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Terça-Feira, 13 de Novembro de 2018
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Manezinhos preparam a segunda volta ao mundo a bordo de barco moderno e equipado

O barco está sendo construído no Rio de Janeiro e deve custar cerca de U$4 milhões

Emanuelle Gomes
Florianópolis
James Thisted/Divulgação
Os aventureiros presenciaram o final de tarde em Galápagos

Os manezinhos da Ilha Diogo Guerreiro, 30, e Flavio Jardim, 30, são mundialmente conhecidos pelas aventuras e feitos inéditos, tendo conquistado até mesmo um lugar no Guinness World Records, o livro dos recordes, como os realizadores da mais longa jornada de windsurf no mundo. Em fevereiro deste ano, os dois completaram uma viagem de mais de dois anos ao redor do mundo e agora preparam mais um desafio: passar três anos no Oceano Pacífico em um barco de última geração adaptado para ser a nova casa dos aventureiros.

O conceito do novo veleiro foi pensando pela Mormaii, em conjunto com Guerreiro. “Pelas viagens que fizemos, pude definir o que seria o barco perfeito”, comenta. Feito em fibra de carbono e com motor elétrico sustentado por energia solar, o barco deve custar mais de U$ 4 milhões e une conforto e desempenho com sustentabilidade.

O veleiro anterior, chamado de Itusca, tinha menos de 100 metros quadrados e 13 metros de comprimento. No novo barco são 220 metros quadrados e 21 metros de comprimento que abrigam três quartos, cozinha, banheiro, sala e ainda jacuzzi em um piso superior. A água salgada do mar também deve se transformar em água doce para o consumo dos moradores.

“A expectativa é de muito conforto e maior facilidade com mais velocidade. Agora vamos poder, até mesmo, desviar da rota. Com barco a vela isso fica mais difícil, porque seguimos um cronograma”, diz Jardim. Segundo Guerreiro, o barco estava sendo construído em Itajaí e será levado para o Rio de Janeiro, onde deve ser concluído em 2012. Só então os preparativos para a viagem devem começar. Mas, de acordo com Jardim, antes da viagem novas aventuras de windsurf devem acontecer. “Estamos à frente. São poucos os barcos modernos como esse que vemos por aí”, destaca.

Sonho antigo virou realidade e depois, livro

O sonho de realizar a volta ao mundo começou há mais de dez anos, mas faltava dinheiro e experiência. Guerreiro conta que era preciso convencer os patrocinadores a investir no desafio. Para isso, em 2001, começaram os treinamentos que envolviam terapia em grupo, acompanhamento nutricional, preparação física intensiva e a aprendizagem do francês.

Foi então que surgiu a ideia de realizar um feito até então inédito. Entre 2004 e 2005, os amigos percorreram toda a Costa brasileira, do Oiapoque ao Chuí em pranchas de windsurf, sem o acompanhamento de barco. “Acampávamos em terra e passamos um ano percorrendo 8.120 quilômetros. A gente ganhou certificado do Guinness e nos tornamos recordistas mundiais, o que nos deu muita visibilidade”, conta Guerreiro. A Mormaii patrocinou a aventura, que rendeu matérias no mundo inteiro, inclusive na BBC de Londres.

Para Jardim, o desafio foi muito importante. Apenas com mochilas nas costas, o contato com a população da costa foi muito grande. “Dependíamos do vento e chegávamos a ficar quatro dias em terra. No começo, o objetivo era concluir o trajeto em seis meses e fizemos em mais de um ano”, destaca. A história da aventura resultou no livro “Tempestades e Calmarias”, assinado por Guerreiro e lançado em 2008.

No limite do corpo em nome de uma aventura

Mais próximos de realizar o sonho da volta ao mundo pela primeira vez, Guerreiro e Jardim decidiram novamente inovar. Em 2006, partiram de avião para Fernando de Noronha com o objetivo era usar novamente as pranchas de windsurf para chegar a Natal, no Rio Grande do Norte. Eram 400 quilômetros em mar aberto, sem acompanhamento de barco de apoio. “Um dia antes o Flavio foi mordido por um cachorro e eu tive que decidir se ia ou não continuar a aventura. Decidi ir e passei 31 horas no mar. Tive que dormir em cima da prancha”, conta Guerreiro.

