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Índios abrigados em terminal desativado de Florianópolis aguardam casa de passagem

No Dia do Índio, escola de Florianópolis realizou atividade com Kaingangs que estão de passagem pela Capital; na Grande Florianópolis, demarcação de terras em Biguaçu e Palhoça ainda não saiu do papel

Fábio Bispo
Florianópolis
19/04/2018 às 22H14

O mato (iangrë em kaingang) está se acabando, diz o canto, que continua: “Acabou a caça e a abelha já não dá mais o mel”. A narrativa triste rompeu um dos poucos momentos de silêncio naquela roda, quando os mais pequenos se deram conta que o índio real não é tão igual àquele da imagem genérica do caderno de desenhos. No centro da roda, Leandro Inácio, 40 anos, respondia pacientemente um a um os questionamentos das crianças “brancas”: “De onde vem a tinta que vocês usam?”, “Porque vocês são tão bons pescadores?”, perguntavam impressionados durante atividade na tarde desta quinta-feira (19) no pátio do Colégio Guarapuvu.

Desativado desde 2005, Terminal de Integração do Saco dos Limões abriga índios - Flávio Tin/ND
Desativado desde 2005, Terminal de Integração do Saco dos Limões abriga índios - Flávio Tin/ND


Até que alguém tocou na ferida. “Como vocês vivem naquele lugar, sem paredes, não parece uma casa de índio”, disse um dos pequenos se referindo ao abrigo improvisado no Tisac (Terminal de Integração do Saco dos Limões), onde atualmente vivem 20 famílias.

Em 1.500, quando os portugueses aportaram por aqui, acredita-se que a população indígena na Amazônia chegava a 8 milhões de indivíduos. Atualmente, quase 900 mil pessoas declaram-se indígenas, em um total de 305 etnias, que falam 274 línguas diferentes, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas).

Na Grande Florianópolis, por exemplo, índios da Aldeia Itaty, no Morro dos Cavalos, e da terra indígena Ygua Porã, em Biguaçu, ambos da etnia guarani, ainda não tiveram suas terras homologadas pelo governo federal. No Morro dos Cavalos, cujo processo de demarcação iniciado em 1993 foi concluído em 2008, o próprio governo do Estado foi ao STF (Supremo Tribunal Federal) pedir anulação da demarcação pedindo para tornar sem efeito a portaria 177 do Ministério da Justiça. O caso ainda aguarda julgamento.

Já os índios kaingang alojados no Tisac vivem a incerteza de como serão abrigados no próximo ano. Em setembro de 2017, a Justiça Federal determinou que a Prefeitura de Florianópolis, a Funai (Fundação Nacional do Índio) e o Estado construíssem uma casa de passagem para atender os indígenas durante a vinda deles ao litoral.

Em 20 de novembro, quando muitos indígenas já estavam na Capital, a liminar que obrigava a casa de passagem foi derrubada no TRF4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), revelando mais uma vez o aparente descaso com as questões indígenas. A situação acabou amenizada em 6 de dezembro, após o TRF4 atender a procuradora Analúcia Hartmann e determinar a formação de um grupo de trabalho interinstitucional e a disponibilização de um local adequado para abrigá-los até a construção da casa de passagem.

Prazo para índios deixarem o Tisac termina em maio

Após o TRF4 reformar a decisão e entender a situação de vulnerabilidade dos indígenas diante da inércia dos envolvidos para a construção da casa de passagem, pelo segundo ano consecutivo, os indígenas das tribos xokleng e kaingang acabaram alojados no Tisac, terminal que está desativado desde 2005. Na temporada de verão, cerca de 60 famílias (200 pessoas) chegaram a passar pelo local.

O prazo para os kaingangs deixarem o terminal encerra no dia 30 de maio, mas até o momento não há nenhuma sinalização para construção de uma casa de passagem ou como será a vinda deles na próxima temporada. “O que queremos é um espaço para podermos trabalhar e vender nosso artesanato. Nós só viemos para cá depois de muita luta e muito protesto. Estávamos embaixo de um viaduto, sem nenhuma condição”, conta Leandro Inácio, que representa os indígenas da Aldeia Condá, de Chapecó. Também permanecem no local índios do Rio Grande do Sul e do Paraná.

>>Justiça cobra solução para inígenas vivendo sob viadutos da Capital

“Queremos uma garantia de que no ano que vem poderemos voltar para cá ou para algum lugar seguro. Ano passado ficamos aqui, estava tudo bem, mas depois que saímos o local foi depredado e invadido. Ninguém cuidou nesse tempo”, emenda Inácio. Ele lembra ainda que foi prometido que os índios teriam passagens de ônibus gratuitas para poderem se deslocar até o Centro para venderem seus artesanatos, mas o acordo não foi cumprido.

No dia 27 de abril, o MPF (Ministério Público Federal) deve realizar uma nova reunião com Prefeitura de Florianópolis, Funai, governo do Estado e lideranças indígenas para tratar sobre a casa de passagem de Florianópolis.

Atividade escolar para quebrar estigmas

A própria história indígena poderia ser algo inverossímil, se não fosse a existência desses silvícolas a nos lembrar dos séculos de opressão e violência enfrentada nas inúmeras tentativas de os subjulgar, escravizar ou exterminar. Mas a verdade é que eles estão aí, mantendo vivos costumes e tradições, muitos deles inclusive incorporados à nossa vida cotidiana.

Atividade realizada nesta quinta-feira no Colégio Guarapuvu permitiu que alunos conhecessem os índios - Flávio Tin/ND
Atividade realizada nesta quinta-feira no Colégio Guarapuvu permitiu que alunos conhecessem os índios - Flávio Tin/ND


E foi pensando em quebrar os estigmas que rondam a figura do índio que o Colégio Guarapuvu, no Saco dos Limões, decidiu fazer uma atividade no Dia do Índio com os próprios indígenas que vivem a poucos metros da unidade de ensino. A data também marcou a entrega de donativos e brinquedos arrecadados entre as famílias dos estudantes. “O nosso objetivo é o de criar esse sentimento de empatia e respeito ao próximo. Queríamos sair daquela imagem do índio do livro e mostrar para eles que são pessoas como nós”, contou Rosane D’Alascio D’Amoreira, diretora do colégio.

Como ensinamento, Rosane acredita que os alunos carregarão consigo a imagem do índio real, que vive na cidade, ou na mata, e que assim como os demais deve ser respeitado. Ela lembrou que atitudes assim podem evitar casos de crime de ódio e agressões deliberadas contra indígenas.

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