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Quinta-Feira, 20 de Setembro de 2018
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Língua de origem alemã pode ser incluída na grade curricular dos alunos de Antônio Carlos

Prefeitura realiza um recenseamento para identificar quem fala ou compreende o hunsrückisch, que hoje já é o idioma co-oficial do município

Letícia Mathias
Florianópolis
Rosane Lima/ND
Jacó Simonis e Ineide aprenderam a falar o hunsrückisch, a filha Elimara só compreende; Enzo já tem contato com a lingua por meio dos avós


Quando Jacó Simonis, 57, era criança, não sabia falar português. Ele morava em Antônio Carlos, onde nasceu e vive até hoje, e conta que a lembrança que tem dos tempos de escola é de quem nem sabia pedir pra ir ao banheiro “em brasileiro”, como descreve com sotaque alemão carregado. A professora, que também falava hunsrückisch, língua praticada na região sudoeste e parte sul da Alemanha e reconhecida como língua co-oficial do município pela lei municipal 132/2010, foi quem o ensinou a se comunicar melhor em português.

Hoje, quase 50 anos depois, ele ainda mistura expressões da língua alemã com a fala em português. Os filhos dele compreendem, mas falam muito pouco e ninguém da casa, nem ele, têm ideia de como se escreve nessa língua. Por causa disso, ele acha que em alguns anos, a língua não será mais ouvida na comunidade e cidade onde vivem, e aos poucos, desaparecerá. “A língua alemã se acabou”, lamenta. Mas é pensando em não perder essa cultura que a prefeitura está realizando um recenseamento linguístico na região desde o início do ano e pretende, no futuro, integrar o idioma à grade curricular das escolas do município.

O projeto ligado à Secretaria de Educação e Cultura de Antônio Carlos foi idealizado pelo atual secretário Altamiro Antônio Kretzer, que também é doutor em história cultural, e tem previsão para ser concluído até o fim do ano, provavelmente novembro. A pasta foi contemplada pelo edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura em 2013 e está visitando as famílias da região para saber quem fala e quem compreende a língua dos primeiros imigrantes da região, que chegaram à comunidade do Louro, berço da imigração alemã no município, em 1830.

A proposta é perceber também como puderam manter essa comunicação por tanto tempo. Mais do que fazer um diagnóstico linguístico e levantar números, a ideia é traçar um perfil destes moradores. “Percebemos que se nada fizéssemos para recuperar, preservar e desenvolver esta língua em nossa cidade, correríamos o risco de, em mais uma ou duas gerações, vermos o hunsrückisch de Antônio Carlos ser mais uma língua a desaparecer”, disse Kretzer.

Língua foi passada de geração em geração apenas pela comunicação oral

Até agora já foram coletados cerca de 2.300 formulários. Com base nos dados do sistema básico de saúde, que segundo a própria prefeitura tem os números mais precisos do que o censo, Antônio Carlos tem 2.949 famílias e 9.248 habitantes. Para o idioma chegar às escolas, depois do levantamento sobre o uso da língua nas comunidades, ainda é preciso fazer a elaboração da gramática, isso porque aqueles entrevistados pelos recenseadores não sabem ler nem escrever em hunsrückisch. Aprenderam apenas a linguagem oral.

Ineide Prim Simonis, 50, teve a mesma experiência do marido. Só falava alemão em casa e como continuou praticando, tem todas as palavras na ponta da língua. Ela lembra que seus pais “não falavam nada em brasileiro”, só quando vinha gente de fora e eram obrigados a falar o português. Quando os filhos eram pequenos, as professoras diziam para ela não deixar de falar alemão com as crianças. “Elas me diziam: mãe, a senhora não sabe a riqueza que está guardando para eles”, conta.

Apesar disso, a filha do casal, Elimara Simonis, 26, compreende, mas não fala. Ela diz que como o inglês tem sido “mais usado para tudo”, muita gente tem deixado o alemão de lado para aprender outra língua: “Para nós, seria mais fácil valorizar o alemão do que o inglês. Na época da escola sempre pensava isso, sempre quis trabalhar mais o alemão. O pai e a mãe falam alemão e a gente responde português. No tempo deles era diferente, eles também tinham que responder em alemão, acho que por isso que eu falo poucas palavras, não pratiquei”.

O secretário de Educação conta que está pleiteando, junto ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o reconhecimento dessa língua como patrimônio cultural imaterial do estado brasileiro a partir da realização de inventário, para possibilitar a inclusão no INDL (Inventário Nacional de Diversidade Linguística). Dessa forma, a  língua Hunsrükisch poderá ser visualizada em diferentes dinâmicas históricas, sociais e políticas. Segundo ele, o Iphan comunicou informalmente que aceita o inventário, mas ainda não há documento oficial.

