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Luto deve ser encarado, porém alterações de comportamento não podem se prolongar

Para médico psiquiatra, o paciente deve retomar o padrão de comportamento e o prazer em realizar as atividades cotidianas; caso de Chapecó chama atenção por luto recair sobre toda a cidade

Redação ND
Florianópolis
04/12/2016 às 23H07

Para o médico psiquiatra Pedro Rosar, o luto deve ser encarado como processo normal após a tragédia que envolveu passageiros e tripulantes do voo que levaria a equipe da Chapecoense para a Colômbia. Porém, as alterações no comportamento devem ser acompanhadas para que o trauma não se prolongue. Cuidados especiais devem ser oferecidos para quem já apresenta quadro de sensibilidade e foi exposto à tragédia. Ainda que normal para as primeiras semanas, o paciente deve retomar o padrão de comportamento, a funcionalidade e o prazer em realizar as atividades cotidianas. Caso contrário, pode desenvolver doenças e estresse pós-traumático.

Psiquiatra alerta para os cuidados necessários - Daniel Queiroz/ND
Caso de Chapecó chama atenção por luto recair sobre toda a cidade- Daniel Queiroz/ND


Considerando as especifidades do acidente, em que a dor recai sobre uma cidade, os próprios profissionais da saúde precisam de acompanhamento para evitar estresse. Estar próximo de familiares e pessoas queridas seria o mais importante para atravessar o período de luto, ressaltou Rosar. "Às vezes, o envolvimento com a cidade pode levar o profissional a querer ultrapassar esse limite", ressaltou.

Qual orientação para lidar com o luto?

O luto é esperado, com algumas semanas de alteração do comportamento. É difícil colocar parâmetro de tempo para o luto, pode variar muito conforme cada indivíduo. O interessante é ficar atento ao padrão da pessoa. Como ela é normalmente, como reage a situações de estresse, de perda de alguém... O que tem feito para retornar a normalidade. As pessoas próximas são quem melhor pode ajudar.

Que especificidades da tragédia em Chapecó devem avaliadas para o acompanhamento sobre saúde mental?

É bastante complexo lidar com o luto de uma cidade... Tenho um irmão em Chapecó que descreveu uma cidade em luto, com clima permanente de velório. É necessário respeitar o tempo de cada pessoa, não pecar pelo excesso e respeitar espaços. Se a pessoa quer conversar, certo. O importante é se aproximar de quem vive este luto. Evitar tornar o assunto um tabu, tem de se viver e falar do luto.

É preciso dar atenção a quem está atendendo também. Os profissionais de saúde podem se submeter a situações de estresse. Muitos deles têm envolvimento grande com a cidade, com as vítimas. Fica difícil encontrar uma fuga para toda esta situação.

As pessoas locais podem dar suporte. Deve se observar quanto conseguem ajudar, cuidar para não adoecerem junto. Todos têm um limite. Às vezes, o envolvimento com a cidade pode levar o profissional a querer ultrapassar esse limite.

Como médico psiquiatra, o que preocupa no comportamento de quem está envolvido com a tragédia?

A alteração no padrão. Perda de funcionalidade. Deixar de ter prazer nas atividades que exerce. Alterações no sono e alimentação. Pessoas já sabem em geral como lidar com o luto e a perda. São situações que ocorrem durante a vida... Em casos de alteração, é bom o acompanhamento. Consulta médica já bastaria no primeiro momento.

Que doenças podem decorrer do luto?

Transtornos depressivos e transtornos de ansiedade. Estresse pós-traumático, quando o paciente revive a situação. Revive o estresse. Não consegue retornar ao padrão quando está relembrando a tragédia. Como o quadro de depressão ocorre com frequência, deve-se dar atenção para pessoas que tenham essa sensibilidade. Conforme alguns estudos, até 20% a 25% das pessoas podem ter depressão em algum momento da vida.

Neste caso de Chapecó, tem a especificidade da perda de ídolos, da autoestima da cidade. Deve ter cuidado com quem apresenta essa sensibilidade e foi exposto à tragédia.

 É possível realizar paralelo com outros casos de repercussão, como o incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria?

Difícil fazer paralelo. Talvez pela grande comoção que o caso gerou. Sempre que acontece uma tragédia ela é marcada pela violência. A morte é violenta. As pessoas ficam mais emotivas. As associações Catarinense, Brasileira e até Latino Americana de Psiquiatria estão se mobilizando para auxiliar. Em especial, com apoio técnico. Também em campanhas, como já foi realizado em Santa Maria. Também ao fornecer informações de utilidade pública. É importante que a sociedade fique aberta para o suporte. As pessoas sensibilizadas devem ficar próximas das famílias e de pessoas queridas. Momento de luto deve ser vivido. As cerimônias de luto têm essa característica. 

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