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Maio de 1968: estudantes da UFSC, em Florianópolis, confrontaram reitoria e foram às ruas

Os alunos da instituição contavam com apoio popular e político e chegaram à imprensa da Ilha

Laura Loth (Especial para o Notícias do Dia)
Florianópolis
25/05/2018 às 22H53

Há 50 anos, em 29 de maio de 1968, os estudantes da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) convocaram a primeira greve geral da história da instituição, fundada em 1960. A paralisação, considerada vitoriosa, terminou após 11 dias. Como em outras manifestações organizadas pela juventude no “ano que não terminou”, como o jornalista Zuenir Ventura eternizou 1968, a encenação de funerais de símbolos da “velha sociedade” gravou-se na memória.

A esses funerais os estudantes não mandaram flores em maio de 1968. Poucas semanas antes, em 28 de março, o assassinato do estudante Edson Luís, no Rio de Janeiro, causou comoção e levou dezenas de milhares de pessoas indignadas ao funeral. O crime de Estado repercutiu no país todo. Florianópolis não ficaria de fora. Após uma noite em claro produzindo panfletos, e apesar da chuva, os estudantes saíram às ruas, formando um mosaico de guarda-chuvas. Havia algo no ar, uma energia extraordinária, como sentiu o então estudante de Economia Célio Espíndola. Não só de utopia viviam os jovens. A materialidade que inspirou as revoltas era muito sólida: os protestos e boicotes contra a guerra no Vietnã, o movimento negro por direitos civis nos Estados Unidos e as lutas pelas independências das colônias. Novas referências revolucionárias também apaixonavam os jovens, em parte decepcionados com os rumos da União Soviética.

Heitor Bittencourt, presidente do DCE, discursa numa das manifestações estudantis de maio de 1968 - Arquivo Pessoal/ND
Heitor Bittencourt, presidente do DCE, discursa numa das manifestações estudantis de maio de 1968 - Arquivo Pessoal/ND


Em Paris, a mobilização, caracterizada pela espontaneidade quase imprevisível, mesmo depois da adesão dos operários, desmanchou-se no ar com a continuidade do general Charles de Gaulle no poder. Nos jornais mais vendidos na capital catarinense, como “O Estado” e “A Gazeta”, os editoriais sobre as rebeliões na França e as análises das reivindicações estudantis na UFSC dividiam espaço.

Florianópolis teve também o seu maio, não desmentindo todos os outros protagonizados pelos colegas estudantes em várias partes do mundo. Aqui, como no levante contra o fechamento do restaurante Calabouço no Rio, o estopim foi um conflito inegavelmente concreto, resgatado pela Comissão da Verdade e Memória da UFSC, que apresentou seu relatório no dia 14 deste mês.

Em maio de 1968, os estudantes descobriram que o então reitor da UFSC, João David Ferreira Lima, havia assinado um convênio com o empresário José Carlos Daux, que estipulava o pagamento de 99,00 Cruzeiros Novos (o valor atualizado é R$ 830,82, usando como referência o IGP-DI da FGV) por cada vaga na moradia estudantil, ocupada ou não.

A reitoria repassava um valor equivalente a 77% do salário mínimo nacional da época ao grupo Daux, mesmo que o preço corrente nas pensões e repúblicas fosse de NCr$ 30,00. Como os estudantes pagavam NCr$ 30,00 de mensalidade à reitoria, o empresário levava mais NCr$ 69,00, como registram as atas do Conselho Universitário e os depoimentos de quem participou do movimento.

Conflito ocupou a imprensa da Ilha

“Daux – o ‘tio Patinhas’ de Florianópolis, graças à Reitoria”; “Daux – o afilhado nº 1 do Reitor”; “30,00 dos estudantes + 69,00 da Reitoria / Daux paquerando de Gallaxie (Ford)”, denunciavam e troçavam os estudantes em seus cartazes nas passeatas. A historiadora Marli Auras, autora do capítulo do relatório da Comissão da Verdade que conta esse episódio, comenta a relação de vantagens e privilégios entre a administração central e a elite local: “No caso da nossa universidade em seus primórdios, foi escancarada!”. O primeiro reitor da Universidade, João David Ferreira Lima, é homenageado no nome do campus da Trindade.

O reitor chegou a baixar o preço da mensalidade paga pelos estudantes, o que não arrefeceu os ânimos. Nos primeiros dias de maio (edição do dia 4), o jornal “O Estado” publicou que a reitoria ameaçava os inadimplentes: “vai arrolar todos os moradores das casas de estudantes em dívida pública para com a União, impedindo-os de receber o respectivo diploma ao final de seus cursos”.

O conflito ganhou espaço nobre nos jornais da época. Tornou-se o assunto mais comentado da cidade por semanas. O DCE (Diretório Central dos Estudantes), a reitoria, as moradias e até a casa do reitor eram localizados no centro, por isso as passeatas percorriam as ruas centrais e os QG's do movimento eram instalados nos locais de maior movimento. Havia casas nas ruas Esteves Junior, Alan Kardec, Almirante Lamego, entre elas o LUSC, o Planalto, o hotel Mário e o Paraíso. Sobre essa última, o colunista JCarlos Bittencourt, do jornal “A Gazeta”, tirou sarro: “Só se paraísos de beliches, traças e criados-mudos”.

