio em Santa Catarina. Depois, foi deputado federal, vice de Esperidião Amin, deputado constituinte e conselheiro da República no governo de Fernando Collor de Mello. Deixa três filhos, seis netos e dois bisnetos.

Trajetória de Fontana 

Vida profissional

  • Trabalhador na lavoura, balconista, telegrafista, estivador, auxiliar de laboratório, químico analista, bacteriologista
  • Gerente de produção industrial, diretor-gerente e diretor vice-presidente e executivo da Sadia
  • Diretor superintendente e vice-presidente do Moinho da Lapa (SP)
  • Diretor industrial do frigorífico Pioneiro (PR)
  • Diretor industrial da Sadia Oeste (MT)
  • Membro do conselho administrativo da Sadia até 1993

Vida política

  • Secretário da Agricultura de Santa Catarina
  • Deputado federal (1979-1982)
  • Vice-governador de Santa Catarina (1983-1986)
  • Deputado federal constituinte (1987-1990)
  • Presidente da Celesc
  • Conselheiro da República (1989-1992)
  • Presidente do Besc 

Frases extraídas de reportagem publicada pelo ND em 3 de agosto de 2014

O HOMEM

“Fui incumbido de entregar um telegrama para a irmã do governador [general José Antonio Flores da Cunha, presidente da província do Rio Grande], Sinhá Flores da Cunha. Bati na porta do hotel, ela atendeu e mandou ler o texto. Aproveitei para contar minha história, que incluía a perda do pai quando eu tinha seis anos e ele, 27. Dona Sinhá pediu que eu pegasse papel e lápis e ditou um telegrama mandando o diretor da estação me transferir de Alegrete para a Capital [Porto Alegre]. E disse que me mandaria capar se eu não estudasse, para não colocar cria ruim no mundo.”

O POLÍTICO

“O faro é a alma da fera, os olhos são as armas da ave, a som é a arma dos animais aquáticos, e a palavra é a arma do homem. A palavra constrói e destrói. Por isso, aprendi que se deve ouvir mais e falar menos. O papel do político é atuar em benefício de todos. Ele deve conhecer e sentir as aspirações e necessidades das pessoas.”

O EMPRESÁRIO

“Na avicultura, fomos pioneiros no país. Fomos aos Estados Unidos para conhecer o sistema de integração. Numa granja de miniprodução, matamos seis frangos no primeiro dia. Quando chegamos a cem unidades diárias, Attilio [Fontana, seu tio, pioneiro do agronegócio no Oeste catarinense] recomendou cuidado, por achar que não teria mercado. Na época, se pensava que carne de frango era só para grávidas ou parturientes.”

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