Publicidade
Quinta-Feira, 20 de Setembro de 2018
Descrição do tempo
  • 23º C
  • 18º C

Ilha do Carvão: a história da ilha que serviu de base para a ponte Colombo Salles

Documentário de Fábio Brüggemann conta o que ficou de memória da ilha em forma de fotografias, reportagens e audiovisuais

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
04/08/2017 às 20H02

Era uma pequena ilha que foi engolida por outra, maior e com ares expansionistas, a ponto de o desaparecimento físico ser seguido por seu análogo, talvez mais dramático, que é o esquecimento definitivo, inexorável, da memória coletiva. Num texto inspirador, o poeta fala em “desaparição” e na estranha sensação de chegar à extinta ilhota a pé, porque o mar foi tomado pelo aterro e as rochas remanescentes serviram de base para um dos pilares da ponte que acalmou, por algum tempo, o ânimo dos motoristas da cidade. Dennis Radünz, o poeta, e Fábio Brüggemann, artista de múltiplos voos, transformaram a saudade de uma ilha que nunca conheceram num pequeno filme que foi exibido no último FAM (Florianópolis Audiovisual Mercosul) e voltará a ser mostrado nos próximos dias na Assembleia Legislativa, numa audiência pública que vai discutir a questão do patrimônio cultural.

Pequena ilha era utilizada para receber cargas de carvão - Reprodução/Ilha do Carvão/ND
Pequena ilha era utilizada para receber cargas de carvão - Reprodução/Ilha do Carvão/ND


Veja mais fotos na galeria de imagens

A Ilha do Carvão, que deu nome ao documentário de oito minutos, existiu até meados da década de 1970 na baía Sul e subsiste como vaga lembrança para os antigos moradores de Florianópolis. Ela abastecia de carvão os navios a vapor que usavam o porto da cidade e fazia parte da paisagem local, compondo uma linha reta que começava no cais Rita Maria e terminava no pico do Cambirela, em Palhoça.

O que restou está nos arquivos e acervos públicos ou particulares, em forma de fotografias, audiovisuais e reportagens de jornal. E, também, na cabeça dos que a conheceram e no imaginário daqueles que apenas ouviram relatos sobre ela. “Assim como o bar Miramar, ela poderia ter sido poupada”, diz o artista plástico Átila Ramos, que se inspirou na ilha para fazer uma pintura tão fiel que contempla até um pé de coqueiro que aparece nas fotografias.

A função de entreposto de abastecimento terminou quando o porto de Florianópolis, afetado pelo assoreamento das baías e pela política federal de priorizar o transporte rodoviário, perdeu movimento e foi desativado. No entanto, velhas fotos da cidade denunciam a presença da ilhota, com seu prédio de um piso em forma de castelinho. “Não havia noção de preservação da história, tanto que de todo o conjunto da orla só sobrou o prédio da antiga fábrica de pregos da Cia. Hoepcke”, afirma Átila. Outro testemunha ocular, o professor e pesquisador João Batista Soares, lembra de ter visto num jornal a foto da inauguração do edifício, com autoridades e militares em traje de gala e um vento nordeste que podia ser medido pelo forte tremular das bandeiras.

A crônica manuscrita que virou filme

O documentário “Ilha do Carvão” começou a nascer em 2013, quando o escritor Dennis Radünz enviou para alguns conhecidos, pelo correio, crônicas manuscritas sobre “temas do mundo extrafísico”, como define. Uma delas falava da ilhota, não no sentido da nostalgia e da perda, mas da memória, do que não se vê – “assim como ocorre com os mendigos da área central, que a cidade finge não enxergar”, compara.

Um dos destinatários foi Fábio Brüggemann, jornalista, editor e escritor, que no primeiro momento engavetou o material. “Nunca respondi porque não sabia muito bem o que fazer com os textos”, conta. No ano passado, Brüggemann teve a ideia de produzir um curta-metragem a partir da crônica, com o próprio Radünz atuando e narrando apoiado por imagens de arquivo.

