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Isolados ou em cadeia, os morros de Florianópolis desafiam trilheiros e realçam o natural

Em seus 424 quilômetros quadrados, a Ilha de San­ta Catarina tem 60 morros nomeados e alguns poucos que nunca tiveram direito a uma denominação oficial

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
21/07/2018 às 15H07

Há quem enxergue os morros como meros acidentes geográficos, obstáculos para as atividades agríco­las e da construção civil ou, com algu­ma boa vontade, ambientes naturais onde a ação humana é mal recebida. No outro lado estão as pessoas que palmilham esses lugares ermos, de mata fechada, como quem explora um tesouro, com todas as surpresas que eles podem conter. Em seus 424 quilômetros quadrados, a Ilha de San­ta Catarina tem 60 morros nomeados e alguns poucos que nunca tiveram direito a uma denominação oficial. Podem ser cumes isolados, cadeias de montes que tocam uns aos outros e maciços que contrastam com os baixios, as restingas, os mangues, as lagoas e lagunas, as dunas e praias, os rios, córregos e nascentes que são pródigos na região.

Morro do Assopra, no maciço da Lagoa: 328 metros de altitude - Flávio Tin/ND
Morro do Assopra, no maciço da Lagoa: 328 metros de altitude - Flávio Tin/ND


Quem lida de perto com o assun­to sabe, por exemplo, que o morro do Ribeirão é o mais elevado da Ilha, com 532 metros de altitude, e que muitos têm nomes de animais (morros da Capivara, do Badejo, das Aranhas), de pessoas (morros dos Marques, da Vir­gínia, dos Vitorinos, Manoel Lacerda) e de rios (morros do Rio Vermelho, do Córrego dos Naufragados, do Ribei­rão das Pedras, do Córrego Grande). Entre os que não foram batizados es­tão as três elevações de configuração semelhante que ficam entre as praias Mole e Joaquina, no Leste da Ilha. Olhar para todos eles e para a paisa­gem que se descortina do alto é uma experiência inesquecível.

Neste sentido, fazer uma cami­nhada com o trilheiro Rodrigo Dalmo­lin, 40 anos, um apaixonado por mato e natureza, é aprender muito sobre os morros da Ilha, que ele conhece como poucos. No ano passado, Dalmolin publicou, com o fotógrafo Danísio Sil­va, o livro “Trilhas e histórias da Ilha de Santa Catarina”, no qual esmiúça as peculiaridades de 20 caminhos que desvelam, mais do que trajetos de uso antigo entre as vilas e comunidades, a presença humana, vidas encontradas no percurso e a atividade de mateiros que conhecem cada metro quadrado como a palma da mão. Das trilhas para os morros, foi um passo. “As pes­soas me chamavam de maluco por­que ia enfrentar o mato sem trilhas e com muitas cobras”, conta.

Formado em filosofia, Dalmolin faz isso por prazer, por um projeto pessoal e também para deixar sua contribuição, ajudando outros a colocarem um tijolinho na grande obra que é preservar as riquezas naturais da Ilha. Para isso, além de registrar tudo o que pode, ele coloca no seu perfil no Facebook imagens e informações sobre os morros que visita. Junto com colegas e professo­res do curso técnico de agrimensura do IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina), ajudou a definir com pre­cisão, em 2017, a altura (213,817 me­tros) do morro da Coroa, no Sul da Ilha, que ainda não consta nos ma­pas da cidade.

Lendas e fantasias

Formada pela junção de ilhotas de um an­tiquíssimo arquipélago próximo à costa, a partir de séculos de deposição de sedimentos, a Ilha de Santa Catarina tem morros isolados, como os dos Ingleses e do Forte, separados de cadeias maiores por longas extensões planas de dunas e restingas. É possível que tenha havido atividade vulcânica, num passado também remoto, por­que foram encontrados vestígios de vidro vulcâ­nico no costão do Matadeiro, no Sul da Ilha. “Esse material é comum nos lugares onde o magma se resfria muito rápido, não dando tempo para a formação da rocha”, explica Rodrigo Dalmolin. Relato deixado por José Arthur Boiteux em 1915 fala de um “morro cônico” na mesma região, que o historiador citou como “vulcão da Ilha”.

