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Marco turístico de Florianópolis, a história da figueira da praça 15 tem muitas versões

Frondosa árvore teria sido plantada em frente à Catedral e depois transposta para a praça 15 de Novembro

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
03/02/2017 às 22H28
Uma das versões diz que a figueira veio do Rio de Janeiro; outra, que sua copa ocultava o cortejo a uma dama no outro lado da praça - Flávio Tin/ND
Uma das versões diz que a figueira veio do Rio de Janeiro; outra, que sua copa ocultava o cortejo a uma dama no outro lado da praça - Flávio Tin/ND


Nestes dias de sol entrecortado por nuvens e de praias contaminadas pela água das chuvas, é comum ver turistas, sozinhos ou com guias, circulando ao redor da figueira da praça 15 de Novembro, fazendo fotos e comentários sobre esse portentoso ícone de Florianópolis. Contudo, a maioria dos visitantes, assim como muitos nativos, desconhece a história da árvore que está na letra do hino da cidade e que não nega, independente da época do ano, sombra e frescor a todos os que a procuram, sem distinções de cor, credo e da grife costurada nas roupas que usam.

Há discrepâncias acerca de datas e da origem da figueira mais que centenária. Ela teria sido plantada em frente à Catedral em 1871, e duas décadas depois foi transferida para o ponto mais central da praça, que ainda atendia pelo nome de Barão de Laguna. Uma das versões dá conta de que ela veio do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, junto com as palmeiras reais que ainda existem na praça, perto do monumento em homenagem aos catarinenses mortos na Guerra do Paraguai. O pesquisador Gilberto Gerlach lembra de ter encontrado uma foto de baixa qualidade em que a figueira aparecia perto de onde ficam, hoje, as mesas dos jogadores de xadrez, baralho e dominó.

A transferência também é pretexto para diferentes leituras. O historiador Nereu do Vale Pereira afirma que a figueira mudou de lugar pela necessidade de construir uma escadaria maior no acesso à Catedral. Versões de tom mais folclórico asseguram que ela foi arrancada porque atrapalhava a visão de um presidente de província que tinha dificuldades de enxergar, por causa da copa, uma dama que cortejava no outro lado da praça.

No livro “Praça XV – Onde tudo acontece”, o pesquisador Cesar do Canto Machado reproduz o trecho de uma crônica publicada na segunda metade do século passado por Álvaro Tolentino de Carvalho, que assim relatou: “Foi uma manhã de verão... do mês de fevereiro de 1891 que a jovem figueira, contanto talvez seus 20 anos, foi retirada da Matriz para o lugar em que até hoje tem vivido. O Comendador José Maria dos Santos Carneiro Júnior (...) mandou abrir uma grande fossa, com a circunferência talvez de vinte metros, para nova residência da jovem figueira, sem que lhe fossem sacrificadas as suas raízes. O transporte foi em carretão baixo, puxado por suas juntas de boi. A árvore, plantada, ali ficou, decepada pela poda, até que novos rebentos ou brotos a vigorassem, tornando-se em poucos anos a rainha do jardim”.

Em relação aos arroubos do presidente da província, escreveu Canto Machado: “Conta-se até – por certo a título de conversa fiada – haver um governador, solteirão, mandado arrancar uma das árvores, por demasiado alta e por prejudicar sua visão, a partir do palácio, na direção de senhoritas de sua predileção, moradoras do lado aposto, perto da igreja”.

A figueira teria sido plantada em frente à Catedral e depois transferida - Daniel Queiroz/ND
A figueira teria sido plantada em frente à Catedral e depois transferida - Daniel Queiroz/ND


Após longos períodos em que teve sapos e mosquitos como moradores, a praça 15 de Novembro foi cercada de gradis fundidos na Inglaterra e, como tal, teria se prestado a separar pessoas de distintas classes sociais em torno de um século atrás. A cerca metálica foi retirada em 1912, mas durante mais de 20 anos protegia madames que ali conversavam e vigiavam as filhas, enquanto empregadas domésticas ouviam galanteios de operários, soldados e marinheiros junto às calçadas externas. Ela teria sido um ponto de vendas de gêneros alimentícios e animais e também serviu de pelourinho para o castigo de escravos até o início do século 19.

Em tempos mais recentes, a praça e sua figueira (fícus organensis é seu nome científico) testemunharam discursos de autoridades, manifestações religiosas, peças montadas pelo teatrólogo Wilson Rio Apa, o presépio de Franklin Cascaes e desfiles de carros de mutação e escolas de samba, nas ruas do entorno, nos anos áureos do Carnaval ilhéu. E, como espaço democrático, a muitos namoros e ao célebre episódio da Novembrada, em 1979, quando o ex-presidente João Figueiredo e seus ministros entraram em confronto com populares na praça central e na rua Felipe Schmidt.

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