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Livro e exposição falam do cinema mudo e da transição nas salas de Florianópolis

“Cinemas (de rua) de Floripa”, escrito pelo engenheiro mecânico, professor e artista plástico Átila Alcides Ramos, será lançado nesta terça-feira (17)

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
14/04/2018 às 11H27

Há pouco mais de um século, Florianópolis era uma cidade sem luz elétrica, água encanada, saneamento, carros – e cinemas. As artimanhas animadas que nasceram na França com os irmãos Louis e Auguste Lumière haviam dado o ar da graça na Ilha em 21 de julho de 1900, por meio do cinematógrafo, mas as sessões eram domésticas, ou em reuniões de amigos, onde até então predominavam os saraus e apresentações dramáticas de grupos amadores locais. Em 1908, o Teatro Álvaro de Carvalho sediou a exibição de fitas baseadas, na maioria, em óperas de sucesso na Europa, já com som garantido pelo uso do gramofone. E a primeira sala de projeção da Capital foi o cinema Cassino, localizado na praça 15 de Novembro, que teve a sessão inaugural no dia 9 de julho de 1909.

Átila Ramos pintou uma tela com a plateia assistindo a um faroeste num dos velhos cinemas da Ilha - Flavio Tin/Nd
Átila Ramos pintou uma tela com a plateia assistindo a um faroeste num dos velhos cinemas da Ilha - Flavio Tin/Nd


É nesse momento, e nos episódios que o precederam, que se situa a abertura do livro “Cinemas (de rua) de Floripa”, que o engenheiro mecânico, professor e artista plástico Átila Alcides Ramos, 74 anos, lança às 18h de terça-feira (17) no hall da reitoria da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Paralelamente, ele apresenta uma exposição de 21 pinturas em acrílico sobre tela que reproduzem as fachadas dos primeiros cinemas, o interior de salas de projeção e cartazes de filmes mudos e sonoros que fizeram a alegria das platéias nos anos em que esta era a principal diversão dos moradores da cidade.

Para chegar ao livro e à mostra, Átila Ramos escarafunchou todos os jornais do século 20 no acervo da Biblioteca Pública do Estado. Foram quatro anos folheando periódicos que se desmanchavam nas mãos e os exemplares já digitalizados que fazem parte da Hemeroteca Catarinense, em fase de implantação. “Viajei muito”, resume, falando das sensações que teve ao descobrir coisas que nunca foram contadas em livro e que estavam ali, registradas em páginas amarelecidas pelo tempo. “Fiquei impressionado com o número de casas de projeção na época do cinema mudo”, conta. “Foi uma alegria ler sobre a inauguração de novas salas, o fechamento de outras, cinemas que migraram para os filmes sonoros e outros que voltaram ao mudo ou que projetavam nos dois formatos”.

O Ritz foi um dos últimos a fechar; o Art-Nouveaux funcionou no TAC - Reprodução
O Ritz foi um dos últimos a fechar; o pioneiro Cassino, em São José - Reprodução


Átila Ramos diz que “Cinemas (de rua) de Floripa” são dois livros num só, porque ele dividiu o volume em partes – a primeira metade para o cinema mudo, que vai até 1931, e a segunda para o falado, que vem até os dias de hoje. Por isso, o leitor vai encontrar referências a fitas cuja importância era momentânea e se perdeu nas areias do tempo, e outras – como faroestes icônicos, os filmes mudos de Charles Chaplin, o clássico “Metrópolis, de Fritz Lang, e as primeiras versões de “Scarface” e “Titanic” – que, na peneira implacável dos anos, ganharam a condição de cult. Gary Cooper e Humphey Bogart estão entre os astros que, na transição para o cinema sonoro, fizeram carreira de sucesso em Hollywood. 

TAC foi sede de quatro cinemas

Adescoberta quase aleatória de um cinema chamado Cassino, inaugurado em 1909, durante pesquisas que fazia na Biblioteca Pública, levou Átila Ramos a dar forma ao projeto do livro, já que até então utilizava as imagens dos jornais – cartazes e algumas fotos – como mote para suas pinturas e aquarelas. Suas telas se esmeram em retratar o vestuário dos frequentadores, o design das salas de projeção, detalhes arquitetônicos dos prédios e cartazes de fitas que estavam entrando em exibição. Uma curiosidade é que o Teatro Álvaro de Carvalho, inaugurado em 1875, sediou quatro cinemas de 1910 a 1954: Art-Nouveaux, Variedades, Royal e Odeon. Houve cinemas que fecharam e foram reabertos com outro nome, e aqueles que mudaram de endereço, mantendo a denominação original.

