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Livro conta a história da construção da Serte e de seu fundador, Nelito

O livro exigiu três anos de dedicação e narra a criação de uma das maiores obras sociais do Brasil

Aline Torres, especial para o Notícias do Dia
Florianópolis
31/08/2017 às 15H43

Leonel Pereira era um homem aparentemente comum. Nasceu na Cachoeira do Bom Jesus, no Norte da Ilha, em Florianópolis. Falsificou a certidão de nascimento para poder trabalhar um ano antes da idade permitida, aos 14 anos. Empreendeu. Perdeu tudo. Casou, teve filhos. Viveu o cotidiano. Família. Contas. Time de futebol. A roda da fortuna girou. Fez sucesso. Teve amigos. A vida era boa. E poderia ter seguido sem grandes mudanças até a morte, se ele não tivesse descoberto uma missão e a abraçado com a força e a fé de um homem que não deixou nada para depois.

Norma e Lenir, as autoras do livro sobre a Serte - Flávio Tin/ND
Norma, autora, e Lenir, organizadora do livro sobre a Serte - Flávio Tin/ND





E é pela obra humanística única que Nelito, carinhosamente lembrado pelo apelido, será homenageado por Lenir Wolther e Norma Bruno nesta quinta (31) às 19h na Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina). Elas se uniram para dar vida ao livro “Nelito e as Rosas Rubras”, que narra à trajetória do fundador da Serte (Sociedade Espírita de Recuperação, Trabalho e Educação) e dos incansáveis trabalhadores e voluntários que construíram em um pântano a seara de luz, esperança e amor que modificou Florianópolis.

Norma Bruno foi durante a maior parte da vida uma escritora trancada na gaveta. Se assumiu aos 40 anos. Para compreender as lacunas que a fizeram percorrer caminhos que não eram os seus, procurou a Serte. Era outubro de 2013. No primeiro dia da TE (Terapia Espiritual) encontrou seu amigo e ex-colega de faculdade Nabor Souza Filho. Conversaram rapidamente.

 Na próxima semana combinaram de se encontrar mais cedo. Ela levou seu terceiro livro publicado, “Prosa, quase Poesia”. Ele o segurou e disse “tenho que conversar com você”. A aula começou. Na terceira semana, ele avisou que Lenir Wolther telefonaria.

Nelito, o fundador da Serte - Divulgação/ND
Nelito, o fundador da Serte - Divulgação/ND




Nabor foi a ponte entre duas mulheres, duas ciganas, com interesses em comum. Aqui caberia o clichê "nada é por acaso".  Norma queria contar histórias. Lenir queria salvar as memórias dos fundadores da Serte, pessoas comprometidas com o próximo. Dispostas a pegar no pesado para erguer um sonho.

Seu zelo não é à toa. Lenir é voluntária da Serte há 51 anos. Desde criança gostava dos velhinhos. Aos 12 anos, quando morava em São Borja, no RS, trocava as brincadeiras de domingo para auxiliar no asilo. Aos 18, casada e morando em Tijucas, SC, contava na imaginação quantas camas de idosos caberiam na sala de jantar. Com cartõezinhos escritos “um olhar de compaixão, auxílio a idosos sem política e sem religião” pedia auxílio para políticos e empresários da cidade para concluir a construção inacabada de um lar.

Mas, foi em uma manhã de dezembro de 1966 que o destino se mostrou. Nelito bateu na porta de Eduardo, seu marido na época, e proprietário da fábrica de Doces Chaves. Ele vinha comprar balas e doces para uma festa na comunidade da Cachoeira do Bom Jesus.

“Com entusiasmo, o Nelito falou para o Eduardo que queria construir um lar para idosos. Meu marido rindo disse que ele tinha que me conhecer, pois tínhamos algo em comum. Eu queria transformar nossa própria casa em um asilo”, contou.

Convidado para ir à casa do casal, Nelito viu na parede da sala o quadro de uma velha, pintado por Lenir, e disse que em suas visões costumava ver uma casinha branca cheia de velhinhos que acenavam para ele da janela e que a senhora do quadro se parecia com uma delas.

O começo da construção da Serte, em 1958 - Divulgação/ND
O começo da construção da Serte, em 1958 - Divulgação/ND





“Ele disse: nós vamos trabalhar juntos, vamos construir um lar para cem idosos, tenho comigo um grupo de amigos e juntos vamos construir uma linda obra espírita”, lembrou.

