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Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018
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Mais manezinho impossível: chope no Mercado, café na Lagoa e levar o passarinho para passear

Redação ND
Florianópolis

Giovana Kindlein/Especial para o Notícias do Dia

Débora Klempous/ND
Duduco. Ele tem um trabalho social intenso, mas o chopinho é sagrado

Velozes tempos são os de decisões tomadas pelos smartphones, de momentos registrados e postados instantaneamente pela tecnologia do Instagram e de conversas pelo Facebook. Em meio à contemporaneidade, uma vida diferente reina ainda, dia após dia, décadas após décadas, no simples modo de agir do manezinho, nos memoráveis hábitos de dar uma voltinha no Mercado Público, de levar o passarinho para passear ao Curiódromo da Ilha mantido pela SAC (Sociedade Amigos dos Curiós) ao lado do manguezal do Itacorubi, e de tomar café da tarde aos domingos na Lagoa da Conceição.

Andar muito sempre esteve na essência do manezinho. É costume antigo frequentar o Ponto Chic, no calçadão da Felipe Schmidt, o Bar do Alvim e a peixaria do Chico, no Mercado. Antes, ele ia para comprar peixe e farinha em fardos, agora vai para tomar um chopinho e jogar conversa fora. O objetivo mudou, mas a tradição permaneceu.

De óculos escuros, camisa vermelha e calça curta na altura do tornozelo, evidenciando o grafismo dos sapatos preto&branco sem meias, Duduco circula entre as mesinhas altas do Bar do Alvim, na ponta direita do Mercado Público (de frente para o mar e continente), às 17h40, no calor escaldante de uma sexta-feira típica de verão. Aos 52 anos, Nilson Nelson Machado é figura popular desde que abriu duas creches com 150 crianças no Morro do Mocotó, a maioria filhos de pais detentos, dependentes de álcool e drogas. “A gente sempre sai para dar uma voltinha. É tão bom se inteirar das fofocas, não é?”, confere ele, tocando o braço da repórter, ao lado da irmã dele, Eda Machado Chierighini, 60.

Aliás, tocar o corpo do interlocutor ao falar para chamar a atenção é outro hábito comum entre os ilhéus. A cada palavra dada, um toque pede deferência ou opinião. “Gostamos de saber como tu vais, gostamos de cumprimentar e se despedir várias vezes com a mão. É uma coisa da gente”, detalha. O vaivém dos garçons é intenso e o genro do Alvim, Janir José Francisco, 44, que gerencia o bar na ausência do dono, há 23 anos, marca à caneta cada chope que sai. “É um orgulho ser manezinho, com a cara do Mercado Público, batizado nas águas da Lagoa”, assevera Duduco.

Homossexual assumido e carnavalesco reconhecido pelas fantasias premiadas, como “O Exterminador de Dragões da Ilha da Magia”, que irritou Rogéria em 2004 em um concurso nacional, Duduco tem como principal virtude a criação de 17 filhos no Lar do Tio Duduco. Seu filho mais novo, de cinco anos, recebeu seu sobrenome legalmente há pouco tempo. Ele se chama João Vítor Duduco Machado.

Victor Carlson/ND
Curricá na Lagoa. Lílian, Iara, Márcia, Beatriz e Milene saboreiam o café após almoço em família na Vagem Grande

Café das tardes de domingo

A Lagoa da Conceição seduz. Tanto seduz, que as tardes de domingo, em qualquer uma das quatro estações são dedicadas a ela por manezinhos legítimos, nascidos e criados na Ilha. É frequentada por artistas, intelectuais, políticos e gente simples, que apreciam um bom café e um lanche gostoso, sem distinção de classe social. “Gosto de vir à Lagoa. É a cara do meu domingo”, diz a jornalista Giovana Meyer, 24. Sentada à mesa da Sanduicheria da Ilha, ela relembra os tempos quando era pequena e vinha com toda a família. 

Compartilhar momentos com os familiares e amigos tornou-se um hábito há muito tempo. “Vamos ‘curricá’ na Lagoa?” é sempre o convite de Lílian Jussara Lopes, 53, para uma de suas oito irmãs, após o almoço de domingo no sítio de Vargem Grande. No linguajar manezês, ‘curricá’ é a ação da ‘curriqueira’, mulher que não para em casa e que está sempre fofocando na vizinhança. Lílian toma café ao lado das irmãs Iara Lopes Martins, 51, e Márcia Lopes Bonassis, 49, da filha Milene Lopes Maciel, 32, e da neta Beatriz Lopes Silveira, 12.

A esquina das ruas Manoel Severiano de Oliveira com Henrique Veras do Nascimento, no centrinho da Lagoa, não é conhecida por seus nomes, mas sim por ser um point charmoso com muitas cafeterias aconchegantes, como o Café Cultura, Rocambole, Café da Lagoa, Empório Mineiro e a Sanduicheria da Ilha. “É ponto de encontro, lugar que permite um bate-papo sem música alta e sem barulho, e onde tem pessoas interessantes”, diz a consultora de moda, Tatiane Leite Martins, 31. “Eu adoro!”, diz a amiga Marli Marques Abrahão, 42, enquanto saboreia um suco de laranja e um café expresso.

Amor por curió bom de bico e de papel passado

 

Victor Carlson/ND
Inseparáveis. Nivaldo Nunes com o Pantera Negra, campeão sul-brasileiro na modalidade fibra

 

Espontâneo, o curió Pantera Negra (com anilha do Ibama nº 35182.013.07/08), de Nivaldo Nunes, canta melodicamente na gaiola. Alegre, o menino Nicolas Nunes de Oliveira, 11 anos, segue com dedicação a paixão herdada do pai à margem dos modismos da atualidade. Fiel, a Sociedade Amigos dos Curiós reproduz o velho costume dos passarinheiros da Florianópolis antiga de ter pássaros canoros e competir em torneios de canto.

Anos a fio, antes mesmo da oficialização da SAC em 1980, os apaixonados por passarinho iam de gaiola na mão se encontrar no hoje extinto Bar do Vado, na popular rua Major Costa, nas encostas do Morro da Caixa, no Centro. Foi lá que eles decidiram criar a sociedade, conta Nivaldo, 62 anos, dono do campeão de títulos Pantera Negra, detentor do primeiro lugar na modalidade de fibra no Torneio da Integração Sul-Brasileiro em 2011. A ideia contou com o apoio do então prefeito Antônio Henrique Bulcão Vianna, que apelidou sua sede, anos mais tarde, de Curiódromo da Ilha.

A turma gosta tanto de curiós que a construção do curiódromo foi com dinheiro do próprio bolso do presidente eleito no início da década de 1990, Osvaldo Corsini Vieira, o Vadinho. O valor gasto na obra (na época, a moeda era o cruzeiro), era transformado em dólares e abatido pelo clube quando tinha dinheiro em caixa. “Todo diretor era penalizado nas promoções para angariar recursos: pagava ou vendia rifa”, lembra entre risos, Nivaldo Nunes, tesoureiro da entidade na época. Organizada e estoica, a entidade conta hoje com mais de 900 associados.

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