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Grupos formados nos morros e bairros faziam a alegria dos antigos carnavais da Ilha

Os grupos se multiplicavam no Centro e nos bairros, mas era no quadrilátero da praça 15 de Novembro que tudo acontecia

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
28/02/2017 às 09H02

Passavam as festas de fim de ano e a cidade já cantarolava as marchinhas que iriam bombar no Carnaval, misturando sambas das escolas do Rio de Janeiro com hits locais compostos, entre outros, por Cláudio Alvim Barbosa, o Zininho, homem de rádio com verve poética excepcional. A folia de Momo mesclava a novidade das escolas, o escracho dos blocos (de sujos ou não) e a criatividade das sociedades carnavalescas, com seus carros de mutação. Os grupos se multiplicavam no Centro e nos bairros, mas era no quadrilátero da praça 15 de Novembro que tudo acontecia. A geração atual de sessentões sente falta dos anos em que o carnaval de rua aproximava ricos e pobres, negros e brancos, gente de todas as idades no coração de Florianópolis.

O antigo Carnaval também levava as crianças para as ruas quando - Acervo Casa da Memória/ND
O antigo Carnaval também levava as crianças para as ruas quando - Acervo Casa da Memória/ND


O bloco Os Bororós, criado em 1938 na rua Menino Deus, foi icônico. Os integrantes passavam graxa preta no corpo e, armados de lanças, saíam do bar do Quido (praça 15 com Fernando Machado), invadindo as ruas com gritos de guerra e ausência absoluta de instrumentos e música. A partir dali, os blocos viraram uma febre na cidade, e quase na mesma temporada surgiram o Filhos da Lua, o Tira a Mão, Os Motoristas se Divertem, Os Palhetinhas, o Bando da Noite, o Bloco da Base, o Brinca quem Pode e o Aí Vem a Marinha. No Saco dos Limões nasceu o Batuqueiro do Limão, que tem 40 anos de história, continua na ativa e na última sexta-feira ainda se concentrou na rua João Pinto antes de ganhar as vias da cidade.

Nem o amor irrealizado dos personagens Pierrô, Arlequim e Colombina, que confere ao Carnaval com uma pitada de tristeza, inibe a euforia quando o reinado de Momo se instala. “Basta o encontro com amigos e uma birita para ‘descer’ o espírito carnavalesco”, diz o engenheiro e artista plástico Átila Ramos, autor de livros sobre o Carnaval, incluindo uma cronologia de eventos que vão de 1832 a 2003. Ele tem na memória a evolução dos carros de mutação, que contornaram a praça central e homenageavam as autoridades na sacada do Palácio Cruz e Sousa, e o encontro das orquestras do Lira Tênis Clube e Doze de Agosto para fechar a folia, já na manhã da quarta-feira de Cinzas.

Blocos de sujos são uma antiga tradição de Florianópolis - Acervo Casa da Memória/ND
Blocos de sujos são uma antiga tradição de Florianópolis - Acervo Casa da Memória/ND


Átila recorda das meninas aspergindo lança-perfume, dos bailes chiques dos grandes clubes da cidade e do sucesso do LICGay, o mais sofisticado bloco de sujos de Florianópolis. E mais, das bandas Mexe-Mexe, que foi criada pelo jornalista Aldírio Simões e vinha de Coqueiros para a Ilha, da impagável Philarmonica Desterrense, formada por músicos que não sabiam tocar os instrumentos, e da Banda de Amor à Ilha, fundada por Luiz Henrique Rosa.

Reis momos dos clubes e da várzea

O acervo radiofônico doado pela família do compositor Cláudio Alvim Barbosa, o Zininho, para a Casa da Memória de Florianópolis, vinculada à Fundação Franklin Cascaes, pode ser um caminho para entender como era a cidade seis ou sete décadas atrás. Mesmo que o Carnaval ocupe pouco espaço no material já digitalizado e oferecido ao público, pode-se ouvir ali um grande número de marchinhas que embalavam os foliões nos anos em que a festa era dos blocos – as escolas de samba vieram depois, na década de 1950. “Vai pra casa, Padilha, vai pra casa, Padilha, vai tomar conta da mulher maravilha” foi um dos refrões mais cantados da folia na cidade.

Uma entrevista feita pelo jornalista Aldírio Simões com o ator Waldir Brazil é cheia de humor e revelações sobre aqueles tempos de muita malícia e pouco recato durante a folia. Muitos blocos nasciam dos morros e de lá desciam para a cidade, arrastando a multidão. Ainda menino, depois de entrar quase por acaso num desses conjuntos, Brazil diz que gostou da coisa. “Comecei a me meter”, contou na rádio. “Ajudava a fazer as lanças para o Bororos, que se concentrava na rua Menino Deus, perto do Hospital de Caridade. Depois, criei fantasias e formei outros blocos, como o Fugidos de Hollywood”.

