Publicidade
Quinta-Feira, 15 de Novembro de 2018
Descrição do tempo
  • 27º C
  • 20º C

Manifestações em 13 estados marcam um mês da morte de Marielle e Anderson Gomes

Fora do país, ocorreram manifestações nos Estados Unidos, Canadá, Peru, na Argentina, Itália, Alemanha, Suécia, Suíça, nos Países Baixos, no Reino Unido, na Hungria, em Portugal e na França

Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ)
15/04/2018 às 17H29
Um dos pontos de encontro no Rio para manifestações lembrando um mês do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes foi a Lapa - Cristina Índio do Brasil/Agência Brasil
Um dos pontos de encontro no Rio para manifestações lembrando um mês do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes foi a Lapa - Cristina Índio do Brasil/Agência Brasil


O sábado foi um dia de muitas manifestações em homenagem à vereadora Marielle Franco (PSOL) e ao motorista Anderson Gomes e marcou um mês do crime que provocou a morte dos dois, em 14 de março, no Estácio, região central do Rio.

Marielle foi atingida na cabeça por quatro tiros e Anderson foi morto por três disparos nas costas. Uma assessora de Marielle que também estava no carro sobreviveu ao ataque com ferimentos por estilhaços.

Logo no início do dia, o Amanhecer por Marielle e Anderson se espalhou por diversos bairros do Rio e cruzou fronteiras para outros estados e países. Em nome da vereadora e do motorista, o partido dela, o PSOL, e diversos movimentos sociais marcaram eventos pela internet.

No Brasil, houve mobilização no Distrito Federal e em 13 estados, entre eles, Piauí, Ceará, Paraíba, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná e Rio Grande do Sul.

Fora do país, ocorreram manifestações nos Estados Unidos, Canadá, Peru, na Argentina, Itália, Alemanha, Suécia, Suíça, nos Países Baixos, no Reino Unido, na Hungria, em Portugal e na França.

site de Marielle informava a intenção dos atos: “Precisamos mostrar que estamos transformando nossa dor em força, que não daremos nenhum passo atrás e que nem o tempo nem o medo vão nos calar!”.

Com este propósito, diversas pessoas foram às ruas reforçar as causas que a vereadora defendia: contra o racismo, a intolerância religiosa, o preconceito e a violência contra negros.

No Rio, ocorreram manifestações em vários bairros. Em Campo Grande, na zona oeste, o estudante Cauã Lopes, de 18 anos, levou uma tela com o desenho do rosto de Marielle para incentivar as crianças a colorirem. “A gente resolveu criar uma arte que atraísse o público infantil, sob o ponto de vista de que a criança também faz parte da questão política”, disse.

Cauã faz parte do Coletivo Juntos que era incentivado por Marielle. O estudante tem se recordou do contato que teve com a vereadora. “Meu convívio com a Marielle foi muito forte porque a minha família é composta por negros e a minha irmã, Yamê Pedrosa, foi a primeira mulher da zona oeste que participou da comissão de diretos da mulher negra da OAB. O mandato dela [de Marielle] sempre foi muito receptivo conosco. O que ela sonhava para a comunidade negra e em geral a gente sempre se identificou”, disse.

>> Assassinato de Marielle completa 1 mês com autores desconhecidos

Há exatos um mês, a vereadora Marielle Franco e o motorista do carro em que ela estava foram assassinados no Rio - Cristina Índio do Brasil/Agência Brasil
Há exatos um mês, a vereadora Marielle Franco e o motorista do carro em que ela estava foram assassinados no Rio - Cristina Índio do Brasil/Agência Brasil


Lapa

A arte que Cauã começou a fazer em Campo Grande foi levada para outra manifestação. No início da noite, centenas de pessoas se concentraram nos Arcos da Lapa, no centro do Rio, com pequenas apresentações artísticas para depois seguirem em caminhada pelas ruas da região central até o bairro do Estácio, onde ocorreu o crime contra Marielle e Anderson.

O deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) que faz parte da comissão externa da Câmara que acompanha as investigações do crime destacou que há uma “tradição terrível" na história brasileira que é a da não apuração de crimes políticos.

“Se a gente não gritar, se a gente esquecer, esse mínimo que não traz de volta as vidas dos nossos amados, mas que pelo menos nos acalma um pouquinho, que é saber quem puxou aquele gatilho certeiro, profissional e quem mandou e organizou este homicídio", disse o deputado.

A deputada Jandira Feghali (PC do B-RJ), que também integra a comissão, disse que tem participado de reuniões com o chefe de Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, com o interventor federal, general Walter Braga Netto, e pelas informações que tem recebido as investigações estão bastante avançadas.

“Nós não temos ainda um prazo para o esclarecimento, porque tanto para o chefe da Polícia Civil como para nós, é para além do executor que apertou o gatilho. É fundamental entender a motivação. Nós queremos também saber a motivação para entender o alcance do risco que tem para os outros ativistas dos direitos humanos e de todas as pessoas que estão nesta luta”, afirmou. Ela lembrou que o assassinato da juíza Patrícia Acioli levou quase dois meses para ser esclarecido e o de Marielle e Anderson com um mês de investigação já está em estágio mais avançado que as apurações da morte da magistrada.

