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Há 60 anos nascia a Bossa Nova, que revolucionou e levou a música brasileira para o mundo

Santa Catarina também contribuiu com o gênero: o compositor Luiz Henrique Rosa, nascido em Tubarão, fez parte do panteão de nomes daquele glorioso período

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
13/07/2018 às 22H30

O Brasil é repleto de datas que a história consagrou, mas há anos que são atípicos, anômalos até, pelo exibem a um simples passar de olhos. Com 1958 foi assim – o país conquistou sua primeira Copa do Mundo, ganhando em autoestima e deixando para trás aquilo que o dramaturgo Nelson Rodrigues chamou de “complexo de vira-latas”, e viu surgir a Bossa Nova, ritmo que revolucionou e expôs a música brasileira ao mundo como nunca havia acontecido antes. Bem ao contrário de outros, neste caso Santa Catarina também contribuiu com seu quinhão. Sem ter se projetado como os grandes ícones do movimento, até porque era um sujeito desprovido de ambições, o compositor Luiz Henrique Rosa, nascido em Tubarão, fez parte do panteão de nomes daquele glorioso período.

O compositor e violonista João Gilberto, considerado o criador da Bossa Nova, em show com a filha Bebel - Lewy Moraes/Folhapress/ND
O compositor e violonista João Gilberto, considerado o criador da Bossa Nova, em show com a filha Bebel - Lewy Moraes/Folhapress/ND


Agora sexagenária, a Bossa Nova não é unanimidade, porém o impacto que provocou e a repercussão internacional que teve dobram qualquer resistência ao gênero. E o mês de julho (mais precisamente o dia 10) de 1958 marcou a estreia oficial do movimento, porque foi quando João Gilberto entrou no estúdio para gravar o compacto “Chega de saudade” e instaurar definitivamente um jeito de cantar e tocar violão que deu razão a Tom Jobim. “A música brasileira nunca mais seria a mesma”, disse o coautor (com Vinícius de Moraes) de “Garota de Ipanema”. Para esquentar o caldo, naquele ano o DKW-Vemag saiu às ruas com 50% das peças construídas no país e Juscelino Kubitscheck estava erguendo a nova capital federal. Um país moderno, baseado na industrialização e na urbanização crescente, já era um sonho possível.

O novo ritmo consistia em uma batida do violão com notas que avançam e atrasam, bateria suave, músicas cantadas como se fossem uma fala, em tom baixo (quase sussurrado) e coloquial. Um dos detratores da Bossa, o crítico musical José Ramos Tinhorão, definiu o estilo como a “multiplicação das síncopes, com descontinuidade do acento rítmico da melodia e do acompanhamento”. Até hoje se discute se o movimento foi uma rendição ou uma reação aos ritmos norte-americanos, se a sua principal matéria-prima foi o samba ou o jazz, ou se juntou os dois. O fato é que o gênero catapultou João Gilberto à fama e ao renome mundial – e ele é um dos poucos sobreviventes daqueles anos dourados.

Uma síntese dos ritmos brasileiros

No livro “Feliz 1958: o ano que não devia terminar”, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos conta que Maysa (“Meu mundo caiu”), uma das estrelas do momento, e outros intérpretes consagrados começaram a dividir terreno com a Bossa Nova, considerada o estilo dos ricos e bem-nascidos do Rio de Janeiro. Nas boates e no eclético cenário musical carioca, que conciliava o brega vindo da periferia, o rock emergente e caras novas como Roberto Carlos e Tim Maia, João Gilberto desembarcou incógnito, alguns anos antes, mas logo conquistou os jovens da Zona Sul, uma elite dada a ouvir Frank Sinatra e a orquestra de Glenn Miller. O assunto já rendeu livros, reportagens sem número, crônicas e comentários nos quatro cantos do planeta, até porque a Bossa foi apadrinhada e largamente difundida pelos Estados Unidos, potência que disseminou o american way of life por meio da música e do cinema no século 20.

Tom Jobim e Frank Sinatra gravaram juntos um disco com clássicos da Bossa Nova - Manchete/Reprodução/ND
Tom Jobim e Frank Sinatra gravaram juntos um disco com clássicos da Bossa Nova - Manchete/Reprodução/ND


Baiano de Juazeiro, com 27 anos de idade João Gilberto teria conseguido, de acordo com alguns historiadores de música, fazer uma síntese dos ritmos brasileiros, entre eles o samba-canção, sem ter procurado isso, propriamente. Com a particularidade de economizar elementos, como já haviam feito a nouvelle vague no cinema, Oscar Niemeyer na arquitetura e a horda de poetas concretos que tentavam se impor no cenário literário da época. Depois, ele gravou “Desafinado”, uma galhofa de Tom Jobim e Newton Mendonça que brincava com as críticas ao jeito despojado de cantar de Gilberto e sua trupe.

No livro “Chega de saudade”, o jornalista Ruy Castro faz uma radiografia da Bossa Nova, da infância de João Gilberto no interior da Bahia aos festivais de música dos anos 1960, que mexiam com um público amplo, via televisão. Quando a Jovem Guarda e figuras como Gilberto Gil e Caetano Veloso chegaram, quase toda a geração da Bossa estava fora do país – a maioria em Nova York, onde teve a adesão de Ella Fitzgerald, Stan Getz e muitos outros. Tom Jobim foi convocado para cantar com Frank Sinatra (tão popular quanto os Beatles) e o ritmo gestado no Rio ganhou o mundo de vez. Com os festivais e seus violões voadores, em meados daquela década, o Brasil foi se despedindo do gênero, que, “sentindo-se fora de casa, pegou seu banquinho e seu vilão e saiu de fininho”, nas palavras de Ruy Castro.