Quando Lenir se uniu aos voluntários as paredes do lar de velhinhos nem haviam sido erguidas. Mas na frente da construção, reinavam rosas rubras, as preferidas de Nelito. Lá foi erguido uma espécie de acampamento provisório.

Lenir acordava como todos os outros. Com Nelito batendo tampas de panela e gritando “acooorda macacaaaaaaaaaaada!”. Era um sujeito irreverente. Ela ajudava na colocação dos pisos da entrada do lar. Deu a primeira injeção na primeira velhinha. Auxiliava a esposa de Nelito, Julia Cascaes Pereira na evangelização das crianças. E se encarregava de orientar a organização e a limpeza, já que a maioria dos funcionários não tinha conhecimento sobre limpeza de azulejos e pisos. Eles moravam em casas de chão batido.

“Por muito tempo fiz curativos nos idosos, até que a equipe de enfermagem se formasse. Desde a abertura do Lar em 1967, até 2012, fui supervisora da Casa juntamente com Nadir, Adélia e Alaíde”, contou.

Um dos velhinhos que Lenir tinha carinho especial se chamava Dercílio. Ele era dono de uma pedreira. Cortou as pedras para o alicerce da Serte. Quando Nelito, seu amigo, perguntou o preço disse “Hoje eu quero nada. Mas se um dia eu precisar quero um cantinho para mim no lar dos idosos”. Após 30 anos estava lá. Viveu duas décadas na instituição e foi muito amado.

A mãe de Lenir também dedicou seus últimos anos à Serte. Nascida em uma família muito católica, com irmãs freiras, venceu as barreiras do preconceito ao confirmar que Deus vive mais nas ações generosas do que em qualquer discurso.

“Já doente, usando marca-passo e caminhando com dificuldade por causa da distrofia, saía pelas ruas em busca de doações. Ia de prédio em prédio, conversava com os porteiros, dizia que era da Serte. Fez um trabalho incansável, pegava ônibus sem eu saber e chegava tão cansada que os velhinhos ofereciam suas próprias camas para ela descansar um pouco”.

Dona Albina, que também apreciava as rosas rubras, não poupava gentilezas.

“Sentada num banquinho, ela fazia a limpeza dos pés dos idosos, cortava as unhas, limpava as calosidades, passava creme. Encantados com aquele carinho, eles faziam fila para serem atendidos por ela. Muitos haviam trabalhado na roça ou na pesca, tinham pés maltratados, nunca tinham recebido tais delicadezas”.

Dona Albina morreu aos 61 anos. Durante o velório, os velhinhos se debruçaram sobre seu caixão e fizeram uma homenagem. “Naquele momento percebi que ali estavam os seus verdadeiros amigos”, disse Lenir.

Eduardo Chaves segue os passos dos pais e da avó. Está construindo um centro para o estudo e a prática da Doutrina Espírita e uma casa para acolher cinquenta crianças em Urubici.

“Por todo esse vínculo, por conhecer e fazer parte dessa história, eu não poderia morrer sem contar a trajetória do Nelito, da Dona Julia e de voluntários, como a minha mãe, que ajudaram a construir essa grande obra espiritual. O Nelito era um encantador de almas”, disse Lenir.



Venda será revertida para a Serte

“Nelito e as Rosas Rubras” exigiu três anos de dedicação. É um resgate profundo, mas sem pretensões. Norma optou por ser mediadora de muitas vozes. “Sinto como uma grande roda de conversa, a céu aberto, com um fogo de chão no meio, coisa de ciganos”, disse. Ela entrevistou 40 personagens, algumas pessoas beirando o centenário. Foram ouvidos a esposa e os filhos de Nelito, seus amigos, funcionários, voluntários, pessoas beneficiadas por suas ações. E todos tiveram espaço para as suas lembranças. O livro não é doutrinário, não é para espíritas, narra a criação de uma das maiores obras sociais do Brasil a partir de seu fundador, uma figura importante na história de Florianópolis. 

 Lenir além de financiar o projeto doou dois mil livros. O valor das vendas será revertido integralmente para Serte. 


PROGRAMAÇÃO

O quê? Lançamento do Livro “Nelito e as Rosas Rubras”

Quando? Dia 31 de agosto, na Alesc, às 19h

Quanto? Cada livro custa R$ 35. 

*Após o lançamento os livros serão vendidos na Serte, na rua Allan Kardec, 142, na Agronômica.  Contato 3228-2285. 

 

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