Registro de Aldírio Simões e Zininho - Acervo Casa da Memória/ND
Registro de Aldírio Simões e Zininho - Acervo Casa da Memória/ND


Era comum a polícia perseguir os mais ousados e até punir brincadeiras com nomes de atrizes e atores famosos. Numa dessas, porque um integrante do grupo musical Demônios do Ritmo, do qual fazia parte como tocador de surdo, era parecido com o comandante da Marinha, todos foram em cana. Muitos blocos fechavam o desfile no bar Miramar, em frente à atual praça Fernando Machado, onde os mais afoitos se jogavam na água da baía sul, sem medo e compromisso.

Waldir Brazil ainda fala dos primeiros reis momos – do oficial, representando o Lira Tênis Clube, aos “reis momos da várzea”, que já saíam bêbados de bairros próximos ao Centro. Ocir Campos, Jacaré e Lagartixa (este, o primeiro rei “oficial”) foram, pela ordem, os mais marcantes. No mais, havia os corsos na praça 15 de Novembro, as grandes sociedades (como a Granadeiros da Ilha e Tenentes do Diabo) com seus carros de mutação, blocos de sujos e os palhaços que divertiam e jogavam capoeira no Carnaval.

Um acervo de respeito

O acervo doado por Zininho à Casa da Memória ainda não está totalmente digitalizado, mas já é possível encontrar ali registros importantes da história da cidade. Bandas carnavalescas, solenidades políticas e militares, imagens da Lagoa da Conceição quase desabitada e figuras públicas como os ex-governadores Nereu e Celso Ramos, o ator Waldir Brazil, o cineasta Silvio Back, o pesquisador Franklin Cascaes, o músico Luiz Henrique Rosa e artistas como Rodrigo de Haro, Hassis, Janga e Eli Heil podem ser vistas no acervo. Há também fotos de quando o Botafogo, com Garrincha e Didi, veio jogar em Florianópolis, e muitas gravações de programas de rádio, com seus musicais, noticiários e radionovelas.

Zininho compôs muitas marchinhas pra ao Carnaval - Acervo Casa da Memória/ND
Zininho compôs muitas marchinhas pra ao Carnaval - Acervo Casa da Memória/ND


Programas como o Bar da Noite, apresentado por Antunes Severo, levavam artistas como Neide Mariarrosa e grupos instrumentais para os estúdios. Se os músicos locais tinham seu espaço, as emissoras não abriam mão de tocar coisas de Maysa, Haroldo Barbosa, Moacir Franco, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, Tito Madi, Evaldo Gouveia, Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

Um programa marcante foi Sequências da Modelar, patrocinado por esta loja que vestia meia cidade, feito no auditório da rádio Diário da Manhã, que tinha conjunto próprio composto por nomes como Aldo Gonzaga (piano), Nabor Ferreira (sax tenor), Álvaro Gonçalves (trombone) e outros músicos. Não menos ouvido era o rádio-teatro, com novelas dramáticas que tinham tanto ou mais seguidores que as atuais telenovelas.

Opinião: Disputa pelas ondas do rádio

O rádio e o Carnaval carregam uma simbiose que será difícil desaparecer, embora tantas coisas se estejam mudando, rearranjando e surpreendendo os mais, os menos e os não sonhadores. Em 1954 uma surpresa até hoje lembrada balançou a tranquilidade dos 12 anos de liderança solitária da rádio Guarujá. Foram criadas e instaladas mais duas emissoras de na Capital: a Anita Garibaldi, acomodada no porão do consultório do dr. J. J. Barreto, e a Diário da Manhã, da família Bornhausen.
Ambas operavam “em caráter experimental”. Quer dizer, tinham que mostrar ao que vieram para, depois de aprovadas, passarem a operar comercialmente. Como era época de fim de ano, as marchinhas, frevos e sambas derramados pelas ondas das rádios Nacional e Tupi do Rio e Record e Capital da cidade de São Paulo foram apresentados como a grande novidade: agora o florianopolitano podia ouvir e decorar tudo ouvindo nas três emissoras locais as músicas que levariam para os salões do Clube Doze, do Lira e do Seis de Janeiro até explodirem nas ruas que formam a praça central.

A Guarujá viu-se atacada e colocou alto-falantes na praça 15 de Novembro, e a Diário da Manhã instalou cornetas sonoras na marquise do prédio da emissora, onde hoje funciona uma agência do Bradesco. A Anita Garibaldi, desprovida de recursos financeiros, apelou para a criatividade: usou o prestígio de um locutor contratado no Rio de Janeiro para trazer artistas nacionais e apresentar shows gratuitos na praça.

Embalados pelo entusiasmo do público local, compositores já conhecidos criaram sambas e marchinhas e passaram a participar dos programas de auditório das emissoras. Enquanto isso, o grande público ouvinte era contaminado por uma estatística que até hoje continua sendo negada, mas que deu o que falar: Florianópolis passou a anunciar a glória de ser o “terceiro Carnaval do Brasil”. Quais eram os outros? Rio de Janeiro, que já falava em sambódromo, e Recife, que elegera o frevo como o seu ritmo carnavalesco.

Antunes Severo, radialista aposentado. 

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