Jornais registraram os protestos dos estudantes da Capital - Arquivo Pessoal/ND
Jornais registraram os protestos dos estudantes da Capital - Arquivo Pessoal/ND


Nos dias mais decisivos, alto-falantes foram instalados nas ruas da cidade e chegaram a funcionar ininterruptamente por 12 horas. Era clara a intenção de se aproximar da população o máximo possível. A UNE era clandestina desde 1964 e havia intervenção nos sindicatos, condição que dificultava a mobilização.

A rescisão do contrato reitor-Daux, como ficou conhecido o caso, era uma das reivindicações da primeira greve geral estudantil da UFSC, na qual os protagonistas foram os estudantes de Medicina, fortemente prejudicados pela política de retenção de verbas do Ministério da Educação. As verbas para o primeiro semestre de 1968 ainda não haviam sido liberadas em maio. Mesmo submetido à censura prévia, o trote daquele semestre tinha a crise como mote.

Estudantes contavam com apoio popular e político

Durante a greve, os futuros doutores montaram uma tenda para recolher assinaturas e enviar telegramas a Costa e Silva. Segundo Heitor Bittencourt Filho, 71 anos, presidente do DCE na época: “A população era simpática ao movimento. Havia uma insatisfação generalizada em relação à ditadura”.

O então estudante de Economia conta que foi protegido da repressão por civis anônimos e deputados do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), como Eugênio Doin Vieira. Lembra que sua família não o condenava pelo envolvimento na resistência: “Para eles era natural. A polícia vinha, batia na porta, queimava meus livros. Até o AI-5, não se falava em tortura”.

As mobilizações, concentradas na região central da cidade, foram deslocadas para o campus da Trindade no dia da inauguração do edifício do Instituto de Antropologia da UFSC, em 29 de maio. Para se deslocar até à Trindade, os estudantes lotaram ônibus. No evento, estavam presentes, além de Ferreira Lima, autoridades militares, o presidente do Tribunal de Contas, o governador Ivo Silveira (eleito ainda por voto universal pela Arena) e reitores. Oportunidade imperdível para que os estudantes expusessem todas as demandas.

Duas siglas não saíam da cabeça nem das bocas dos estudantes organizados nas passeatas: tratava-se de outro acordo bilateral, mas que afetaria todo o país, o MEC-Usaid (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional), um dos fatores de propulsão da Reforma Educativa no Brasil.

Segundo a Comissão da Verdade, a UFSC era um laboratório para a reforma e o reitor uma referência para o projeto por sua desenvoltura com as finanças. Para Rudolph Atcon, consultor da Usaid, a administração da UFSC era semelhante à de uma instituição privada.

Para os estudantes, o acordo MEC-Usaid era uma das maiores evidência do imperialismo e da ingerência dos Estados Unidos na educação nacional. Uma

das propostas era transformar as universidades brasileiras em fundações e promover o ensino superior pago.

Mesmo com o prestígio, Ferreira Lima não escapou de ser fichado pelo SNI (Serviço Nacional de Informação). Em ofícios localizados pela Comissão da Verdade, as denúncias que envolviam Daux, nepotismo e gastos preocupavam os militares, que cogitaram afastar o reitor. Por fim, as autoridades concluíram que não seria conveniente tirar Ferreira Lima do caminho. Antes, os militares não deixaram de associá-lo ao PCB, como era típico da paranóia contrasubversiva da época.

Deputados do MDB, partido que fazia a oposição à Arena, abriram uma comissão especial na Assembleia Legislativa para investigar o caso. Parte dos deputados chegou a frequentar assembleias estudantis, como Genir Destri, que “fez questão de ter seu nome incluído na organização de uma das comissões, a de Segurança”, publicou o jornal “O Estado”.

Ano terminou com vitórias e o AI-5

No Conselho Universitário, o professor de Direito Henrique Stodieck, perseguido pela ditadura, pressionou a reitoria por não ter aberto uma concorrência pública para a moradia e não ter consultado o Conselho antes de firmar o contrato. O representante discente era o presidente do DCE, Heitor Bittencourt, vinculado à organização AP (Ação Popular), ao lado de nomes como Derlei Catarina de Luca, uma das mais importantes militantes da causa dos direitos humanos no Estado e ex-presa política que morreu recentemente. Também formavam o DCE militantes do PCB (Partido Comunista Brasileiro).

“O movimento estudantil estava unido”, lembra Rosemarie Cardoso, então estudante de Serviço Social. A pressão do estudantado foi tamanha que, em meio à greve, o general Costa e Silva convocou o reitor para tratar da liberação de recursos. Os estudantes foram vitoriosos. Já avançando no mês de junho, a rescisão do contrato com a universidade foi proposta pelo próprio empresário José Carlos Daux, de tradicional família do ramo hoteleiro e da construção civil da Ilha.

Logo depois da greve o movimento iniciou os preparativos para o lendário congresso da UNE em Ibiúna (SP). Em 13 de dezembro, fechando o ano, os militares decretaram o AI-5, o golpe dentro do golpe, que recrudesceu a repressão e arrancou mais direitos.

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