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Livro mostra como era a atividade musical no Desterro nos períodos da Colônia e do Império

“A música em Desterro (Florianópolis) nos períodos colonial e imperial”, escrito pela professora Simone Gutjahr, será lançado nesta segunda-feira

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
29/06/2018 às 22H14

A música é eterna e não conhece fronteiras, mas se submete às circunstâncias de cada era e do local onde é praticada e usufruída. No caso de Florianópolis, é possível encontrar referên­cias de atividades musicais ainda no século 18, relíquias que documentos puídos revelam acer­ca do que Desterro, o nome da cidade à época, produzia e reproduzia por meio de artistas que o tempo esqueceu ou tornou anônimos, com uma ou outra exceção. Agora, um pouco de luz sobre esse período vem à tona por meio do li­vro “A música em Desterro (Florianópolis) nos períodos colonial e imperial”, da professora Si­mone Gutjahr. A obra será lançada às 18h30 de segunda-feira (2) na Biblioteca de Arte e Cultura do CIC (Centro Integrado de Cultura), na Capital.

Professora Simone Gutjahr pesquisou durante cinco anos em arquivos de associações religiosas e jornais antigos para levantar a produção da Ilha - Divulgalção/ND
Professora Simone Gutjahr pesquisou durante cinco anos em arquivos de associações religiosas e jornais antigos para levantar a produção da Ilha - Divulgalção/ND


Durante cinco anos, a autora escarafun­chou arquivos de associações religiosas e jor­nais antigos para costurar uma trajetória da produção e execução musical na Ilha de Santa Catarina. Não encontrou muito material sobre os estilos prediletos dos artistas, o que real­mente era tocado em ambientes sacros e pro­fanos, mas há pegadas que revelam as relações entre músicos e seus contratantes, recibos de prestação de serviços, livros de receitas e des­pesas das instituições. A cidade era minúscula e recebia migrantes que vinham atrás de tra­balho, fortuna e aventuras. Entre eles estava um alemão que havia se fixado anteriormente em Joinville e acabou se tornando professor de música no Desterro a partir de 1851; outro era um português que também ajudou a formar instrumentistas na Ilha.

“Um recibo de pagamento se referia ao músico alemão como mestre de capela”, con­ta Simone Gutjahr. Havia bandas militares e artistas que faziam apresentações em casas de famílias mais abastadas, e mais tarde ses­sões de companhias locais e de fora no Theatro Santa Izabel, atual Teatro Álvaro de Carvalho, inaugurado em 1875 – incluindo óperas euro­peias muito populares no Brasil. Os aprendi­zes recebiam aulas particulares ou nos liceus, quase sempre de canto e piano, embora haja citações de instrumentos de sopro – como o oficleide, parente remoto do saxofone. “Vi um instrumento raro desse tipo num museu em Curitiba”, revela a autora do livro.

Ela pesquisou em acervos da Ordem Tercei­ra de São Francisco, da igreja Nossa Senhora do Rosário e da irmandade de Nosso Senhor Jesus dos Passos, além da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Também conseguiu documentos ou partituras no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto (MG), e no Arquivo Histórico e Eclesiásti­co de Santa Catarina. Uma parte significativa do livro foi levantada junto ao acervo dos des­cendentes de José Brasilício de Souza, autor da música do Hino do Estado, que produziu 60 composições (inclusive óperas) e se distinguia dos demais artistas da Ilha por ter feito estudos formais de música.

Obra ensaiada para o imperador

Além de levantar dados até hoje inéditos em livro, a professora Simone Gutjahr constatou que muitos docu­mentos essenciais para o conhecimento da história cata­rinense estão em péssimo estado de conservação. Excetu­ando o acervo da irmandade Nosso Senhor dos Passos, o material, de modo geral, se encontra “em situação lasti­mável”. Alguns deles, apesar da riqueza que representam, ela nem abriu, por medo de acelerar sua destruição. A mais antiga referência a uma atividade musical na Ilha é de 1748 – portanto, há 270 anos. Mais que no livro, as in­formações estão na dissertação de mestrado que a autora desenvolveu na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina). Muita coisa transcrita e não incluída na obra poderá ser usada no futuro, por outros pesquisadores.

Arquivos de associações religiosas e jornais antigos serviram como pesquisa - Divulgação/ND
Arquivos de associações religiosas e jornais antigos serviram como pesquisa - Divulgação/ND


A leitura de jornais (eles existem no Estado desde 1831) foi feito coluna a coluna, e os livros e documentos exigiram análise de milhares de páginas nem sempre bem conservadas. Um achado importante foi o “Te Deum” de João Francisco de Souza Coutinho, localizado em Mi­nas Gerais, uma obra sacra para coro que previa a parti­cipação de soprano, tenor, baixo, cordas e alguns instru­mentos de sopro. Esta peça foi apresentada a dom Pedro 2º e sua comitiva em 1845, quando da visita do imperador ao Desterro e região.

Concluída a pesquisa acadêmica, ela conseguiu apro­var o projeto da edição na Lei Rouanet. A captação foi parcial, e Simone buscou parte do que faltava no Edital Elizabete Anderle, da Fundação Catarinense de Cultura. Professora de música, com mestrado em Musicologia His­tória pela Universidade do Estado de Santa Catarina, ela atualmente atua no circuito São Bento do Sul/Joinville, em atividades de canto coral para crianças e adolescentes.

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