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Terça-Feira, 13 de Novembro de 2018
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Inquérito tem indícios de que crianças sofreram violência sexual no lar de Duduco

Menores voltaram para casa mesmo após denunciarem abusos sexuais, em procedimento que não é considerado adequado

Redação ND
Florianópolis
Débora Klempous/ND
Débora Klempous/ND
Residência na Rua José Boiteux, onde o protetor praticaria os abusos, segundo as denúncias

 

Maira Marchi Gomes é psicóloga policial na 6° DP (Delegacia de Polícia) da Capital. No dia 14 de agosto do ano passado relatou seu parecer técnico para delegada Juliana Renda Gomes sobre um casal de irmãos que foi encaminhado para interrogatório, alertando que havia indícios de que as crianças sofreram violência sexual, sem vestígios de mentiras na narrativa. Esse é apenas um dos relatos que integram o inquérito a que o Notícias do Dia teve acesso e investiga as denúncias de abuso contra Nilson Nelson Machado, o Duduco.

Os menores são filhos de criação de Duduco e que, depois que depuseram contra o pai adotivo na presença de policiais, voltaram para o “Lar do Tio Duduco”, como se nada tivesse acontecido, e ficaram lá por mais de oito meses. Somente no último dia 4 a Justiça interviu no caso e encaminhou os menores para abrigos públicos de Florianópolis, assim como outros cinco menores que viviam na casa fundada em 1978 e foram retirados de lá três dias depois.

O correto, segundo uma delegada com vasto históri o na defesa dos menores em Santa Catarina que conversou com o ND - e não quis se identificar para não provocar desavenças com os colegas-, seria o encaminhamento imediato com medida protetiva aos abrigos públicos. Mas por falha do Conselho Tutelar ou da 6ª DP as crianças voltaram para as mãos do suposto agressor     

Denuncias não impediram volta pra casa

 O delegado titular da 6ª DP,  Renato Guedes, e o conselheiro Renato Teodoro, que seria o responsável pelo caso no Conselho Tutelar de Florianópolis, não foram localizados ontem pela reportagem. Nenhum dos dois retornou as ligações para responder aos questionamentos de como as crianças voltaram para a casa de quem acusavam de abusos. A delegada Juliana Gomes, que comanda a investigação na 6ª DP, está em licença médica. Nenhum dos cinco conselheiros estava na sede do Conselho Tutelar de Florianópolis ontem à tarde.

São estas pessoas que poderiam responder de quem foi o erro cometido no dia 14 de agosto do ano passado. Quando João*, 13, depôs que foi abusado quatro vezes, a partir dos 11 anos.

Na página 63 do inquérito a que o ND teve acesso, a psicóloga transcreve a conversa que teve com o menino a delegada. “A justificativa para o chamado sempre foi de que lhe daria “uma coisa para comer”. Apenas em um deles, a justificativa foi de que precisava de alguém para lhe fazer uma massagem nas pernas. A criança inibe  e para contar o que teria acontecido, chegando a se expressar sem palavras (verbaliza “então ele...”, e continuava seu discurso, como se a signatária devesse concluir o que ele quis dizer com aquela entonação). Por fim, a criança veio a dizer que Duduco “colocou o p...na b...”.

João contou que também foi abusado por um parceiro de Duduco, chamado Jailson, que tinha 22 anos na época, e que, além disso, ganhava dinheiro para dar beijos no pai adotivo.

Já Vanessa*, 15, demonstrou dificuldade para falar, analisada pela psicóloga como possível defesa para não precisar relembrar em detalhes a violência sofrida, mas confirmou que Duduco deixava a chave do quarto das meninas para que um dos filhos de guarda de Duduco - fosse lá durante a noite e “passasse a mão nelas”.

No final da conversa as crianças confessam às profissionais que só concordaram em depor porque sabiam que não voltariam para casa do Tio Duduco. Enganaram-se. (* nomes fictícios)   

Duduco admite em vídeo relacionamento

Marco (*). também foi criado como filho de Nilson Nelson Machado. Viveu no lar dos 7 aos 20 anos. Em depoimento na 6ª DP ele negou qualquer envolvimento sexual com Duduco, mas num vídeo gravado em sigilo que integra o inquérito e ao qual a reportagem também teve acesso, Duduco desmente o filho.

“Aí quando eu me separei do Beto(*), o Marco começou a atravessar o meu caminho. Ele não era criança. Ele não tinha 10, nem 11, nem 12. Ele já tinha 16 anos”, fala na gravação. E prossegue: “Eu nunca quis o G (irmão de Marco) lá na minha casa. Sabes por quê? (...) Eu sei que ele ia estragar meu casamento. O meu relacionamento lá”. Duduco nega todas as acusações de pedofilia.  

Menores vão morar com a irmã 

Ana Cláudia da Silva, 21 anos, é irmã de  João e Vanessa (nomes fictícios), e como  eles denunciou no inquérito os abusos que sofreu no Lar do Tio Duduco. Ana residiu nacasa do ex-deputado dos 7 aos 14 anos. Um  “período difícil”, segundo ela, no qual foi violentada por Marco(*). Ana pedia desde 2011 na Justiça a guarda dos irmãos. Assim que o inquérito começou, mas somente agora teve o consentimento temporário.

“Duduco pagava para os meninos residentes na casa para abusar sexualmentedas meninas”, denuncia na página 49 do inquérito, que propiciou o que Ana mais desejava: a guarda dos irmãos. Ontem, os dois foram transferidos do abrigo público para sua casa, no Centro de Florianópolis.

Ana também depôs que passou fome no Lar Tio Duduco, que muitas vezes comeu farinha com açúcar e que o tratamento dados aos meninos era bem diferente e por isso, saiu de lá se sentindo inferior.

Confira trechos do inquérito policial

 

Polícia Civil/Divulgação
Polícia Civil/Divulgação
1: Menina denuncia que Duduco permitia ao filho dormir com meninas. 2: Relato de um dos menores confessa violência sexual. 3: Relato de outro menor relata abusos de Duduco. 4: Psicólogas concluem que crianças sofreram abusos.
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