O tubaronense mais manezinho da Ilha

Florianópolis ainda não tinha aterros e congestionamentos em 1949, quando Luiz Henrique Rosa, então com 11 anos, chegou com a família, vindo de Imbituba. Ele se enturmou logo, adotou a cidade e mais tarde se designou, sem o tom pejorativo que a expressão carregava, o primeiro “manezinho da Ilha”. Músico com talento nato, sempre acompanhado de um violão, foi trabalhar na rádio Diário da Manhã, recém-inaugurada, ao completar 20 anos de idade. Ali, ganhou um programa para chamar de seu e aproveitou para tocar as próprias composições e sucessos de Pat Boone, Elvis Presley, Billy Eckstine e Nat King Cole. Tanto o que compunha quanto o que tocava na rádio trazia os elementos que constituíam a Bossa Nova, então engatinhando no Rio de Janeiro com Tom Jobim e João Gilberto.

Luiz Henrique Rosa com a atriz e cantora Liza Minelli - Website oficial/ND
Luiz Henrique Rosa com a atriz e cantora Liza Minelli - Website oficial/ND


"Se o amor é isso”, composta em parceria com Cláudio Alvim Barbosa, o Zininho, foi a primeira música que gravou, em 1960, como integrante da banda do pianista gaúcho Norberto Baldauf, que já havia contado com os serviços de Elis Regina antes do estrelato. No ano seguinte, Luiz Henrique Rosa se mudou para o Rio de Janeiro, onde fez shows no nightclub Beco das Garrafas, um dos QGs da Bossa Nova, e gravou o primeiro compacto. Depois do sucesso nacional de “Samba, sambou”, “No balanço do mar” e “Vou andar por aí”, o tubaronense embarcou em 1965 para os Estados Unidos, onde conviveu com grandes feras da música local e com brasileiros como Sivuca, Hermeto Pascoal, João Gilberto e Airto Moreira.

Foi durante esse período que Luiz Henrique conheceu a cantora e atriz Liza Minelli, que trouxe a Florianópolis em 1979. Ele já havia retornado à Ilha em 1971, e ainda lançou o disco “Mestiço”, em 1976, com faixas gravadas no Rio e em Hollywood. Morreu em 9 de julho de 1985, aos 46 anos, num acidente de trânsito na rua Deputado Antônio Edu Vieira, no Pantanal. Há três anos, seus filhos colocaram no ar o site luizhenriquerosa.com, com todas as músicas, textos e reportagens sobre ele, fotos, vídeos e depoimentos de críticos e outros compositores – Vinícius de Moraes dizia que “existe um gênio internacional em Luiz Henrique”. “Seu sonho era projetar os músicos da terra, que tinham grande potencial”, diz o filho Raulino Rosa, um dos responsáveis pelo site.

CURIOSIDADES

  • Em maio de 1958, Elizete Cardoso lançou o álbum “Canção do amor demais”, que por incluir a música “Chega da saudade” foi citado como a estreia oficial da Bossa Nova. No entanto, mesmo com a presença de João Gilberto no violão em duas faixas, ele não continha todos os elementos do gênero e teve divulgação restrita, perdendo o status de precursor do movimento.
  • O ano de 1958 também foi marcado por mudanças importantes na televisão brasileira, com o predomínio dos programas de variedades e música, feitos em parceria das emissoras (como a TV Rio) com agências de publicidade para vender produtos, como eletrodomésticos. Estavam em evidência as figuras de Flávio Cavalcanti, Hebe Camargo e Chacrinha.
  • O humor estava em alta na televisão, e ganhava público com as performances de Ronald Golias, Zé Bonitinho, Manoel da Nóbrega, José Vasconcellos e Max Nunes.
  • No teatro, o fenômeno eram as peças de Nelson Rodrigues, com destaque para “Os sete gatinhos”, que falava de estupros, incestos e prostituição, escancarando a patologia das relações familiares. O público, a crítica e a imprensa reagiram muito mal ao espetáculo.
  • No mesmo ano estrearam “Eles não usam black-tie”, de Gianfrancesco Guarnieri (em São Paulo), “O santo e a porca”, com Cacilda Becker, e peças com Maria Della Costa e Tônia Carrero.
  • Foi na esteira da Bossa que surgiram ou se consagraram figuras como Vinícius, Tom Jobim, Nara Leão, Baden Powell, João Donato, Marcos Valle, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Toquinho, Edu Lobo, Francis Hime – e muito mais gente que a lista não caberia nesta página.
  • As mulheres do ano: Maysa (pelas músicas e escândalos), Maria Ester Bueno (campeã de duplas em Wimbledon), Rachel de Queiroz (Prêmio Machado de Assis), Adalgisa Colombo (Miss Brasil), Dolores Duran (cantora).
  • Entre os ícones de 1958 estavam o maiô Catalina, o bambolê, a lambreta, a camisa Volta ao Mundo, o cigarro com filtro, a escada rolante e a figurinha carimbada de Bellini (o capitão do time campeão na Suécia).
  • Alguns produtos disponíveis nas drogarias: Sonrisal, sabonete Eucalol, Glostora, Cashmere Bouquet, leite de rosas, pastilhas de Magnésia Bisurada.

Chega de saudade
Tom Jobim

Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade
A realidade é que sem ela não há paz
Não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Mas se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim

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