Ao chegar no continente, o aventureiro estava debilitado e foi levado direto ao hospital, com insolação e cinco quilos a menos. “Eu não tinha escolha. Tomei remédios a noite inteira para ver se conseguiria ir, mas não deu”, lembra Jardim. Guerreiro alcançou o segundo recorde mundial. “Já escrevi o livro, que ainda não foi lançado, e a história deve ser adaptada para filme em breve”, destaca.

Histórias a bordo do catamarã Itusca

Capitães-amadores pela Marinha do Brasil e praticantes de esportes radicais como surf, windsurf, kite e paddle surf, a dupla, em 2007, estava madura e preparada para a realização do sonho. Oficialmente, a volta ao mundo começou em agosto de 2008, com a saída do Brasil, mas um ano antes, os dois adquiriram o catamarã Itusca na Grécia e trouxeram pelo oceano Atlântico ao país.

A intenção da aventura era visitar locais fora dos roteiros turísticos convencionais, principalmente para a prática de esportes radicais. Os aventureiros chegaram a ficar seis meses na Indonésia e quatro meses na Polinésia Francesa, documentando todas as experiências.

Com o patrocínio novamente da Mormaii, em cerca de R$ 1 milhão, Guerreiro afirma que a viagem foi uma vasta descoberta de novas culturas. “Os lugares eram mais preservados, assim como a cultura, e o dinheiro nem sempre tinha valor”, explica. Sem, muitas vezes, ter contato com a família, os viajantes passaram por lugares ainda inabitados pelo homem e surfaram em ondas que recebiam a visita de brasileiros pela primeira vez. “Os animais em Madagascar marcaram muito a viagem, as culturas diferente também”, comenta Jardim.

Ataques piratas em Madagascar

“O barco era nossa casa e o quintal mudava, era o mundo”, comenta Guerreiro. Os aventureiros ficaram no mar em torno de seis meses, o restante do tempo permaneciam ancorados em algumas localidades. Para ambos, os momentos mais difíceis foram os tsunamis de 2009 e 2010 e a ação de piratas na Costa de Madagascar. “No primeiro tsunami, em Samoa, um velejador que estava perto de nós morreu prensado pelo próprio barco. No segundo, nós estávamos em mar aberto quando o tsunami chegou à Indonésia. Não sentimos nada, mas se tivéssemos saído dois dias depois teríamos vivido a tragédia”, relata Guerreiro.

Em 2010, de acordo com ele, aconteceram 400 ataques piratas na região de Madagascar. Eles não sofreram ataques, mas presenciaram. “Foi estressante demais passar por ali, ainda mais porque nosso veleiro era lento e muito visível. Os piratas têm lança mísseis e conseguiram sequestrar um barco que estava perto do nosso. As três pessoas e o barco foram levados pela Somália”, desabafa. “Ficamos 15 dias nessa travessia. Acho ainda pior essa situação, porque a ação da natureza é possível de prever, mas a do homem não”, complementa Jardim.

Chegada emocionante

Os viajantes chegaram a Garopaba em fevereiro de 2011. A recepção foi com a praia lotada, cheia de familiares e amigos que não viam os aventureiros há mais de dois anos. “Entre a África do Sul e o Brasil levamos 28 dias e a gente, durante dois anos, imaginava como seria a chegada. Achei que ia ficar aflito, mas isso não aconteceu e eu vi que aquilo era realmente o que eu gosto de fazer”, conta Jardim.

Foram dez anos de espera, duas conquistas de recordes mundial e uma experiência gratificante. “Quando chegamos a emoção foi muito forte. Nós transformamos nosso sonho em algo real. Isso mostra que qualquer um é capaz de realizar algo que queira muito, mesmo que pareça distante”, diz Guerreiro.

Roteiro da volta ao mundo

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- Ilhas Cook

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- Moçambique

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- Garopaba

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