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Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018
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Lado a lado, tradição e tecnologia causam impasse entre pescadores artesanais de Florianópolis

Barcos motorizados com capacidade de carga inferior a 10 toneladas ainda não são licenciados pelo Ministério da Agricultura, situação que reacende o conflito com pescadores artesanais

Edson Rosa
Florianópolis

Cobiçadas tanto por quem pesca, revende ou simplesmente as esperam para degustar, quando passam pelo litoral catarinense durante os três meses que completam o ciclo anual de desova e reprodução, as tainhas deixam, também, um rastro de indignação. Desta vez o motivo do descontentamento é a restrição a barcos motorizados com capacidade de carga inferior a 10 toneladas, sem porão de convés e equipados com redes de emalhe [caça de malha] de anilhas, ainda não licenciados pelo Ministério da Agricultura, situação que reacende  antigo conflito entre pescadores artesanais de Santa Catarina, em particular os instalados na região insular de Florianópolis.

Marco Santiago/ND
A pesca artesanal está liberada desde o dia 1° de maio

 

De um lado, estão 105 proprietários de botes motorizados ainda à espera do licenciamento do Ministério da Agricultura para pesca a partir do próximo dia 15, na segunda etapa da liberação da atual safra. Considerados artesanais, apesar da mecanização parcial das embarcações, eles argumentam que dependem exclusivamente da atividade e que duas semanas que permanecem fora do mar podem representar o fracasso da safra.

“Tainha é peixe de passagem, e o grosso dos cardumes já estão passando, enquanto estamos em terra vendo quem não é pescador profissional matar peixe”, diz Ailton Florindo, dono do “Maria Eda”, barco com 13 metros de comprimento, capacidade para 10 toneladas de carga e equipado com rede anilhada, guincho de içamento e casario com beliches e fogareiro para abrigo da tripulação – oito homens a bordo.

No outro extremo, 83 parelhas de canoas a remo e redes de arrasto, 38 instaladas na Ilha, resistem às inovações tecnológicas em nome da tradição da atividade histórica em Santa Catarina. Licenciadas desde 1º de maio, são embarcações entalhadas em tronco de garapuvu e movidas a remos de madeira, com as quais são realizados os cercos de praia nem sempre bem sucedidos, o que explica a baixa produção em relação às rede de caça de malha e, principalmente, à frota motorizada.

Para o presidente da Federação dos Pescadores de Santa Catarina, Ivo silva, 62, os dois métodos podem conviver pacificamente. Ele explica que a migração para a caça de malha, ocorrida há 40 anos, é uma forma de adaptação às dificuldades da atividade. “O pescador catarinense sempre foi muito criativo, sempre buscou alternativas de produção, e isso não reduz a importância histórica das redes de praia”, diz.

 

 

Embarcações centenárias na Lagoinha

Reduto das centenárias canoas de um pau-só, entalhadas em tronco de garapuvu e movidas a remos de madeira, a comunidade pesqueira da Lagoinha do Norte deixa de lado os conflitos causados pela concorrência com a frota motorizada e finge ignorar o próprio envelhecimento para manter os cercos de arrasto, tradição que dá “emprego” temporário a 35 homens cadastrados na associação formada por 26 redes credenciadas nesta safra. Apesar de a maioria ter outra atividade profissional no restante do ano, além dos aposentados, lá a produção ainda é dividida como antigamente, de acordo com a função de cada um dentro da parelha – patrões, vigias, remadores, chumbareiros e camaradas, mais o quinhão reservado a quem apareceu na hora certa para ajudar.

“Procuramos fazer como aprendemos com nossos pais, e manter a comunidade unida em torno da tradição”, diz um dos coordenadores da cooperativa, Alionésio Souto, 51, que sabe bem como manter a turma na linha. “É preciso ter rédeas curtas para deixar tudo em ordem”, completa Nésio, ex-vigia que mudou de função quando começou a enxergar cada vez menos e não esconde a preocupação com o futuro da atividade artesanal.

“A gurizada nova quer estudar, brincar no computador e estudar na cidade”, emenda. Bom de contabilidade, ele avalia em R$ 35 mil cada uma das parelhas [conjunto de canoa e rede] da praia, e em pelo menos R$ 15 mil o custo para manutenção dos apetrechos de uma temporada para outra.

Os conflitos com tripulantes de botes motorizados equipados com redes de emalhe , segundo Nésio, também ficaram para trás. “Houve tempo de troca de ameaças, agressões com pedras e foguetes, mas isso passou”, garante. Hoje, o problema apontado por ele é a pesca noturna praticada por barcos equipados com faróis potentes para identificar cardumes na costa, provenientes de Zimbros, em Governador Celso Ramos.