Missa celebrada neste sábado, quando se completa um mês do assassinato da vereadora Marielle Franco, na Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, no centro do Rio - Cristina Indio do Brasil/Agência Brasil
Missa celebrada neste sábado, quando se completa um mês do assassinato da vereadora Marielle Franco, na Igreja Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, no centro do Rio - Cristina Indio do Brasil/Agência Brasil


O deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), que participou hoje de diversos atos desde o Amanhecer por Marielle e Anderson e da missa da família da vereadora, no centro do Rio, destacou que é importante reforçar a mensagem de Marielle.

“Porque que ela só foi apresentada à sociedade depois de ter a vida ceifada desta forma? Acho que é uma grande lição que fica para todos nós. Para onde nós olhamos antes disso? Será que a pauta da Marielle era uma novidade? Talvez não. Porque a importância que estamos dando agora é maior diante da brutalidade. Acho que manter esta pauta viva, fazer o Amanhecer, fazer a caminhada, é fazer com que essa batalha nunca mais seja perdida”, disse.

Família de Marielle Franco participa de missa no centro do Rio

Uma missa no sábado na Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, no centro do Rio, reuniu amigos e parentes da vereadora do PSOL. O pai de Marielle, seu Antônio Francisco da Silva, disse que tem sido difícil seguir adiante, mas as homenagens e o apoio de amigos têm ajudado a amenizar o sofrimento.

“Calaram a voz da minha filha covardemente. Sempre vou dizer covardemente, porque não deram nenhuma chance de defesa para a minha filha. Então, eles foram muito covardes nesse ato”, disse após a missa. 

A mãe de Marielle, Marinete da Silva, falou sobre a angústia da espera pela elucidação do assassinato: “É duro. São 30 dias nessa espera, com a expectativa de que vai conseguir resolver de alguma maneira. Para mim, para a sociedade, para a família toda. A gente espera uma resposta porque não tem explicação para o que fizeram com a minha filha. Foi cruel. Acho que para todos que conheciam a história dela e para mim, como mãe, é muito difícil. Tem sido dias de muita dor e muito luto para a gente".

Para Marinete, o assassinato da filha além de ser cruel foi “macabro”. “Não se cogita em época nenhuma se enterrar filho e eu enterrei minha filha de uma maneira precoce, trágica e dolorosa demais pelo que fizeram”, disse.

As manifestações e homenagens que estão ocorrendo mundo a fora também são motivo de força para a família. “A gente tem se apegado muito a isso e é unir forças mesmo. Enquanto o mundo clamar, vamos esperar por uma resposta. A gente quer e precisa", disse Marinete ao ressaltar que confia no trabalho de investigação: "Eu confio muito no trabalho que está sendo feito e vou confiar sempre que eles vão resolver [o crime]”.

Anielle Franco, irmã de Marielle, disse que as manifestações que tem ocorrido no Brasil e fora do país mostram que houve um reconhecimento do trabalho da irmã, embora infelizmente isso tenha ocorrido apenas após a morte dela. “A gente espera por justiça e a gente espera mais do que quem fez, mas quem mandou fazer. Queria muito saber, porque a pessoa arquitetou muito bem esse crime. Quem foi o autor intelectual desse crime e por quê? Ela dialogava tanto, porque não tentar o diálogo?”, questionou.

Anielle falou também sobre a falta que Marielle faz para a família. Ela contou que sua filha Mariah, de 2 anos, sempre pede para que ligue pelo celular para falar com a tia. “Ela era aquela que chegava, eu ficava realmente atrás dos panos e esperava ela decidir em alguns momentos. Vamos almoçar onde? A gente vai sair? Já marquei tudo, já reservei e a gente só ia na onda. Tem sido complicado. Ela, além de tudo, era uma amigona para quem eu ligava nos momentos desesperados da vida. A gente tem tentado juntar os cacos para tentar seguir a vida”, disse.

A irmã da vereadora disse que a família não pediu qualquer medida de proteção e nem tem intenção de sair da cidade ou do país, até mesmo porque não sabe a motivação do crime. “A gente não sabe de onde veio e não tem nem condição financeira de mudar a família toda. Eu tenho uma filha. A Luyara [filha de Marielle] passou agora para uma universidade pública. Como a gente pega e sai de um lugar, de uma cidade, de um país? Mas a gente não tem tido proteção nenhuma. Estamos mantendo a rotina normal, não sei se deveríamos, mas é o que estamos fazendo”.

A assessora que estava no carro com Marielle no momento do crime se mudou do país junto com a família.

Missa

A atriz Sophie Charlotte e o marido, o ator Daniel Oliveira, também acompanharam a missa e levaram o filho Otto. Para Sophie, a morte de Marielle não pode ficar esquecida. “Foi há um mês. Ainda não foi solucionado o caso. Os responsáveis ainda não foram encontrados e acho que nossa presença aqui também é uma maneira de mostrar que estamos atentos”, disse.

A família de Anderson Gomes, que dirigia o carro em que a vereadora estava e morreu com três tiros nas costas não estava presente. Segundo Anielle os parentes do motorista estão em um retiro espiritual.

Publicidade

0 Comentários

Publicidade
Publicidade