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Sexta-Feira, 16 de Novembro de 2018
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Jovens indígenas de Imaruí saem da aldeia pela primeira vez e conhecem um pouco da cultura alemã

Passeio com turma de alunos de escola indígena serve de intercâmbio cultural entre grupo guarani de Imaruí e alunos de escola de São Martinho, no Sul do Estado

Edson Rosa
Florianópolis

Na aldeia Tekoá Marangatu [Terra da Harmonia], matemática parece brincadeira de criança. Em compensação, aprender a falar e escrever em português ainda é desafio até para os adultos que frequentam a pequena escola bilíngue de ensino fundamental, médio ou supletivo, vinculada à rede estadual de educação. Mesmo assim, a comunidade guarani que divide 76 hectares de mata atlântica na encosta banhada pela Cachoeira dos Inácios, área rural e limite entre Imaruí e Paulo Lopes, antecipou as comemorações do Dia Internacional do Índio [19 de abril] para conhecer um sotaque diferente: o alemão.

Marco Santiago/ND
Pequenos índios e professores na preparação para a viagem de 40 quilômetros entre o bucolismo do vale do rio Duna e São Martinho


Para crianças e adolescentes, o primeiro passeio de ônibus não significou apenas a primeira vez que saíram dos limites da aldeia. Foram cerca de 40 quilômetros entre o bucolismo do vale do rio Duna e São Martinho, município de colonização germânica a caminho do Sul do Estado. Lá, os indiozinhos e acompanhantes adultos foram recebidos com músicas e danças típicas da Alemanha, apresentadas numa língua aparentemente incompreensível por alunos e professores da Escola de Ensino Fundamental Rodolfo Rocha.

Acanhadas, as crianças guarani entenderam as boas vindas e retribuíram com danças e letras de músicas próprias. As mesmas que aprenderam com os mais velhos e professores guarani da escola fundada com a aldeia, em 1999, na localidade Riacho Ana Matias. “Foi muito bonito, uma troca de cultura e conhecimentos. Além disso, eles se divertiram bastante no passeio, viram novos lugares”, resume o diretor Ailton Silveira Junior, 31.

A atividade fora da aldeia também teve participação dos professores Daniel Crescêncio, 32, e Denise Adan, 42, de língua portuguesa; Simone Matias Oliveira, 38, de ciências humanas; Evandro Souza Alves, 26, matemática; da orientadora pedagógica Joana Paula Fagundes, 34; do coordenador de língua materna Afonso Cláudio Karaí Tukumbó, 26; e da extensionista social Noeli Catarina Pazetto, 49, da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural).

Aldeia compensa desapropriações para gasoduto

São 236 pessoas na aldeia, das quais 113 são crianças matriculadas na Escola Indígena de Ensino Fundamental Tekoá Marangatu, onde também têm aulas de informática. As famílias guarani mbya hoje em Imaruí foram levadas do Morro dos Cavalos e da Baixada do Massiambu, em Palhoça, e de aldeias do Paraná, Rio Grande do Sul a da Argentina. A área foi comprada para Funai em 1999, resultado de TAC (termo de ajustamento de conduta) pela desapropriação de terras para viabilização do traçado do gasoduto Bolívia-Brasil.

Segundo a extensionista social  Noeli Catarina Pazetto, agricultura de subsistência, com pequenas roças de batata doce, aipim e milho, e artesanato representativo da fauna característica da mata atlântica, são as principais fontes de renda da aldeia. A missão da Epagri no local é proporcionar melhorias nas condições de vida, com estímulo a práticas agrícolas como alternativa de sobrevivência e resgate cultural.

Para o cacique Ricardo Belute, 32, o intercâmbio com outras culturas é importante para ampliar o universo de conhecimento da comunidade. No dia a dia na aldeia, as crianças brincam de futebol e vôlei e têm contato com telefonia celular e as novas tecnologias. Sem se afastarem das principais características guarani, representadas pela pequena Jaciende Pereira Garai, de apenas três anos, sempre ao lado da mãe, Francisca Pereira, 28.

 Vocabulário: Guarani x português

Avaxi: milho

Mandiog: mandioca

Juruá: homem não-indígena

Karai: líder religioso

Kuaa: saber

Mbiguaçu: cobra grande

Mbo’e: ensinar

Mbya: o Guarani

Nhande: nós

Nhandereko: nossa maneira de ser

Nhembo’e: escola

Nhenderu: Deus

Nhandeva: parcialidade Guarani

Opy: casa de reza

Reko: vida

Tangara: pássaro

Tekoá: lugar bom para o Guarani viver

Tekoaxy: vida difícil

Fonte: Alexandra Serafim de Souza, mestre em educação

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