 

Fibra e jet ski substituem garapuvu na praia do surfe

Na Joaquina, berço e referência internacional do surfe local, tradição e tecnologia são aliadas na lida diária dos 22 pescadores listados pela associação na safra da tainha. Lá, a velha canoa esculpida em tronco de garapuvu  foi substituída por réplica de fibra de vidro, fabricada com proa elevada para enfrentar as altas ondas que deram fama à praia de mar aberto. Com oito metros de comprimento e seis remos, enquanto os cardumes não passam a “Inzibida” permanece com a rede embarcada, sobre carretão de madeira e rebocada ao trator que a puxa até a arrebentação sempre que é preciso apressar o cerco do arrasto. 

“O mar aqui é mais alto, e o pessoal está envelhecendo”, justifica o patrão José Gustavo Corrêa, 77, veterano que pesca na Joaquina desde a década de 1970 e se tornou amigos dos surfistas. “Gosto deles, são gente boa e respeitam as regras da tainha. Só entram quando o mar não está para peixe”, diz.

Outra inovação na parelha da Joaquina é a utilização de rede embarcada em barco inflável rebocado por jet ski, método repetido nas praias do Moçambique e da Galheta, mas questionado por tripulantes de botes de caça de malha ainda não licenciados para a safra deste ano na Barra da Lagoa.

“Este é mais um exemplo da falta de fiscalização e de critérios para licenciamento”, critica Edenir Nilson Francisco, 47, dono de barco com oito metros, motor de 18 cavalos e capacidade para três toneladas, ancorado num dos trapiches do canal da Barra da Lagoa à espera da licença para ir ao mar. Ele lembra que a liberação da safra em 1º de maio vale apenas para canoas a remo, o que seria descaracterizado pelo uso do jet ski, enquanto ele e colegas de redes caça de malha veem os cardumes passar.

Tainha, segundo ele, é peixe de passagem, a safra muda de acordo com as condições do clima e do mar. “Vivemos exclusivamente da pesca, mas na melhor safra do ano estamos parados. Enquanto isso pessoal das redes de arrasto se diverte nas férias de seus verdadeiros empregos na cidade”, diz.

 

PARELHA DE PRAIA

*Canoa de um pau-só, a remo, entre seis e oito metros de comprimento

*Quatro a seis remos de voga, de madeira

*Um remo de pá, de madeira

*Rede com aproximadamente 700 metros de comprimento

Tripulação

*Patrão

*Remadores

*Chumbareiro

*Vigia

*Camaradas

CAÇA DE MALHA

Barco motorizado, de seis e oito metros de comprimento e capacidade entre três e 10 toneladas de carga

Guincho opcional para içar redes d’água

Casario com cozinha e beliches

Sonar para medição de profundidade e navegação

Rádio de comunicação e luzes sinalizadoras

Redes de spera [caceio] ou anilhadas para cerco de cardumes em alto-mar

Tripulação

Patrão

Proeiro/vigia

Chumbareiro

Corticeiro

Paneiro

-

Calendário da safra

* 1º de maio a 31 de julho: Rede de arrasto de praia, com canoas a remo.

*15 de maio a 31 de julho: Rede de emalhe costeira de superfície, de espera, com embarcação para até 10 toneladas de carga, sem porão de convés, fora dos  limites de uma milha da costa.

*15 de maio a 31 de julho: Rede anilhada de emalhe costeira de superfície, com embarcação para até 10 toneladas de carga, sem porão de convés, fora de limite de uma milha da costa.

*1º de junho a 31 de julho: Rede de cerco de traineiras acima de 20 toneladas de carga, com embarcações industriais monitoradas pelo Preps (Programa de Rastreamento de Embarcações Pesqueiras por Satélite), fora do limite de cinco milhas da costa.

Fonte: Superintendência Federal de Aquicultura e Pesca em Santa Catarina

QUEM PESCA

Redes e canoas

Santa Catarina: 77 

Florianópolis: 38

Redes anilhadas

Santa Catarina: 77 botes licenciados na safra 2015 + 28 novos pedidos

Florianópolis: 40

Redes de emalhe/caceio

Frota motorizada com carga abaixo de 10 toneladas, sem porão de convés, nos limites de uma milha da costa, a 800 metros das praias e 300 metros dos costões

PLACAR PROVISÓRIO

Até sexta-feira (5)

16.400 kg   - 

 

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