Rodrigo Dalmolin, que conhece como poucos os morros da Ilha, e a incrível vista da Lagoa da Conceição - Flávio Tin/ND
Rodrigo Dalmolin, que conhece como poucos os morros da Ilha, e a incrível vista da Lagoa da Conceição - Flávio Tin/ND


Esta e outras “lendas” entram no que Dalmo­lin chama de “arqueofantasia”. Nessa categoria figuram as histórias da “lagoa encantada” no morro da Barra do Sambaqui e do suposto túnel entre o morro da Cruz e a Catedral. Há mapas dos séculos 17 a 19 que nomeavam praias, mas não morros, porque estes eram menos estraté­gicos do ponto de vista da defesa do território. Uma exceção era o morro da Granada, presente num mapa feito em 1778, logo após a invasão es­panhola da Ilha, localizado entre o Matadeiro e a Lagoinha do Leste. O último mapa da malha urbana, de 2005, não cita esse local. No cume do Assopra, perto de uma antiga rampa de para­pentes na Lagoa da Conceição, Dalmolin aponta para outros morros importantes ao redor, como o do Badejo e os montes do extremo Sul da Ilha.

Recomendações aos iniciantes

Com a autoridade de quem aprendeu muito com as trilhas, o mato e os mateiros, Rodrigo Dal­molin informa aos neófitos que “o cume sempre engana”, ou seja, dá a impressão de que está ali, mas fica mais adiante, pode ser uma grande pedra coberta por vegetação e tem topos que, pela cobertura espessa, não oferecem qualquer vista atrativa ao cami­nhante. Este é o caso do morro do Ribeirão, o mais alto de todos, coberto por mata densa. “Antiga­mente os morros eram pelados”, diz ele, citando o uso agrícola e pastoril. Na maior parte da Ilha, a vegetação se encontra em dife­rentes estágios de regeneração, porque o aproveitamento das encostas para o plantio (aipim, feijão, café, cana) foi abandona­da a partir dos anos 70.

O trilheiro sugere que qual­quer caminhada seja bem pla­nejada, pelos riscos que envolve e porque o trajeto costuma es­barrar em cercas e propriedades privadas. É por isso que ele usa GPS para se orientar e ganhar tempo. À pergunta “por que su­biu o topo de todos os morros de Florianópolis?”, ele responde: “Porque eles estão aqui”. Neste sentido, se inspirou na respos­ta do alpinista britânico George Mallory ao responder por que subiu até o cume do Everest: “Porque ele está lá”.

Todos os morros de Florianópolis por ordem de altitude - ND
Todos os morros de Florianópolis por ordem de altitude - ND


Curiosidades

  • O ponto extremo Norte da Ilha fica no morro do Rapa (184 metros de altura), o ponto extremo do Sul está no morro do Córrego dos Naufragados (329 metros) e o do Leste fica no morro dos Ingleses (195 metros).
  • Existem dois morros com o nome de Saquinho, um na Lagoa da Conceição, o outro na Lagoa do Peri.
  • Somada, a altitude dos 60 morros da Ilha chega a 17.696 metros, quase duas vezes a altura do Everest, que tem 8.848 metros.
  • Quando for incluído no novo mapa físico-político de Florianópolis, o morro da Coroa (que foi objeto de medição feita por alunos e professores do curso de agrimensura do IFSC no final de 2017), no Sul da Ilha, será o 61º morro nomeado da cidade.
  • Há morros da Ilha que são pródigos em nascentes e outros em cachoeiras: só no maciço da Lagoa há sete delas, a maioria próximas ao Itacorubi, no lado esquerdo da rodovia.
  • O morro das Canas, o mais baixo da Ilha (75 metros), tinha um caminho cerrado por onde os nativos transportavam sua produção a cavalo ou carro de boi em direção à Cachoeira do Bom Jesus. Ali também está a prainha do Rosa, que desaparece nas horas de maré alta.

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