O texto original fazia parte de um projeto maior, o “88010-500” (número do CEP da rua em que Radünz reside, no Centro de Florianópolis), onde também há crônicas sobre a linha férrea que corta a cidade de Jaraguá do Sul e o risco de desaparecimento de um bairro inteiro em Navegantes, no litoral Norte do Estado. Elas se coadunam com o que o autor chama de “jornalirismo”, ou seja, referências ao mundo concreto com abordagem mais literária.

Nessa linha, ele já escreveu sobre oceanos em miniatura espalhados pelo interior catarinense, transformando o presente e a realidade pela via da ficção. O escritor define “Ilha do Carvão” como um conto que trata a desaparição como algo negativo e que também ameaça outras ilhas no entorno da ilha maior, na baía Norte e no mar aberto.

Dinheiro curto e uma ideia na cabeça

Quando escreve sobre o não existente, o escritor assume uma atitude política, porque se permite fazer uma crítica na qual a literatura opera como um jornalismo radical. “A geografia funciona como espaço alternativo onde vivemos a política”, declara Dennis Radünz. A política também aparece quando as decisões são unilaterais – “como acontece agora com os direitos trabalhistas”, compara o poeta.

“Dar cabo à ilhota foi uma decisão contra a qual pouco se podia fazer”, conta o pesquisador João Batista Soares. Entre as embarcações abastecidas ali, recorda ele, estavam os navios Anna, Hoepcke e Max, da Cia. Hoepcke, poderosa companhia que mantinha indústrias, casas comerciais e ampla atividade naval na cidade, no Estado e no país. Assim como a companhia e o porto, o terminal de carga de madeira no lado do Continente desapareceu sem deixar vestígios.

Ilhas que persistem ou desaparecem sempre renderam boas histórias – de Platão, Hermann Melville e a lenda da Atlântida até a moderna literatura. No caso da Ilha do Carvão, o fato de não existirem rastros do acidente geográfico é um estímulo a mais para quem, como Radünz, dá aulas livres de literatura em distintas regiões do país e cria poéticas que afrontam a realidade. Aqui, o cinema é uma extensão da prosa e da poesia. Por isso, talvez, ele seja tão fértil como roteirista cinematográfico, colaborador e pesquisador que engendra sempre novos projetos culturais.

Boas ideias para filmes não são um problema para o diretor Fábio Brüggemann, e se nem tudo vira cinema é porque falta dinheiro. No caso de “Ilha...”, tudo foi feito a quatro mãos, com os parcos recursos próprios e com Radünz atuando e narrando a partir do próprio texto que inspirou o documentário. “Dennis é um ótimo narrador”, diz Brüggemann. Mais do que se referir ao local, a trilha sonora de Alberto Heller (“lAbirinth”) reforçou a ideia de desaparecimento da ilha.

Pouco apreço pelo patrimônio

Sempre que pode, independente do tema em debate, o artista Átila Ramos condena a demolição do bar e café Miramar, devorado na primeira metade dos anos 70 pelo aterro que depois serviu de base para a construção das pontes Colombo Salles (um de seus pilares foi assentado sobre a ilha do Carvão) e Pedro Ivo Campos. Ele acompanhou a aproximação da areia do boteco que era o paraíso dos boêmios da cidade e que, como a ilha desaparecida, podia ter pouco valor estético e arquitetônico, mas permaneceu na memória afetiva dos que testemunharam sua existência. “O Miramar foi derrubado em uma noite”, recorda Átila.

Nem as campanas de manezinhos mais empedernidos, como o jornalista Aldírio Simões, resolveram. “Se escavarem um pouco, vão encontrar a escadaria que estava no nível da rua”, desafia o artista.

Crítico do descaso com a cultura da cidade, Fábio Brüggemann é outro que condena os gestores do que chama de “Nossa Senhora dos Aterros”. Ele dispara: “Se você prestar atenção no movimento da elite local, verá que ela ocupou o Centro e depois o abandonou, ocupou Coqueiros e fez o mesmo, foi para a Beira-Mar e está abandonando também, com fluxo para Jurerê. Quando abandona, nada mais nasce no lugar”.

      Publicidade

      3 Comentários

      Publicidade
      Publicidade