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Quiosque no entorno do Hospital Regional é demolido durante reintegração de posse

Estrutura em frente ao Hospital Regional onde funcionava uma lanchonete foi derrubada nesta terça-feira; processo contra o dono do estabelecimento corria desde 2002

Michael Gonçalves
São José
13/06/2017 às 19H50
Quiosque é demolido no Hospital Regional - Michael Gonçalves/ND
Quiosque é demolido no Hospital Regional - Michael Gonçalves/ND

Os quiosques dentro do complexo do Hospital Regional de São José estão com os dias contados. Nesta terça-feira (13), uma das quatro construções foi demolida no cumprimento de uma ordem judicial de reintegração de posse movida pelo Governo do Estado em novembro de 2002. Trata-se do “Quiosque Regional”, que empregava cinco pessoas e estava no local há 29 anos, segundo a sócia-proprietária Juliana Beppler. A operação reuniu curiosos e deixou os pacientes preocupados. Moradora do município de Laguna, a aposentada Dilma Soares, 60, pensa em trazer comida de casa na próxima consulta médica.

De acordo com a gerente operacional da SES (Secretaria de Estado da Saúde), Léa Lovisi, a área onde estão instalados os quatro quiosques, três lanchonetes e uma floricultura, é de propriedade do Estado. Os processos de desapropriação das outras três construções seguem na Vara da Fazenda Pública de São José.

O quiosque derrubado tinha cinco funcionários e ocupava uma área de 190 m². “Sempre recebíamos a ameaça de despejo e vendíamos tudo, mas nunca se confirmava. Agora, fomos pego de surpresa mais uma vez e quando tentamos recorrer não havia mais prazo. Estamos muito abalados e ainda não sabemos o que iremos fazer”, comentou Juliana, que administrava o quiosque há 11 anos.

O Quiosque Regional foi demolido na manhã desta terça - Michael Soares/ND
O Quiosque Regional foi demolido na manhã desta terça - Michael Gonçalves/ND

A decisão definitiva sobre a primeira derrubada dos quiosques saiu dia 17 de março, no processo que tramitou na Vara de Fazenda Pública de São José, pelo juiz Otávio José Minatto. Em 2009, em decisão interlocutória, o juiz Paulo Roberto Froes Toniazzo já esclarecia que a ação “era fundada na recusa da desocupação de imóvel público ocupado a título precário, visando a sua retomada”.

Em meio a essa confusão estão centenas de pacientes, que diariamente se alimentam nestes estabelecimentos. “Saíamos de casa na madrugada e o transporte retorna apenas no início da noite, assim, somos obrigadas a fazer três refeições aqui. Sem as lanchonetes, onde vamos comer por perto (?)”, questiona a aposentada Dilma, que se recupera de um câncer no intestino.

Após sete anos, Priscila perde o emprego e teme pelo futuro

Com lágrimas nos olhos, Priscila da Conceição, 34, acompanhou a demolição do “Quiosque Regional”. Ela é uma das cinco funcionárias do estabelecimento e nesta terça-feira (13) ela trabalhou até as 2h da madrugada para retirar os objetos da lanchonete. Mesmo assim, ela acordou cedo e acompanhou a demolição, que levou 35 minutos.

Priscila tem dois filhos e não sabe o que vai fazer quando acordar nesta quarta-feira (14). “Foram sete anos da minha vida aqui dentro desta lanchonete, depois de ficar dois anos desempregada. O lamentável é que tenho colegas em situação pior. Tem uma funcionária que está grávida e não entrou em licença maternidade ainda. Outra, com três filhos, o marido está desempregado”, contou.

Priscila fez questão de filmar a demolição ao lado de amigos e de familiares.

Funcionária Priscila da Conceição filma a demolição - Flávio Tin/ND
Funcionária Priscila da Conceição filma a demolição - Flávio Tin/ND



Pacientes fragilizados reclamam da falta de opção para alimentação

Com o pai internado no Hospital Regional de São José, o agricultora Adelaine Kerschbaum, 45, de Ituporanga, ficou surpresa com a demolição do quiosque onde fazia a suas refeições. Em revezamento com a família para cuidar do pai vítima de câncer, ela está no hospital desde domingo (11). “Infelizmente, a comida do hospital tem vários problemas. Teve um dia que o frango foi servido praticamente cru e ninguém comeu. As lanchonetes são as opções mais próximas de comidas caseiras, mas onde comeremos sem elas?”

Recuperando-se de uma cirurgia bariátrica, a dona de casa Rosana de Souza, 53, visita o médico no Hospital Regional de São José uma vez a cada seis meses. Na próxima visita, ela não sabe como será para se alimentar. “Quem vai para o hospital está em uma situação de fragilidade e não tem condição de ficar caminhando pelo bairro atrás de opções baratas de alimentação. Como sempre, ninguém pensa na população”, disparou a moradora de Laguna.

A assessoria de imprensa da SES informou que não há projetos prontos para o espaço desapropriado. Haverá um estudo para saber o melhor aproveitamento da área.

Dono da floricultura trabalha sem saber como será o futuro

Dos três quiosques que ainda estão em processo judicial, apenas o proprietário da floricultura aceitou em conversar com a reportagem do ND. O comerciante Jurandir Ouriques, 62, trabalha sem saber como será o futuro.

A construção que abriga a floricultura existe há 25 anos. “Contra a força não há resistência. Ordem judicial se cumpre. Quando chegar a minha vez, não teremos alternativa a não ser fechar as portas e ir para a casa”, lamentou o comerciante, que é aposentado.

As pacientes Rosana de Souza e Dilma Soares - Flávio Tin/ND
As pacientes Rosana de Souza e Dilma Soares - Flávio Tin/ND



Quiosques não têm ligação com a rede de esgoto

Há seis meses, a direção do Hospital Regional de São José fez uma denúncia para a Vigilância Sanitária de São José sobre descarte irregular do esgoto sanitário pelos quiosques. As fiscais Deise Moneguela e Jania de Pinho estiveram no local e comprovaram as irregularidades. Assim, um novo processo foi aberto contra os estabelecimentos e o ponto de táxi, onde o esgoto corria a céu aberto.

“Como na região tem rede de coleta sanitária, notificamos os estabelecimentos para que fizessem as devidas ligações. O problema é que a rede dentro do complexo é do hospital, que não autorizou as ligações”, explicou a diretora geral de Vigilância em Saúde de São José, Marly Previatti.

Confirma imagens da demolição:

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