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Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2018
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Há 150 anos, em Buenos Aires, morria Álvaro de Carvalho, o primeiro dramaturgo catarinense

Álvaro Augusto de Carvalho, tenente da Marinha, dedicou parte da vida à atividade literária e deixou três peças de teatro para a posteridade

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
Reprodução/ND
Álvaro de Carvalho morreu quando participava da Guerra do Paraguai


Um nome ilustre das letras catarinenses está na lista das vítimas da Guerra do Paraguai. Há exatos 150 anos, no dia 5 de setembro de 1865, morria em Buenos Aires o dramaturgo Álvaro Augusto de Carvalho, tenente da Marinha que dedicou parte da vida à atividade literária e deixou três peças de teatro para a posteridade. Ele não pereceu em combate, porque foi afetado pela febre tifóide antes da batalha do Passo de Cuevas, no rio Paraná (da qual ainda chegou a tomar parte), e precisou ser transferido para a capital argentina para tratamento. Na época, o tifo era incurável e interrompeu tanto sua participação no conflito quanto a contribuição para as atividades cênicas na cidade do Desterro.

O escritor Edy Leopoldo Tremel, um entusiasmado pesquisador da vida de Álvaro de Carvalho, explica que ele era pescador e tinha, como muitos jovens da Ilha de Santa Catarina, a meta de fazer carreira na Marinha. “Esse desejo era uma coqueluche, pela ligação da cidade com o mar e as atividades a ele relacionadas”, diz Tremel, que ocupa a cadeira nº 1 da Academia Catarinense de Letras, cujo patrono é o primeiro dramaturgo barriga-verde.

Paralelamente à vocação militar, ele escrevia e acompanhava o cenário cultural da vila natal. O primeiro texto do teatrólogo foi “Pedro Martelli”, de 1853, drama em quatro atos e um prólogo que foi editado dois anos depois pela Tipografia Catarinense. Mais tarde vieram os dramas “Uma moça de juízo” e “Raimundo”, encenados após sua morte.

Nascido em 1829, Álvaro viveu na Ilha numa época em que as atrações cênicas e musicais eram constantes, como se pode depreender pela leitura dos jornais do período. Os saraus e sessões lítero-musicais eram comuns, mesmo sendo a cidade ainda acanhada e com poucas pessoas tidas como intelectualizadas. “Nas casas mais abastadas, declamações e demonstrações ao piano sempre reuniam poetas e cantores”, afirma Edy.

Em homenagem ao dramaturgo, em 1894 o governo do Estado deu seu nome ao então chamado Teatro Santa Isabel, inaugurado em 1875 no centro do Desterro. Desde 1876, existe na praça 15 de Novembro um monumento em homenagem aos voluntários catarinenses que morreram na Guerra do Paraguai, com as letras apagadas pelo tempo.

Destemor contra os paraguaios

Após se graduar na Academia da Marinha, no Rio de Janeiro, Álvaro de Carvalho serviu a diferentes navios que cortavam o litoral brasileiro e o rio da Prata, até retornar a Santa Catarina e atuar na antiga Companhia de Aprendizes Marinheiros. Quanto tinha 36 anos, irrompeu a guerra com o Paraguai, na qual ele assumiu o comando da canhoneira Ypiranga, que participou da batalha do Riachuelo.

O escritor Edy Tremel pesquisou na Marinha brasileira, no Rio, documentos e relatos deixados pelo tenente nos quais, entre outros fatos, narra a ação da artilharia inimiga metralhando a esquadra brasileira, enquanto os combatentes nacionais se escondiam atrás do convés para proteger-se das balas adversárias. Na corte, ele também escreveu artigos que combatiam a pena de morte e descreviam a vida no mar.

Narrativas dão conta de que Carvalho era um comandante destemido e de boas estratégias de ação, especialmente quando em desvantagem numérica nas batalhas. O “Diário do Rio de Janeiro” escreveu, em outubro de 1865, sobre seu comportamento na refrega derradeira: “No passadiço, à descoberta, comanda Álvaro o seu navio durante toda a ação; as balas chovem-lhe ao derredor. A palidez estampada no seu rosto, emoldurada por densa barba negra, foi substituída por viva coloração, iluminada pelo brilho do seu olhar, dando aos presentes a impressão de que ali se achava o rijo homem de todos os tempos. Puro engano: finalizado o combate, o intrépido comandante desfalece”.

Os restos mortais de Álvaro nunca foram localizados em Buenos Aires, impossibilitando sua transferência para Florianópolis. No dia 16 deste mês, Edy fará uma palestra sobre o dramaturgo no Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, na Capital, às 16h.

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