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Quinta-Feira, 20 de Setembro de 2018
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Grupos de ciclistas lutam por direitos, segurança e melhorias na infraestrutura em Florianópolis

Mobilizações que pedem mais ciclovias, chamam a atenção para mortes no trânsito e ensinam a pedalar ganham força em meio à falta de mobilidade urbana da cidade

Felipe Alves
Florianópolis

Basta circular pelas ruas de Florianópolis para constatar uma realidade cada vez mais evidente: as bicicletas estão tomando conta das ruas. E, com elas, os ciclistas que buscam ocupar espaços de direito em uma cidade que cada vez mais sofre com a mobilidade urbana, ou a falta dela. Seja para chamar a atenção da sociedade por conta das frequentes mortes no trânsito com a instalação de “bicicletas fantasmas”, para clamar por direitos e segurança ou para pedalar em grupos, os movimentos de bikes têm ganhado cada vez mais adeptos daqueles que procuram alternativa para o trânsito caótico e congestionado do dia a dia.

Marco Santiago/ND
Grupos como o Pedal da Quinta são instrumentos naturais de mobilização


Apesar de a consciência da população acerca do uso de bicicletas ter melhorado nos últimos anos, a luta dos cicloativistas está longe do fim: eles buscam a melhoria da infraestrutura da cidade, a redução da velocidade dos carros e políticas públicas voltadas à real inclusão de ciclistas no trânsito. Após ser atropelado por um carro na rua Osni Ortiga, na Lagoa da Conceição, enquanto andava de bicicleta, em 2006, o biólogo Daniel de Araújo Costa, 48 anos, ficou dois anos sem pedalar. Mas a paixão de criança pelo ciclismo falou mais alto e, desde 2008, ele resolveu voltar à ativa.

Costa foi eleito presidente da ViaCiclo (Associação dos Ciclousuários da Grande Florianópolis), entidade que promove desde 2001 grupos de pedais, participa de debates e integra os usuários de bicicleta na região. Assim, a mobilização por um trânsito mais humano ganha adeptos a cada dia. “O carro distancia as pessoas da rua. Com a bicicleta, percebemos a cidade, as pessoas se conhecem, se ajudam, e se torna algo solidário. São poucos ciclistas que morrem no trânsito pela quantidade que temos de acidentes no Brasil, mas quando acontece, a gente se articula para mostrar que poderia ser evitado”, diz. Em 2013, no último relatório do Ministério da Saúde, 45 mil pessoas perderam a vida no trânsito, das quais 3% eram ciclistas.  

Para Júlio Fernandes, 45, criador do grupo Pedal de Quinta e do projeto Bike Anjos, que ensina pessoas a andarem de bicicleta no trânsito, a pulverização de diferentes grupos é um instrumento natural de mobilização. “Ajuda a conscientizar os motoristas, até pela questão de os ciclistas estarem em grande quantidade na rua. Com isso, criou-se uma rede de articulação grande. Temos vários pequenos líderes que, cada um a sua maneira, ajudam a reivindicar o respeito e os direitos dos ciclistas”, afirma.  

Reivindicação de direitos e segurança

Por meio das redes sociais, blogs, sites e do “boca a boca”, os ciclistas se organizam para promover mobilizações com diferentes focos: reivindicar direitos, ajudar outros a pedalar, se exercitar, interagir com outras pessoas ou até mesmo por lazer. Exemplos disso são eventos fixos, como o Bicicletada Floripa, iniciativa mundial e que na Capital ocorre sempre na última sexta-feira do mês para clamar por direitos; ou eventos esporádicos, como a Pedalada do Rio Vermelho, que reuniu 70 moradores da região no mês passado pedindo calçadas e ciclovias na SC-406.

Segundo Fabiano Pacheco, 28 anos, conselheiro da União de Ciclistas do Brasil, e participante da Bicicletada Floripa, estes atos servem como forma de ocupar as ruas e mostrar a força de quem participa. “É basicamente um monte de ciclistas indo de um mesmo local para outro em um mesmo horário, pedindo respeito no trânsito. São movimentos crescentes e espalhados pela cidade que são importantes não para reunir ciclistas, mas para reunir comunidades”, diz.

Situações trágicas, como a morte do professor Gabriel Serôa da Mota, 61, no último dia 5, também evidenciam a união dos ciclistas. Na última terça-feira, sob chuva, cerca de 300 pessoas se reuniram na Via Expressa Sul para homenagear Mota e alertar sobre os acidentes de trânsito com a colocação de uma “bicicleta fantasma” em um poste. “É algo que poderia ser evitado e vamos para a rua para alertar sobre isso. Hoje acontece um acidente com carro, as pessoas vêem no noticiário e se torna rotineiro, como se fosse algo normal. É preciso que a sociedade comece a botar a mão na consciência”, diz Daniel Costa, da ViaCiclo.

Para Pacheco, este tipo de movimento promove uma identificação com quem se sensibiliza e faz refletir. “Qualquer um poderia ser o Gabriel no asfalto. Por isso que alguns eventos chamam tanto a atenção. Seja para pedalar, para pedir respeito aos motoristas, seja para chamar a atenção para a omissão do poder público em criar condições para usar bike”, explica.

Projeto voluntário com motoristas de ônibus

Para tentar encontrar soluções para os problemas que envolvem a falta de segurança no trânsito, surgiram iniciativas voluntárias dos próprios ciclistas. Após o acidente fatal da estudante da UFSC Lylyan Karlinksi Gomes, 20 anos, que foi atropelada por um ônibus em 2013, um grupo de ciclistas começou a dar palestras gratuitas aos motoristas de ônibus. O projeto foi realizado por dois anos e deu resultado. “A conscientização dos motoristas com os ciclistas melhorou muito. Antes eles tinham uma conduta, e agora têm outra, muito mais cuidadosa”, diz Júlio Fernandes, que também incentivou a criação de grupos de ciclismo na Capital, como Vício Pedal, Nesse Morro eu Não Morro, Pedal do Campeche e Pedal de Terça.

Fernandes estima que sejam mais de 30 grupos na cidade. “Muitos desses membros acabam tendo um trabalho educativo também, de conscientização, e boa parte troca o carro por bicicletas como meio de transporte”, conta.

Para Fernandes, iniciativas como a do prefeito Fernando Haddad, de São Paulo, que implantou 2,7 quilômetros de ciclovia na avenida Paulista, ajudam a propagar a ideia de utilizar as bikes como meio de transporte. “Isso contagia politicamente nossos próximos legisladores”, diz.

O que é necessário, para Daniel Costa, é resgatar a cultura ciclística no país. Ele ressalta que ainda existe no país a mentalidade de que bicicleta é apenas um meio de lazer e não veículo de transporte, função que a bicicleta exerceu com vigor até o surgimento dos carros. “Quando veio o carro, isso tirou os ciclistas das ruas. O carro deveria ser a ultima prioridade, pois a primeira são as pessoas, ou seja, pedestres, ciclistas e transporte coletivo. A bicicleta não é a solução para a mobilidade, mas faz parte dela”, afirma. 

 

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