Vencida a etapa do diagnóstico linguístico e inventário, iniciará o processo da criação do sistema de escrita. O secretário explica que “há largo debate sobre propostas de escrita para esta língua”. No Rio Grande do Sul, por exemplo, há diferentes opções de escrita e ainda não é possível precisar quando essa etapa será concluída para então implantar o ensino nas escolas.

O alemão errado

Ainda não há dados preliminares precisos e suficientes para compreender o panorama geral da região, mas Fernando Dzubuk Futryk, 52, que trabalha na coleta de informações, afirma, que por quase todas as casas que passou onde há famílias descendentes destes imigrantes germânicos, todos da família compreendem a língua, mas a cada 100 pessoas entrevistadas, apenas dez conseguem falar. “Geralmente conhecem algumas expressões, poucas palavras e muita besteira”, brinca. Além disso, as pessoas que declaram que tiveram o hunsrückisch como primeira língua, geralmente tem mais de 45 anos.

Simonis lembra que certa vez recebeu a visita de um alemão, mas não conseguiu se comunicar com ele “porque o alemão deles é muito diferente”. Por causa dessa diferença, a língua, popularmente chamada de dialeto, a comunidade identifica como “nosso alemão”, e fora da comunidade também é conhecido como “alemão errado”.

A estudante Cleonice Richartz, 19 confirma: “a gente fala o alemão errado”. “Meus pais também não sabem me explicar como são as palavras, aprenderam ouvindo. Eles não estudaram, trabalhavam com agricultura e a fala era passada assim mesmo. Seria legal esse resgate”, opina. “Nunca tentaram colocar no nosso currículo. Nossa cultura ficou praticamente esquecida, e esse contato esta diminuindo a cada geração”, afirma a pedagoga Tania Regina Reitz Petri, 45.

O trabalho do recenseamento começou pelas comunidades mais interioranas de Antônio Carlos e outra percepção de Futryk é que muitos evitam falar quando estão fora do contexto familiar. O motivo é a lembrança que as famílias têm da época do governo de Getúlio Vargas, que proibiu o uso da língua no país: “Havia a lei do silêncio e até hoje eles (principalmente do interior) baixam a voz quando alguém de fora chega”.

Antes de fazer o trabalho em Antônio Carlos, Futryk viveu em Blumenau e comparando os dois municípios diz que a cidade do Vale tem essa identidade e cultura germânica mais presente no cotidiano. “Aqui não se manteve tanto a tradição e o que resta [a língua] estamos tentando preservar para que a partir dela se resgate outras coisas da cultura dos antepassados”, observa.

Reconstrução da própria história

Rosane Lima/ND
Fernando Futryk faz o recenseamento linguístico na cidade; a professora Elisangela ainda consegue dizer algumas expressões que aprendeu com os pais


A professora Elisangela Decker, 36, mesmo com receio de pronunciar errado, ainda consegue dizer algumas palavras e expressões soltas - que não se arrisca a escrever e não tem ideia de como é a escrita - e cantar uma música que o avô cantava para ela cujo significado nunca descobriu, recorda apenas das palavras e melodia.

Ela diz que o pai tem orgulho de ver os netos falar algumas palavras na lingua e lembra das características marcantes da fala germânica, “de tom forte e alto, quase como uma ordem de comando” que ouvia dos avós em diferentes situações, seja para tomar café, sair de casa ou outra atividade. Mas lamenta que isso não tenha se perpetuado como nas antigas gerações: “Foi se perdendo, eles [avós] morreram e não viram a gente falar alemão”.

Elisangela acredita que além de resgatar, esse trabalho pode promover um marco na comunidade local: a reconstrução da própria história. “O falar em alemão faz com que a gente valorize mais nossa história. Por muito tempo, por causa do sotaque puxado, fomos um pouco discriminados e seria uma superação. Além de varias características e qualidade, o alemão tem um palavreado bonito e podemos fazer usos dele de volta no nosso dia a dia”, afirma.

De acordo com o secretário de Educação, o programa inicialmente será destinado às crianças das escolas municipais para um ensino bilíngue. Mas há demanda da população adulta e, por isso, depois deverão planejar um programa de ensino para este público. Ele afirma que, embora a cidade seja, predominantemente, formada por descendentes de alemães, o único traço cultural marcante é a língua, patrimônio imaterial: “Atualmente poucos jovens falam a língua de nossos antepassados. Mesmo os mais velhos já perderam muito deste patrimônio de inefável valor. Por isso, considero que é urgente que façamos algo para resgatar a língua de nossos antepassados”. 

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