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Quarta-Feira, 19 de Setembro de 2018
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Moradores do entorno não acreditam mais em reforma e reabertura da ponte Hercílio Luz, na Capital

Quem mora embaixo ou ao lado do cartão-postal de Florianópolis sabe bem que a realidade está distante das promessas repetidas do governo

Edson Rosa
Florianópolis
Eduardo Valente/ND
Mariléia Ribeiro tem a ponte Hercílio Luz praticamente no quintal de casa


Mais uma vez adiada, a retomada da reforma na ponte Hercílio Luz é encarada com ironia por quem mora ao lado ou embaixo dela e vê de perto, dia após dia, a deterioração não só do velho cartão-postal, mas, principalmente, do primeiro ícone da mobilidade urbana entre Ilha e Continente, monumento da engenharia fundamental para a travessia do canal do Estreito desde as décadas iniciais do século 20. Ferros retorcidos, madeiras apodrecidas, andaimes despencados ao lado de pilares enferrujados e o depósito do canteiro de obras abandonado, ontem guardado apenas por dois cachorros vira-latas, formam um cenário desalentador para quem acorda de manhã e abre a janela só para ver se a ponte ainda está lá.

É o caso da viúva Mariléia Ribeiro, 57 anos, neta de João Ribeiro, um dos capatazes contratados pelas empresas norte-americanas Byngton e Sundstrom, entre 1922 e 26, para a construção da ponte. Da sacada da casa dela, na servidão Dona Floriana, ao lado da cabeceira continental e do galpão utilizado pelas sucessivas empreiteiras contratadas pelo governo do Estado e vêm se revezando na reforma interminável, Mariléia ainda tem vista privilegiada do vão central e de parte da área insular da cidade.

A beleza que resta ainda agrada aos olhos, mas a vantagem de ter a ponte praticamente no quintal de casa, já a fez ouvir diagnósticos comprometedores sobre a segurança da estrutura metálica. “Mais de um engenheiro já comentou que não tem solução, que a saída para evitar a queda é o desmonte, a demolição do que restou”, garante Mariléia, que evita o quanto pode atravessar ao outro lado da cidade. “Só vou à Ilha uma vez por ano, para o recadastramento de minha  pensão na Polícia Militar”, diz.

A reclusão no Estreito tem uma explicação óbvia, e na ponta da língua. “Tenho pavor do trânsito, de atravessar as pontes [Pedro Ivo e Colombo Salles]”, emenda.  Para evitar estresse, ela tenta manter a rotina no Continente mesmo, até vai à praia, e classifica a indefinição como brincadeira de mau gosto. “É uma fonte de dinheiro fácil”, diz. 

Ceticismo contagia vizinhança

Vizinho de Mariléia Ribeiro na servidão Dona Floriana, o policial militar aposentado e pescador amador Murilo Ricardo, 50, também vê a reabertura da velha ponte do Estreito como uma das lendas urbanas que se perpetuam em Florianópolis. Cansado de ouvir promessas de governo, ele teme a queda da estrutura metálica e as consequências nas casas e prédios do entorno e das embarcações que navegam pelo canal do Estreito.

“Não quero nem pensar”,  diz, enquanto aproveita a companhia dos colegas Pedro Paulo Berber, 50, e Manoel Ribeiro, 60, para remendar redes em trapiche improvisado de madeira podre, embaixo da cabeceira continental. “Precisamos de uma estrutura nova. Não só para pescar, mas também para atender os turistas que param para tirar fotos da ponte, principalmente à noite”, reivindica.

O ceticismo deles é compartilhado pelo pedreiro Luciano Lúcio da Silva, 49, que mora na casa onde até 2009 funcionou o Kantum, um dos bares mais tradicionais do Estreito. Cercado pelo tapume que isola o canteiro de obras da cabeceira continental e transformou o acesso em beco, ele chama atenção para a insegurança. E falta de espaço para estacionamento dos veículos dos moradores da servidão Dona Floriana e arredores. “Sem contar os turistas, que voltam decepcionados”, diz Silva, que há 25 anos vê o maior patrimônio da cidade virar ruínas. “Felizmente, daqui dá para ver, também, que cada dia nasce diferente do outro”, observa sorridente.

 

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