Telas mostram o São José e o Imperial; o Art-Nouveaux funcionou no TAC - Reprodução
Telas mostram o São José e o Imperial; o Art-Nouveaux funcionou no TAC - Reprodução


Aposentado como engenheiro da Casan, Átila tem três livros publicados sobre a história do saneamento na Ilha e também obras sobre o Carnaval. Isso o levou a estabelecer paralelos entre três áreas sem ligação aparente entre si. Assim, ele percebeu que o ano de 1909 marcou a abertura do cinema pioneiro (Cassino) e o início das obras da rede de água da cidade. A implantação do primeiro sistema de esgoto, em 1916, coincidiu com o surgimento do cine Variedades, no TAC. A segunda década do século 20, aliás, foi de muitas transformações em Florianópolis, com a urbanização de vias (como a que depois seria batizada de Hercílio Luz), a instalação de tubulações de água e a chegada da energia elétrica. Foi por causa da luz que a projeção a manivela deu lugar a equipamentos mais modernos.

Naquele período também se afirmavam os blocos carnavalescos e, mais tarde, as grandes sociedades, com seus carros ainda precários enfeitados e decorados. A folia dos ricos era nos clubes; a dos pobres, nas ruas, com o corso e o entrudo. No livro, Átila também faz referências ao cine Art 7, de Darci Costa, e ao clube de cinema Nossa Senhora do Desterro, de Gilberto Gerlach, além do cine São José, onde só se entrava de paletó, e do Cecomtur, o
último dos grandes cinemas de rua da cidade.

As salas de exibição dos tempos áureos

CINEMA MUDO

Cassino: 09/07/1909, na Praça 15 de Novembro, 27

Art-Nouveaux: 27/08/1910, no Teatro Álvaro de Carvalho   

Círculo: 09/05/1912, na Praça 15 de Novembro, 1

Ideal: 12/03/1913, (1)

Variedades: 1916 (2), no Teatro Álvaro de Carvalho

Ponto-Chic: 20/12/1919, na Esquina das ruas Felipe Schmidt e Trajano

Internacional: 18/06/1924, na Rua João Pinto, 18

Ideal: 10/07/1930, na Rua Conselheiro Mafra

Cine Theatro Centro Popular: 1930 (3), Rua Padre Miguelinho

CINEMA SONORO

Palace: 09/05/1931, na Esquina das ruas Arcipreste Paiva e Tenente Silveira

Glória: 17/04/1932, na Rua João Pinto, 156

Imperial: 04/09/1932, na Rua João Pinto, 156 (4)

Odeon: 11/10/1933, na Rua Padre Miguelinho

Royal: 20/01/1934, no Teatro Álvaro de Carvalho

Central: 02/10/1934, na Esquina das ruas Arcipreste Paiva e Tenente Silveira

Rex: 18/08/1935, na Rua Arcipreste Paiva

Ritz: 15/04/1943, na Rua Arcipreste Paiva

Roxy: 06/05/1944, na Rua Padre Miguelinho

São José: 1954 (5), na Rua Padre Miguelinho

Cecomtur: 1975 (5), na Rua Arcipreste Paiva

Art 7: 1986, na Rua Almirante Alvim

(1) O livro não cita o endereço da sala

(2) O livro não cita o dia exato da inauguração

(3) O livro não cita o dia da inauguração

(4) Fechado em 1970, foi reaberto depois como cine Coral, depois Carlitos

(5) O livro não cita a data precisa da inauguração

CURIOSIDADES

  • A esquina das ruas Vidal Ramos com Esteves Júnior sediou, a partir de fevereiro de 1909, o Parque Catharinense, ponto de encontro que contava com um pequeno teatro e que passou a exibir filmes até então projetados em paredes, ao ar livre.
  • A igreja católica criou o cinema Círculo, em 1912, e a partir de 1930 o Centro Arquidiocesano Dom Joaquim implantou o Cine Theatro Centro Popular, no prédio onde mais tarde também funcionaram os cinemas Odeon e Roxy.
  • Empresários como Júlio Moura, Paulo Schlemper e Paschoal Simone foram comerciantes que começaram a diversificar suas atividades investindo no ramo cinematográfico, em plena ascensão nas primeiras décadas do século passado.
  • O cine Ritz, inaugurado em 1943 pela família Daux e localizado na rua Arcipreste Paiva, foi um dos mais importantes de Florianópolis, mas decaiu como os demais salas de rua e teve o edifício transferido para a iniciativa privada em 2015.
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