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Sexta-Feira, 16 de Novembro de 2018
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Morador mais antigo da Lagoa da Conceição completa 100 anos

Pescador Acelino Medeiros é o último curandeiro da velha freguesia

Edson Rosa
Florianópolis

Menino curioso, Acelino Medeiros aprendeu cedo os segredos das plantas medicinais. Tinha pouco mais de oito anos quando saiu pela primeira vez restinga afora, pela orla ainda virgem da lagoa, em busca do conhecimento que não veio dos livros e, mais tarde, cresceu ao lado de hortaliças e temperos no quintal de casa. Ali, onde a velha freguesia foi soterrada pelo bairro mais charmoso da cidade, aos 100 anos o velho curandeiro caminha com dificuldades e observa a mulher, Maria Francisca, 93, cultivar os remédios que, quando requisitado, eram distribuídos a parentes e amigos mais próximos. A única condição imposta por ele era que ervas, folhas e raízes fossem colhidas apenas durante o dia.

 

Marco Santiago/ND
A festa para Acelino será no sábado (16), às 15h

 

“À noite, as plantas estão dormindo, e não se deve cortá-las enquanto estão no repouso. Só durante o dia elas fazem efeito curativo”, ensina Acelino, que da janela olha o quintal com mudas do boldo, penicilina, malva e outras espécies medicinais.  Na véspera do grande dia, o velho pescador estava ansioso para ver o que filhos e netos lhe prepararam para comemorar o centenário de vida.  A festa será neste sábado, a partir das 15h, no salão da SAL (Sociedade Amigos da Lagoa), onde será servido café colonial para pelo menos 350 pessoas.

 “Acho que vai ser uma festa bonita, com muitos amigos de antigamente, os filhos, netos e bisnetos”, diz. Morador mais antigo da Lagoa, Acelino Medeiros nunca fez inimigos, “nem na política”, como faz questão de ressaltar. “Sou homem de amizade, nunca gostei confusão, e foi isso que ensinei aos meus filhos”, diz.

 Saudade ele sente quando fala das prainhas da orla da lagoa, dos portinhos naturais para  pequenas e médias canoas movidas a remo e vela que atravessavam a imensidão de água carregadas com melancias, sacos de amendoim e fardos de mandioca e feijão cultivados nas areias do Rio Tavares e Campeche. “As embarcações navegavam até onde hoje é da pracinha, e voltavam abarrotadas de peixes e camarões”, recorda.

 

Da pescaria farta aos primeiros carros

As transformações da Lagoa não passaram despercebidas aos olhos atentos do velho pescador. Parceiro dos irmãos Damião e Andrino Oliveira, primeiros comerciantes e empreendedores da antiga Freguesia, Acelino testemunhou, por exemplo, a abertura da estrada no morro e a construção da avenida das Rendeiras, entre o atual centrinho e o Retiro e, mais tarde, na década de 1970, a chegada da luz elétrica. Antes, puxou rede em arrastões com até 40 mil tainhas amontoadas na orla.

“A fartura de peixe e camarão era coisa bonita de se ver”, diz. E sorri ao relembrar dos varais estendidos nos quintais das casas com tainhas escaladas dependuradas com embira [fibras secas do caule] de bananeira. O camarão branco, também abundante na lagoa da época, era desidratado e seco em eiras espalhadas pela orla.

Acelino também estava na pracinha, a atual Bento Silvério, quando Silvio Oliveira, sobrinho de Andrino, chegou com o primeiro “carro de praça” e inaugurou o ponto ainda hoje utilizado por taxistas. Um dos melhores amigos de Damião, o fundador do restaurante Oliveira, Acelino o acompanhava nas viagens diárias para transportar mercadorias e passageiros até o Centro.

Também pescador, Damião Oliveira foi o dono da primeira caminhonete de fretes e, mais tarde, transporte de passageiros. “Não era fácil subir p morro das Sete Voltas, ainda mais nos dias de chuva”, conta Acelino, que costumava ajudar o amigo Damião a amarrar correntes nos pneus do veículo para facilitar a tração.

“Às vezes, eu ficava na frente, perto de uma das rodas da frente, para fazer força ao contrário e evitar a derrapagem na lama”, acrescenta. Antes dos carros de Damião e Silvio, era longa a caminhada da Lagoa até o outro lado do morro, no ponto final do ônibus do Itacorubi. Atualmente, Acelino sai pouco de casa e nunca esteve no Tilag (Terminal de Integração da Lagoa), batizado em homenagem ao amigo Damião Oliveira.

 

Histórias renovadas na memória

Sempre que pode, a comerciante Caroline de Medeiros Schelbauer, 37, uma das netas, dá uma escapada para filar o café da tarde de dona Francisca e, é claro, ouvir novas e velhas histórias contadas pelo avô Acelino. É quando a memória do pescador surpreende, com lembranças da própria juventude, quando os fornos das caieiras fumegavam em direção à Ponta das Almas.

“É um momento único, mesmo que seja repetido quase todos os dias. É uma benção ainda ouvir as histórias que ele tem para contar”, diz, emocionada. Para Carol, é motivo de orgulho ser fruto de uma relação baseada na amizade, na cumplicidade e no amor e no respeito. “A gente percebe de longe o carinho de um pelo outro, é muito bonito. Eles se completam”, emenda.

Marco Santiago/ND
Família vai comemorar a data especial ao lado de Acelino

 

Entre as histórias contadas por Acelino, uma das mais curiosas é a origem do nome Canto dos Araçás, comunidade no caminho entre a antiga freguesia e a Costa da Lagoa. “Os pés de araçá existiam lá na outro lado, lá no caminho do Retiro. Quem morava aqui atravessava de canoa para ir comer as frutinhas, e era chamado de turma do araçá pelas pessoas que moravam lá. Assim surgiu o nome”, diz.

Casados há 74 anos, Acelino e Maria Francisca têm outros 22 netos e 19 bisnetos. Foram nove filhos, seis homens, um deles falecido (José Angelo) e três mulheres. Eles fazem as honras da casa neste sábado à tarde, na sede da SAL (Sociedade Amigos da Lagoa) para o reencontro da família e festejar com os amigos mais próximos o centenário do patriarca Acelino. 

Carolina lembra que não foi possível convidar  todas os nomes incluídos na lista inicial, feita pelo próprio Acelino, mas agradece a todas as felicitações recebidas nos últimos dias pela família. “Se dependesse dele, a festa teria pelo menos 1.500 pessoas”, sorri.

 

Família Medeiros

Acelino e Maria Francisca

Nove filhos: José Angelo (falecido) Ademar, Silvio, Valdir, Mário, Cesar, Bernadete, Terezinha e Maria das Dores.

23 netos

19 bisnetos

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