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Livro resgata, em Nova Trento, histórias das "Filhas de Maria"

Grupo surgiu no início do século 20 e durou quase 60 anos. Não permitia que as mulheres dançassem, cortassem o cabelo ou assistissem partidas de futebol

Marcos Horostecki
Nova Trento
26/06/2017 às 20H05

No começo do século 20, na região da Grande Florianópolis, havia mulheres proibidas de dançar, cortar o cabelo, andar de bicicleta ou assistir a uma partida de futebol. Aquelas que não se enquadravam nessa convenção eram expulsas da Pia União das Filhas de Maria. Uma instituição ligada, na época, à igreja Católica, cuja história se confunde com a de Nova Trento e das famílias de imigrantes italianos. Até hoje as mulheres participantes, especialmente as expulsas da entidade, relutam em falar sobre o grupo e seus costumes.

Ao lado de umas depoentes, Elis reforça a rica história da colonização italiana na Grande Florianópolis - Divulgação/ND
Ao lado de umas depoentes, Elis reforça a rica história da colonização italiana na Grande Florianópolis - Divulgação/ND


No livro Devote dela Vergine (Devotas da Vigem Maria, em tradução livre), a jornalista Elis Facchini é a primeira autora da região a retratar o dia a dia das chamadas Filhas de Maria, entre os anos de 1900 e 1960. A obra é uma grande reportagem, idealizada em 2005, quando Elis se formou em jornalismo pela Universidade do Vale do Itajaí, mas só pode ser editada agora, com a ajuda do marido, Paulo Sergio Zembruski. Foi ele quem incentivou a publicação e diagramou o livro, atualmente disponível somente em Nova Trento, na Pousanda Cantina Italiana ou em contato direto com a autora.

“O livro surgiu das conversas com minha avó, que contou sobre sua participação nas Filhas de Maria. Eram histórias, hora repletas de amargura, em função das determinações, hora cheias de saudade dos tempos de juventude”, explica a autora. Dona Maris Stella Cadorin Dalri virou a personagem principal. O livro traz outros 24 depoimentos de mulheres participantes do grupo, que desapareceu após a abertura da igreja Católica.

Crítica da igualdade de gênero

Participantes do grupo não podiam cortar o cabelo ou dançar - Divulgação/ND
Participantes do grupo não podiam cortar o cabelo ou dançar - Divulgação/ND


O livro escrito pela jornalista vem chamando a atenção de quem luta pela preservação da história da colonização italiana da região e não tem pretensões, segundo ela, de fazer nenhuma crítica ou debate sobre a igualdade de gênero, muito embora o problema fique evidente nas histórias contadas pelas personagens. “Minha proposta é de resgate histórico, até porque poucas pessoas sabem que estes episódios da história existiram. E, claro, as Filhas de Maria encerraram suas atividades na década de 1960, quando houve uma ampla reforma na igreja e o mundo passou por diversas transformações”, comenta.

Segundo a autora, a pesquisa terá continuidade. Deve fazer parte do mestrado em Ciência da Religião, que a jornalista está cursando na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de Santo Paulo). 

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