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Ladrão do Museu Nacional achava 'de bom grado' tirar obras do estado

Laéssio está preso por furto de raridades do Museu Nacional, no Rio de Janeiro

Folha de São Paulo
São Paulo (SP)
04/09/2018 às 14H31

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A foto de Laéssio Rodrigues de Oliveira, no melhor estilo "procura-se" do faroeste, tinha lugar de honra em algumas guaritas da Biblioteca do Museu Nacional. Vigilantes deveriam ficar espertos com aquele que ficou conhecido como o maior ladrão de livros raros do Brasil.

Por ora, nada a temer: Laéssio está preso desde março, condenado a dez anos e sete meses de prisão pelo furto de raridades de lá e também do Museu Histórico Nacional, os dois no Rio (ainda cabe recurso). Onde a Justiça vê crime, o réu vê um ato de nobreza  -e, vá lá, também de prazer. 

"Tirar as coisas do Estado... Eu acho de bom grado. Porque a gente tem um Estado tão desmoralizado que não cuida do acervo [...] que eu sinto é prazer de tirar essas coisas do ambiente público", afirma em "Cartas para um Ladrão de Livros", documentário de 2017 sobre sua trajetória. "Se eu tiro um livro em estado de penúria ali, em decomposição, o papel tá podre... Eu pego uma bosta daquela e vendo para um colecionador, e ele me paga às vezes um bom dinheiro, ele põe luva, perfuma o livro, higieniza, aquela frescurada toda", Laéssio continua em outro trecho da obra.

Laéssio Rodrigues de Oliveira em cena do documentário 'Cartas para um ladrão de livros' de Caio Cavechini e Carlos Juliana Barros - Folhapress/Divulgação
Laéssio Rodrigues de Oliveira em cena do documentário 'Cartas para um ladrão de livros' de Caio Cavechini e Carlos Juliana Barros - Folhapress/Divulgação


O grosso do acervo literário do museu ficou a salvo das chamas que engoliram, no domingo (2), o palácio fundado há 200 anos por dom João 6º -a biblioteca também fica na Quinta da Boa Vista, mas num prédio anexo ao principal. No filme dirigido por Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, contudo, há vislumbres do "Estado desmoralizado" a que o ladrão se referia.

As instalações que salvaguardam os livros podem ter sido poupadas do fogo, mas "era claro e evidente que o local necessitava de cuidados e reparos", diz à Folha de S.Paulo Barros. "A precariedade da infraestrutura não era tão nítida assim no setor de obras raras, que aparentemente estava em melhores condições do que os salões da biblioteca com as estantes cheias de livros. Essa área estava em condições piores. Lembro inclusive que havia baldes em corredores para dar conta das goteiras."

Foi daquele espaço que o então estudante de biblioteconomia surrupiou, 14 anos atrás, dezenas de gravuras de aves feitas no século 18 pelo naturalista francês Louis Jean Marie Daubenton e uma leva que incluía um livro de 1592 sobre indígenas latinoamericanos.

A certa altura do documentário, Laéssio diz que o "povão" não dá bola para coleções do tipo, que só comovem "meia dúzia de idiotas metido a besta", um rol de colecionadores "que têm preguiça de ler livro" e gostam mesmo é de folhear em busca de imagens. Sentir um livro raro na sua mão, descreve, "é orgástico".

Dos furtos mais mirabolantes que fez, extraiu sensação comparável a remover a Mona Lisa do Louvre "e ficar abraçando ela e dançando uma valsa".Graças à carreira criminosa, Laéssio tirou para dançar uma vida de pequenos luxos, dos ternos Armani aos passeios num Chrysler PT Cruiser com o ex-marido. Está em sua quinta passagem pela prisão. Sua história pode ter um efeito colateral positivo, o "efeito Laéssio", diz Barros. "Consiste na melhoria dos protocolos de segurança e de acesso a obras raras. Os furtos geraram um incremento nos sistemas de segurança. Não só em termos materiais, como instalação de câmeras de segurança, mas organizacionais também, como a restrição do acesso a obras raras a fim de evitar novos furtos."

E também na liberação de verbas. Após a gatunagem de Laéssio em 2004, o então ministro da Cultura, Gilberto Gil, foi pessoalmente ao diretor do Museu Nacional prometer a liberação de R$ 500 mil. "Vamos ver se o efeito incêndio destrava também o financiamento para segurança", afirma o codiretor Cavechini.

CRONOLOGIA DO CASO

2004 - Laéssio de Oliveira subtrai oito gravuras de Emil Bauch da Biblioteca Nacional, mas só o furto de quatro é notado 

nov.2004 - Ruy Souza e Silva compra um álbum de gravuras brasileiras na Maggs Bros., em Londres 

jan.2005 - Souza e Silva vende oito gravuras de Emil Bauch para o Itaú Cultural

2014 - O Itaú Cultural inaugura sua mostra permanente, exibindo seis das oito gravuras

2017 - A Biblioteca Nacional nota que outras quatro obras de Bauch haviam sido furtadas em 2004

2018 - Laéssio escreve à Folha de S.Paulo

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